Uma lupa para as bolsas térmicas

Na transição do fim de férias para o regresso ao trabalho, olhamos para as lancheiras da praia. Afinal, a alimentação também é uma manifestação cultural da vida em sociedade.

 

Cynthia Luderer, investigadora no CECS

Publicado a 09/09/2022

Verão, férias e praia! Essa composição triádica, frutificada em paisagens às bordas de muitas cidades, inspira novas narrativas vinculadas às dinâmicas conferidas nesses ambientes. No que tange aos peculiares comportamentos dos atores que ali se instalam, por curtos períodos, diante das diversas atividades que buscam para atender seus gozos, é válido perceber a relação que levam com a temática da alimentação.

A praia é um espaço que convida ao ócio, assim como à contemplação, mas não se pode generalizar essa máxima, pois há diversas atividades vinculadas ao trabalho que se sobressaem nessas espacialidades. Nesse sentido, dentre uma pluralidade de cenas que podem ali ser tomadas, é viável encontrar os profissionais dedicados à exploração da comensalidade. Afinal, o sal pulverizado no ar, combinado com as diferentes práticas ali desenvolvidas, parece abrir o apetite das pessoas. Com isso, entreter as suas papilas gustativas torna-se uma atividade que se adequa a esse ambiente.

Ainda que os mercados instalados nas cidades se apresentem como relevantes ícones para se perceber a cultura alimentar de uma área urbana, a praia também reserva particularidades nesse sentido. Inclusive, ela também provoca os sujeitos a estabelecerem relações entre o passado e o futuro pela via dos sabores, convocando suas memórias e imaginações. Com esse quadrante, torna-se curioso refletir sobre os diferentes aspetos vinculados aos alimentos que são ofertados e degustados nas praias.

Por certo que cada uma delas reserva suas peculiaridades. No Brasil, por exemplo, podem ser conferidas dezenas de propostas alimentares a circular entre os banhistas. As iguarias se destacam por distintos modos. Apoiadas em diferentes suportes — comumente rudimentares e nem sempre embaladas —, elas são movidas pela dinâmica de seus vendedores, que promovem seus acepipes por meio de suas vozes, cantos, gritos e gingas. Assim, ainda que exalem peculiares cheiros que contribuem para chamar a atenção dos menos atentos, o acréscimo da sonoridade e da visualidade de vestimentas e acessórios, por vezes bizarros, utilizados pelos ambulantes nas suas passagens entre os banhistas, agregam valor às diversas iguarias.

Há muitas praias pelo mundo com dinâmica semelhante, e outras sem esse opulento movimento, porém, isso não impede pensar sobre a comensalidade que se dá nesses lugares onde, como frisa Loiola & Miguez (2013), primam a convivialidade. Em Portugal, por exemplo, esse modelo não é visto. Nesse sentido, a costa portuguesa torna-se um palco cultural diferente para ser contemplado. Não há camarões fritos no espeto sendo transportados, queijos coalhos a serem torrados na brasa, salgados e pasteis de vento sendo fritos, castanhas de caju ou amendoim na casca carregados em grandes sacas, assim como biscoitos, queijadinhas, milho cozido, caipirinhas, raspadinhas, chás, sumos, ostras ou até mesmo espumante em suas praias. No entanto, vemos as bolas de Berlim no ambiente luso, opções tão ou mais calóricas do que se vê nas diversas propostas que se movem nas praias brasileiras.

Comercializadas por ambulantes e publicitadas por pequenos estabelecimentos instalados à beira do início do trecho de areia das praias, as bolas de Berlim — ou cartuchos com diversas bolinhas — tornam-se as estrelas nas praias lusitanas, para serem consumidas sob o sol de verão. É um indicador que, assim como no Brasil, as praias portuguesas também são propícias para o esquecimento dos discursos da saúde e da vigilância sanitária, que imperam na rotina dos ambientes urbanos. Numa navegação pelas redes sociais em época de silly season são frequentes essas referências à praia e às férias como cenário obrigatório para consumo de tal iguaria.

Ao pensar nesse ambiente inserido às bordas das cidades, é relevante alinhar-se com Canclini (1996), que defende o consumo como um exercício complexo, que está para além da aquisição de bens. Com base nesse indicador, temos um ponto valioso para potencializar as reflexões sobre a dinâmica dos sujeitos em torno de determinados hábitos — ou habitus, se recorrermos a Bourdieu (Bourdieu & Wacquant, 2005) — nessas espacialidades. Nesse sentido, é merecido pensar nas bolsas térmicas, a companheira de verão dos banhistas, centrada nas rodas de amigos ou familiares. Retirada do fundo do armário no verão, ela ganha a sombra na praia para melhor reservar a qualidade das bebidas e dos diferentes acepipes levados para os momentos de lazer. Mas, como isso ocorre? Digo: quem elabora e se responsabiliza pelo processo desse planeamento e transporte desse objeto? Vemos nessa dinâmica a distinção de gênero? Como as memórias são ali instaladas? Afinal: o que há dentro dessas bolsas e em quais momentos os alimentos são consumidos?

As férias e o verão já estão na fase descendente, mas deixo essa provocação para que o tema venha à voga. Afinal, podemos circular por esses cantos (às bordas) das cidades e praticar um exercício de flânerie, espelhado no que fez Benjamim (1987) por vários centros urbanos europeus, percebendo as dinâmicas dos atores em torno da atividade alimentar. Também é pertinente nesse exercício direcionar um olhar para as mãos dos sujeitos (Leroi-Gourhan, 2010), que cumprem o papel de diferentes ferramentas comumente usadas no cotidiano no exercício da comensalidade. Esse cenário ainda provoca aos questionamentos relacionados aos discursos da saúde e da vigilância sanitária, que imperam (e impedem) determinados exercícios, que supostamente seriam mais “naturais” para o homo sapiens. Essa dinâmica, enfim, nos convida a refletir sobre uma máxima expressa por Bakhtin, segundo a qual “o comer e o beber são uma das manifestações mais importantes da vida do corpo grotesco” (1987, p. 245).

Imagens: Cynthia Luderer, recolhidas em praias brasileiras no ano de 2015 e em praias portuguesas em 2022.

Referências

Bakhtin, M. (1987). A cultura popular na Idade Media e no Renascimento: o
contexto de François Rabelais
. Hucitec.

Benjamin, W. (1987). Obras escolhidas II: Rua de mão única. Brasiliense.

Bourdieu, P & Wacquant, L. (2005). Una invitación a la sociologia reflexiva. Siglo XXI editores.

Canclini, N. (1996). Consumidores e cidadãos: conflitos multiculturais da globalização. UFRJ.

Leroi-Gourhan, A. (1959-2010). A libertação da mão [Tradução de João Viana Jorge]. Laboreal, 6(2), 1-6. https://doi.org/doi.org/10.4000/laboreal.8861

Loiola, E.; Miguez, P. (2013). Praia: cultura, convivialidade e trabalho. Revista Eletrônica Internacional de Economia Política da Informação, da Comunicação e da Cultura, 15(1), 176-196. https://seer.ufs.br/index.php/eptic/article/view/712

 

 

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