Notas do Quotidiano 5 – Fragmentos do urbano

No 5º volume da série “Notas do Quotidiano”, a Passeio apresenta “Fragmentos do urbano“, livro que reúne um conjunto de micro-ensaios publicados em nossa Galeria durante o período de 2020 a 2025. Neste conjunto de fragmentos, a Passeio propõe um olhar atento à complexidade da vida citadina contemporânea, observada e marcada pela fragmentação dos espaços e pela pluralidade das experiências que neles se desenrolam. A partir de diferentes olhares, a obra traz luz a objetos, práticas e marcas inscritas no espaço público, revelando as memórias, ações, repetições e sentidos que emergem no aparente trivial. Ao adotar o fragmentário como horizonte epistemológico e metodológico, o livro constrói um mosaico crítico e sensível que convida a pensar a cidade não como uma unidade estável, mas como um conjunto dinâmico de colagens, sobreposições e costuras (ou rupturas) em constante reinvenção.

 

O livro é composto por micro-ensaios dos seguintes autores: Helena Pires, Zara Pinto-Coelho, Lucas Novais, Marinos Koutsomichalis, Teresa Lima, Catarina Bessa Rodrigues, Cynthia Luderer, Pedro Eduardo Ribeiro, João Sarmento, Carlos Norton, Abílio Almeida, Vinicius Zuanazzi, Francisco Mesquita, Teresa Toldy, Ana “Muska” Castro e José Vicente “Coda” dos Santos.

 

Segue um excerto da introdução do livro:

 

A transição do paradigma industrial para o paradigma urbano conduziu à transformação da perceção da experiência quotidiana, através da reinvenção, nomeadamente, do espaço público. Dito de outro modo, poder-se-á associar a modernidade a uma determinada visão fragmentária da realidade social e cultural, tal qual esta se manifesta na vida urbana. A esta mudança corresponde uma “fase crítica”, considerando-se o processo pelo qual a sociedade industrial deixa lugar à “sociedade urbana” (Lefebvre, 1970; 1968/1991). Do ponto de vista territorial, a fragmentação designa um processo de estilhaçamento, de explosão de um objeto espacial, a que poderá chamar-se cidade, se o entendermos enquanto portador do ideal de uma unidade social (Navez-Bouchanine, 2002). Espacialmente, o conceito de fragmentação nos espaços urbanos sugere descontinuidades, cortes, limites, muros, visíveis e invisíveis, fraturas, em suma um tecido potencialmente explosivo constituído sob a forma de um mosaico, de uma justaposição de fragmentos, frequentemente desarticulados entre si. No contraponto do “espaço concebido” (Lefebvre, 1974), como apreender a fragmentação a partir da vida quotidiana e das práticas espaciais dos indivíduos? Do “espaço vivido”? Como dar conta das linhas de fuga, das resistências, dos modos como se costuram (ou não) os fragmentos urbanos? Pode o espaço dominado ser transformado em lugar apropriado, simbólica ou fisicamente? Como elucida Lefebvre (1983), o carácter repetitivo do quotidiano confere-lhe a falsa aparência da simplicidade. Pelo contrário, é nas repetições, nas mesmidades de todos os dias (Heidegger, 1986/2004; 1986/2005), que o inusitado e a complexidade emergem. As montagens surrealistas, inspiradoras do projeto das Arcadas de Walter Benjamin, ilustram bem a ótica de uma nova sensibilidade, estimulada pela cultura material, voltada para “telescopar o passado através do presente”. À maneira de Aby Warburg, ou mesmo de Gerard Richter, a crise da modernidade, arrastando consigo a crise da experiência, enquanto perceção do fim do sentido unitário das estruturas e das instituições tradicionais, encontra um novo modo do fazer historiográfico, materializado em artefactos tais como os atlas que costuram a acumulação de materiais e imagens, em jeito de mosaico arquivístico. Frequentemente, são os objetos deixados para trás que conferem o carácter etnográfico às vidas que perpassam o espaço urbano, deixando um rasto que permite adivinhar o papel dos sujeitos que, mantendo-se invisíveis, se expressam nesses mesmos objetos. Não sendo o paradigma materialista o único ponto de vista adotado ou exclusivo a todos os micro-ensaios expostos nesta publicação, poder-se-á fazer ecoar a perspetiva benjaminiana, segundo a qual interessará falar menos de pessoas e mais de objetos ou dos espaços que estas habitam. As fotografias de Christian Boltanski, além disso, poderão igualmente aqui servir de metáfora de uma tal força ou intensidade depositadas no objetual. Por analogia, neste livro, em consonância com aquilo que define a abordagem que tem acompanhado as produções da Passeio, adotamos o fragmentário como modelo epistemológico e metodológico, não descurando o princípio das descontinuidades que preside à montagem ou à colagem. Na experiência sensível do imediato realiza-se, segundo este paradigma, a memória social, assim como se produzem os sentidos do lugar e das relações aparentemente efémeras. Os micro-ensaios aqui reunidos procuram, assim, dar conta dos “objetos encontrados” que dão corpo à cultura contemporânea, tal qual esta se manifesta no espaço público urbano.

 

O livro encontra-se disponível, em acesso aberto, aqui na Passeio e no repositório da Universidade do Minho.

 

Referências

Heidegger, M. (1986/2005). Ser e tempo. Parte I. Editora Vozes.

Heidegger, M. (1986/2004). Ser e tempo. Parte II. Editora Vozes.

Lefebvre, H. (1968/1991). A vida cotidiana no mundo moderno. Editora Ática.

Lefebvre, H. (1970). La révolution urbaine. Gallimard.

Lefebvre, H. (1974/2000). La production de l’espace. Anthropos.

Lefebvre, H. (1983). Fulgurants progrès, crise de civilisation: quand la ville se perd dans une métamorphose planétaire, Le Monde Diplomatique, pp.16-17.

Navez-Bouchainine, F. (Ed.). (2002). La fragmentation en question: les villes entre fragmentation spatiale et fragmentation sociale? L’Harmattan.

ANO

2025

EDITORES

Helena Pires & Zara Pinto-Coelho