Um encontro com Kairós em uma aldeia portuguesa

Um dos provérbios comumente ouvido em Portugal é “Abril, águas mil”, no entanto, os índices apresentados pelo Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA, 2023) indicam que o cenário das precipitações nesse mês deixou de ser como outrora, enquanto os gráficos demonstram que as chuvas em Outono têm ganhado exuberância. A tecnologia é um recurso que ajuda a conferir as condições meteorológicas e vale dar atenção a esse tema para perceber por onde as alterações climáticas têm nos levado. Distinguindo-se do rigor tecnológico, os provérbios permanecem como indicadores do tempo-clima, aquele para o qual olhamos, admiramos e clamamos ensejos.

Muitos desses dizeres populares estão voltados à esfera campesina e transparecem a potencialidade das sabedorias desse ambiente. Afastado das dinâmicas urbanas, que se adaptaram às máximas impostas por Cronos, a vida no campo reserva possibilidades para encontrar outros deuses que aludam ao tempo, como Kairós, por exemplo, um dos filhos de Cronos. Ainda que o vocábulo designado a ambos seja o mesmo, o tempo que carregam são distintos.

Cronos é o deus titã vinculado ao cronômetro, aquele que devora cada um de nossos segundos de vida, nos empurrando para a morte. Para Benveniste (1974), contudo, esse tempo cronológico não coincide com a gama dos tempos inseridos nas vivências e experiências humanas. Será necessário recuarmos à mitologia grega, da qual somos herdeiros culturais, buscando uma mais completa expressão da abrangência do tempo, ao convocar outras representações, que acabam por exprimir com justeza a variabilidade dos tempos que nos toca. Por sua vez, Smith (1969) ressalva que a sensibilidade dos gregos, ao distinguir as diferenças do tempo da (e na) vida cotidiana, eleva as experiências humanas.

Pode-se inferir que o tempo cronológico, cotidiano, associado às rotinas, emaranha-se ao esquecimento, portanto, para convocar as memórias de vida, cabe escapar de Cronos e ter afagos de outros deuses. Mas não é fácil deixar esse titã para escanteio e tão pouco derrotá-lo. Apenas a um de seus filhos coube essa façanha: Zeus! Mas é possível inibir a sua potência quando se agarra a mecha de cabelos de Kairós, a representação divina do momento oportuno. Assim o fiz.

Diante do propósito de acompanhar uma Escola de Outono, ditada pelo tema do Ciclo da Água, me levei por um par de dias à aldeia de Aveloso, na região central de Portugal. Era fim de outubro e, dentre as várias águas abordadas no curso, as das chuvas se materializavam, indo ao encontro de uma providente rega para debater a Agroecologia e os Sistemas Alimentares. A Associação Fragas, instalada em Aveloso, uma das aldeias de São Pedro do Sul, tornou-se o cerne do acolhimento das duas dezenas de pessoas que buscavam essas trocas. Quantitativamente, somávamos o dobro de habitantes que vivem nessa aldeia.

A depender do momento do dia, via-se o cenário da grandiosa natureza à nossa volta. A montanha, assim como as poucas casas – muitas abandonadas -, formavam um lindo quadro junto ao rio, que corria e cortava o ambiente. A torre da Igreja também se acentuava, assim como o cemitério que a ladeava, indicando que era ali o lugar onde se mantinha a maior concentração de pessoas – e memórias – dessa espacialidade. O reduzidíssimo número de habitantes vivos é intimida(dor), mas os colegas consolavam esse feito dizendo haver cenários menos povoados. No caminho que fiz para lá havia indicações de outras aldeias, inclusive, e uma delas se sobressai como enredo por ser ocupada por uma única habitante.

O interesse em desbravar novas rotas, agregado a uma tecnologia com pouca informação, me inseriu nesse caminho. Encaminhada pelo GPS me deparei com um trecho que se esvaía diante um mar de areia. Kairós veio ao meu encontro nesse momento e, parafraseando Saraiva (2021), me mostrou que o mafarrico havia deixado a porta aberta. A rota era sinalizada como Caminho do Inferno e, explicitamente, assim o era. Só depois conferi sobre o perigo daquele panorama surpreendente e de extrema beleza indicado para ser visitado na primavera (Portal do Inferno e Garra, s.d.). Como era final de outubro, as águas torrenciais caiam entre as rochas, encharcavam as folhas das árvores, que formavam um lindo tapete no tom cobre em diversos trechos da estreita estrada, de onde se via o profundo precipício. Ao menos o cheiro de eucalipto era sublime, mas a névoa não ajudava a se enquadrar visualmente no cenário das gigantes montanhas. Quando os olhos encontravam por esgueiro os números ditados pelos controles do carro percebia-se Kairós, pois o tempo era outro, singular, moroso, diferente de quando se circula nas rodovias, onde há controles emanados por Cronos.

Essa lição singular e traumática diante do tempo/clima, aliada à convivência com a abrangência das águas, podia ser um recorte para um filme de terror, mas minha simpatia por esse gênero é pequena. Por sua vez, uma produção imagética leva a refletir sobre a trilogia das categorias comunicacionais defendidas por Harry Pross (Beth & Pross, 1990): a da mídia primária, quando os corpos se apresentam como transmissores das mensagens; a secundária, em que os distintos aparatos amplificam os sinais comunicacionais, como os objetos e a própria escrita; e a mídia terciária, quando se requer o uso de aparatos eletrónicos para decodificar as informações. Penso que a vivência desse cenário pela tela plana, situada e controlada por uma mídia terciária, cronometrada, enfraqueceria essa lição- a de estar nesse ambiente. A sensação e a emoção de ser guiado por Kairós nos expõe a um momento único, que não se pode rebobinar mecanicamente. Esse cenário imprevisível, de um pequeno corpo a ser engolido por montanhas, como se estivesse a escorregar por uma gigante garganta molhada, aderiu-se ao meu contexto mnêmico. Tal representação estava alhures do tempo cronológico, ele se esvaiu diante um corpo e a própria natureza fundamentalmente imprevisíveis.

Encontrar-se com o próprio corpo como um suporte mediático, assim como com a magnitude da natureza, podem ser provocações que façam refletir se a trilogia proposta por Pross está esgotada. Talvez essas nuances possam se apresentar como um processo para abstrair novas perceções mediáticas no reduto comunicacional. Para tanto vale nos inspirarmos nas mitologias para tentarmos lá chegar, ampliando as representações-limitações da própria linguagem, inclusive. Mas essas abstrações requerem deixarmos Cronos mais vezes às bordas de nossos passeios e trazer para o centro outros deuses do tempo e de outras figuras para alinharmos debates profícuos que endossem a construção de novas memórias. Se for no outono, essa imersão será mais prazeirosa à lareira, a assar as castanhas colhidas entre as folhas caídas nos caminhos mais húmidos.

Texto e imagens: Cynthia Luderer

Publicado a 07/12/23

Referências:

Benveniste, É. (1974). Problema de linguística geral II. Pontes.

Beth H., & Pross, H. (1990). Introducción a la ciencia de la comunicación. Anthropos.

Saraiva, H. (2021, 26 agosto). O mafarrico deixou a porta aberta. [blog] https://viagensaovirardaesquina.wordpress.com/tag/portal-do-inferno/

Smith, J. (1969). Time, times and the right time: Chronos and Kairós.  The monist, 1-13.

Visit arouca (s.d.) Portal do inferno e garra: Patrimonio Natural. https://visitarouca.pt/atracoes/portal-do-inferno-e-garra/

 

LOCALIZAÇÃO

LOCAL: Viseu

LATITUDE: 40.8284621

LONGITUDE: -8.0491571