Veneza (Fragmento #02)

Ela senta-se na esplanada e pede um café. Não o ouço, mas conheço-lhe o hábito. Senta-se ali normalmente duas vezes por semana, e é sempre para beber um café. O Ogio não serve cafés, apenas refeições, mas àquela hora prematura prevalece a cumplicidade com a vizinhança. Ela mora ao virar da esquina, não sei bem se na segunda ou terceira porta.

O empregado traz-lhe o café e ela retribui com um sorriso, com aquele sorriso. Da janela do meu quarto apenas vejo metade da esplanada, mas é sempre desse lado que ela se senta. Já nos cruzámos algumas vezes, mas nunca tive coragem de lhe dirigir palavra. A última vez, há duas semanas, foi na livraria da Calle de l’Ogio o del Cafetier. Imerso nas estantes recheadas de lombadas, entre sonhos e viagens, despertei para outro sonho quando ela passou por mim e lançou-me um sorriso e um olá. Fiquei sem reacção, aparvalhado.

De todas as vezes que os nossos caminhos se atravessaram, nunca soube o que dizer, como começar um diálogo, sem aquele medo de que pudesse sair da minha boca um disparate repulsivo. Mas hoje sei o que lhe dizer. Naquele dia, na livraria, reparei que ela comprou um livro de Boris Vian, o Outono em Pequim. Procurei nas minhas caixas e estantes e encontrei. A minha edição em francês do Arranca-Corações. Deixei-o pousado na mesa à entrada, à espera do momento em que ela se sentasse no Ogio.

Saio de casa disparado, livro na mão. Percorro em escassos segundos a Calle Colombina até ao Canale di Cannaregio. Olho em frente. Vejo-a sentada e ao seu reflexo nas águas. Sigo à direita, em passo apressado, pela Fondamenta Savorgnane, pela Fondamenta Venier. À porta do Palazzo Manfrin um grupo de pessoas bloqueia-me a passagem. Consigo esgueirar-me entre braços, carteiras de senhora e comentários à exposição de Anish Kapoor. Agora vem o pior, passar a Ponte delle Guglie. Malditos turistas (devia ter ido pelo outro lado, pela Ponte dei Tre Archi), demoro uma eternidade a atravessar selfies, trolleys, imbecis de olhar pasmado. Ouço comentários em línguas que desconheço, mas adivinhando interjeições à minha bruta passagem. Deixo os comentários para trás, mais a ponte e as selfies. Viro à esquerda pela Fondamenta Cannaregio, felizmente deste lado há poucos turistas e consigo arrepiar caminho de forma mais rápida. Uns minutos depois chego ao Ogio. A esplanada está vazia. A última mesa está desocupada, apenas restam como vestígios uma chávena de café vazia e uma moeda de dois euros.

Olho para o outro lado do canal. Vejo a janela do meu quarto, ali tão perto.

Carlos Norton

Publicado a 21-11-2022

Ficha Técnica

F#02

Som gravado com binaurais Roland CS-10 EM

Veneza (09.09.22 ; 07:17)

45º 26′ 39,43”N ; 012º 19′ 26,70”E

Gravação junto ao Canale di Cannaregio, movimento matinal.

Para saber mais:

O Vizinho da Frente (5 vizinhos em 5 Fragmentos)

Ficheiros audio


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LOCALIZAÇÃO

LOCAL: Vêneto

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