Aches o que aches – um livro para ser degustado
“Deus sonhou
árvores e frutos
animais e gentes e domingos
e carapaus de escabeche”
[Excerto de Aches o que aches/Dust to dust por Ana Janeiro]
A comida como pretexto para conversas, os perfumes da infância, as tradições de que fugimos, para nos serem devolvidas, como boomerang, na idade adulta. Numa tentativa de recensão crítica com sabor a amizade, David Bowie e o Alentejo, Aches o que aches/Dust to dust.
A minha amiga não sabe que é minha amiga, nem nós nunca o manifestámos desse modo. Mas lá nos fomos juntando por uma qualquer lei da atração, que o Carlos Norton deve saber explicar. Norton, aliás, também carrega no que faz o cheiro cálido do Algarve, aroma de figo e alfarroba, com um toque de cidade cosmopolita.
Como classificar estas pessoas de lado nenhum, na transição entre a raiz da terra e as mais arrojadas culturas urbanas? Que produzem arte para o pó dos tempos?
A minha amiga fez um livro para ser comido. Vou tentar não me desviar desse propósito. É sobre isso que venho aqui falar hoje. Até ler Aches o que aches/Dust to dust, eu relacionava a minha amiga com o personagem de Perfect Days (Wenders, 2023). Não é que tinha razão? Começámos por simpatizar ao falar de comida, misturada com frevo e outras afinidades. Depois, de cada conversa, repetidamente, virámos costas e seguimos os afazeres conformistas. Ofereci-lhe massa de pimentão caseira, ela devolveu-me uma pasta pesto, que ainda não provei, mas suspeito que será deliciosa, porque carrega a intenção da nossa amizade encoberta.
O livro. Aches o que aches é poesia. Como toda a poesia, vive de flocos, fragmentos deixados como por acaso. Nela pode comer-se o Alentejo. Pois que há tomatada de ovos, alho, cacholada e outros ingredientes metafóricos que me aguçam o apetite. Suspeito que a minha amiga não cabia num lugar que, além dos aromas gastronómicos, também continha culpa, missas e outras claustrofobias, que aprendi igualmente a reconhecer e das quais me tenho desviado conscientemente, como ela, julgo.
Algures num espaço entre Braga e Nova Iorque, como António Variações, Dust to dust é um ato de rebelião, que cinicamente (ou lucidamente?) acredita que as palavras serão engolidas pelas gravatas burocráticas mas que, ainda assim, persiste na invenção do mundo. E porque não?
Comi o livro em pedaços, quase de um gole, como quem bebe gin tónico mordendo maçãs. E agora vou ter de o saborear um pouco mais lentamente, um dia. E, já que estamos na amizade, as primeiras palavras de Aches o que aches remeteram-me para Cynthia Luderer, na sua militância em saber mais sobre o poder da comida e comunicação enquanto cultura. Cynthia, aqui está! Um universo gastronómico grávido de cultura, memória, tempo, mandando-se para outras fronteiras, sem nunca se desligar das heranças que, por vezes, renegámos, só para podermos voltar em liberdade a elas.
Recordo Miguilim: é preciso distância para ver (Rosa, 2024). Fugindo do lugar da infância para sermos outro, tarde ou cedo vêm à tona os restos, a boiar, como num caldo, cujo sabor é uma tijela esboroada, com uma colher ao alto, o palrar das gentes. Talvez uma sopa de nabos (sempre detestada e que agora faço com gosto, uma vez por ano, para abrir simbolicamente o Outono), vinho doce, cheiro a serrim e outros, que afloram como um refluxo.
Neste livro, há tinto e rum, pedacinhos eróticos, uma fluência de lengalenga e humor que nos salva. Como o café. Entre o arrojo pop multifacetado de David Bowie e as cores da terrinha. Mais não digo. Bom apetite!
Para saber mais, visite:
https://officiumlectionis.pt/produto/ana-janeiro-aches-o-que-aches-dust-to-dust/
Recensão por Teresa Lima
Publicado a setembro de 2025
Livro por Ana Janeiro
Referências
Guimarães Rosa, J. (2024). Miguilim. Tinta da China.
Wenders, W. (Diretor). (2023, dezembro 14). Perfect Days [Drama]. Master Mind, Wenders Images.
ANO
2025
AUTORES
Ana Janeiro / Teresa Lima
EDITORES
Officium Lectionis