Ser-corpo na Praça de Braga

É porque o corpo é tão central nas nossas vidas que ele se torna a matéria a transformar, de modo a dar-se ao olhar dos outros de acordo com as regras de conveniência. (Fernandes, 2021, p. 17)

Se fizermos abstração do corpo, não resta mais que um ser de puro espírito, um ser que não é um ser propriamente dito, já que, precisamente, ele deixa de ser individuado, uma espécie de…impessoal, uma substância homogênea e não diferenciada. (Henry, 2001, p. 142)

 

E se nós começássemos por dizer, tal como Luís Fernandes, que “de tanto investirmos no corpo-imagem, menorizamos o corpo vivido” (2021, p. 13)? Qual poderia ser a ligação dessa frase com um micro-ensaio sobre Lugares Públicos, mais especificamente o Mercado Municipal de Braga?

 

Sobre o corpo-sujeito

No seu mais recente livro, As lentas lições do corpo. Ensaios rápidos sobre as relações entre o corpo e a mente, Luís Fernandes reaviva e resgata a ideia simples, porém frequentemente ignorada, de que todo o ser humano é constituído de um corpo vivido, dotado de historicidade e alvo de uma construção social, onde a cabeça é uma parte (e não é, ao contrário do que frequentemente pensamos, a única parte corporal a ser valorizada/exercitada). Nesse ponto, lembramo-nos da relação de não familiaridade entre o peixe-água da qual McLuhan fala no seu O meio é a mensagem.

Para Fernandes, “é porque o corpo é tão central nas nossas vidas que ele se torna a matéria a transformar, de modo a dar-se ao olhar dos outros de acordo com regras de conveniência” (2021, p. 17). Aqui compreendemos o fato da interação humana quotidiana se desdobrar com diferentes corporalidades ou corporeidades. A não ser que permitamos, o contacto diário que fazemos em grupo não se realiza pelo corpo, mas sim com aquele “conjunto de manifestações simbólicas da existência corporal, devidamente contextualizado no tempo histórico e no espaço social” (Ferreira citado por Fernandes, 2021, p. 18).

Fernandes utiliza uma tripla metáfora para falar dos corpos-imagem que deambulam pelas ruas da cidade. A metáfora criada e utilizada envolve os corpos 1) na marquesa, 2) no podium e 3) na passerelle. Prosseguindo, de forma simplificada, a metáfora introduzida pelo autor pressupõe que, respetivamente, esses corpos desejam a) aprovação médica, b) aclamação da sua performance e c) exibição da sua imagem corporal modelada de acordo com uma expectativa geral. No centro, numa intersecção entre os três “corpos”, há uma palavra em comum: a procura pela saúde. Ou melhor, aquilo que hoje se compreende como sendo “saúde”.

Não iremos nos ater ao facto do porquê procurarmos, consumirmos e ansiarmos por tanta saúde nos últimos anos. Seria uma adaptação do self-made man em tempos neoliberais? Seria a “saúde”, compreendida como um bem de consumo, o pináculo da conquista humana, algo que garantiria a nossa sobrevivência num mundo em que as instituições não são mais capazes de o fazer?

O ponto a que gostaríamos de chegar é que há uma correlação entre esses corpos da metáfora e o corpo-sujeito/corpo-espaço, tanto ao nível das suas construções e manutenções do viver quanto da própria regulação que se opera nas paisagens urbanas. Para isso, aproveitamos as palavras ainda frescas na memória do livro supracitado e de outros autores, para apresentar uma ideia.

 

Sobre o corpo-espaço

Há muito que vemos uma renovação dos mercados públicos. O fenómeno não fica restrito às cidades portuguesas. Transborda fronteiras e atinge diferentes pontos do mundo. Em Shaping the social through the aesthetics of public places: the renovation of Leeds Kirkgate Market, a pesquisadora Elisabetta Adami reflete sobre a regulação semiótica operada atualmente nos diferentes espaços urbanos, com ênfase do olhar no Kirkgate Market (UK). Segundo a autora, a regulação semiótica nos espaços urbanos é uma tendência que envolve restrições ao uso de recursos populares para representação em vários domínios. Como mostra, a pesquisa organizacional tem investigado cada vez mais a “estética das organizações”, ou seja, como as corporações podem moldar (e moldam) a semiótica e a materialidade dos seus espaços e produtos, regulando assim a aparência do espaço material e dos sujeitos/corpos que lá trabalham (indumentária, aparência, comportamento…) criando uma imagem desejada da sua marca e controlando a percepção dos seus clientes.

Ao realizar um trabalho etnográfico no Kirkgate Market, a autora reflete sobre possíveis ganhos e perdas devido à alteração realizada no local após a sua remodelação. O plano de renovação buscava “atrair um público-alvo mais jovem e de alto orçamento, promovendo a imagem do lugar, que há muito é cercado por discursos de decadência, negligência e crise” (Adami, 2018, p. 94). Para tal, as mudanças semióticas identificadas no espaço envolvem 1) uma maior presença de sinalização institucional com o objetivo de marcar o lugar, 2) uma maior regulação semiótica dos recursos visuais, 3) regulação do estilo próprio dos comerciantes e de suas bancas de acordo com o novo público pretendido. O objetivo era o de, frente a um discurso de ruína do lugar – produzido por quem? –, vincular a imagem do novo mercado com um discurso que o promovesse enquanto um patrimônio histórico local reinventado, espaço tradicional de comunidade e convivência (Adami, 2018, p. 110).

Se o ganho na coesão visual com uma paisagem minimalista e um logo moderno atingido com essa remodelação – que agrada aos mais jovens – é evidente, ele encontra-se, todavia, acoplado a uma perda na “expressão do vivido (em vez de promovido) nas práticas do espaço” (Adami, 2018, p. 109). Como exemplo, a autora comenta que após a renovação do mercado, não há mais espaço para os bancos de boas-vindas e convite à prosa anteriormente dispostos pelos vendedores, bem como não há espaço para as sinalizações pessoais, que envolviam o uso de pequenos adereços e enfeites, letras e cores de sinalização dos preços e identidade de cada vendedor.

 

Alinhavando percepções: paragem nas notas de terreno

Como não pensar na Praça de Braga após essa reflexão de Adami? Como vem se dando a relação corpo-espaço, cliente-vendedor, cliente-cliente?

Destacamos abaixo dois trechos de notas de terreno redigidas no âmbito do projeto COMPRAÇA.

 

“Chego ao mercado – A Praça – pelas 08h32. Chuva, ventania, dia cinzento. A primeira impressão que tenho é de surpresa ao ver o mercado. Entrei. Os portões mantiveram os verdes originais. Lembro deles. O local está amplo e claro, um belo contraste com a memória que tenho de uma entrada escura, apinhada de pessoas e muita confusão. (…)

Lembro também que logo à direita, ao entrar, ficavam as senhoras das flores, uns embutidos/queijos e umas poucas bancas com frutas. Esse era o lugar, para mim, mais escuro e abafado. O pé direito agora está consideravelmente baixo. Ou pode estar alto, mas devido às “ripas de madeira” de dimensão considerável, dá uma sensação de achatamento ao local. A arquitetura faz-me lembrar automaticamente a Capela Árvore da Vida, o que achei, de facto, curioso”. (Nota de terreno de Thatiana Veronez, 20 de janeiro de 2021)

 

“Rodeando o chafariz, dou de caras com uma extraordinária fotografia ampliada, sobre uma das bancas do outro lado. Tropeço de repente no passado da minha infância (imagino uma sensação parecida com os choques mnemónicos de Proust, como por exemplo viagem no tempo despoletada pelo aroma das celebérrimas Madeleines ou pela audição de uma particular melodia tocado no piano). Era aquela, precisamente, a banca logo à entrada quem entrava à esquerda, a banca que mais parecia um jardim de tão primorosa que era a disposição dos produtos, a variedade de cores, o meticuloso enfileiramento das lindas couves-flor, as abóboras…e ali está, na foto, a vendedora, não como eu a recordo, mas muito mais envelhecida na imagem. Recordo-a ainda uma mulher nova, já lá vão quarenta anos atrás! Na altura parecia-me alta, esbelta, com o cabelo, loiro ou ruivo, acabado de sair do cabeleireiro, com um daqueles penteados do tipo volumoso com efeito de laca, ao estilo dos anos sessenta. Tenho a vaga ideia de que também pintava as unhas, de vermelho. A minha mãe comentava recorrentemente o bom aspeto dos produtos, mas para minha grande desilusão nunca ali parava. Uma altura interroguei-a. Dizia-me sempre que ali era tudo tão bonito que aquela mulher era com certeza muito careira. Acabávamos sempre por deambular pelos cestos das lavradeiras. Recordo que a minha mãe nunca deixava de regatear preços e medidas dizendo coisas como “olhe que esse quilo está mal pesado!”. Uma arte de compra que não herdei. Pelo contrário, nunca pergunto preços, nunca confirmo os trocos e jamais me preocupei em vigiar a balança. Na Praça, como noutros lados, compro um tanto ao acaso, sem critérios muito seguros, deixando-me sobretudo levar pelo aspeto das mercadorias (e pelas embalagens, quando as há).

Continuo presa nas minhas memórias, paralisada perante a imagem. Observo uns enfeites ao fundo, pendentes, fazendo-me pensar que aquela foto teria sido tirada por alturas do S. João. Em baixo, no canto de saída do olhar, inscritas duas datas «1957-2017». Vou saindo aos poucos para fora da imagem e sinto-me vivamente impressionada com a reprodução viva de um cenário muito similar, no espaço real. A banca que a fotografia decora é da mesma dona, que, entretanto, se aproxima de mim dando-se conta do meu interesse pela fotografia. Encontra-se composta com o mesmo primor de outros tempos. É a mesma Dona Maria Teresa (pergunto-lhe o nome na conversa que se segue) da imagem, a mesma que tanto me havia encantado décadas atrás”. (Nota de terreno de Helena Pires, 18 de fevereiro de 2021)

 

Entre a imagem e o vivido: ser-corpo na Praça

Assumindo a individualidade da realidade humana como individualidade sensível, somos necessariamente levados a considerar o corpo, aquilo que nos define pelo modo como nos movimentamos e expressamos na interação com os outros, num dado lugar. O nosso corpo é corpo-hábito, corpo-memória, corpo do sentir, mais do que da sensação (Henry, 2001, p. 144).

Desde os primeiros passos que vamos acumulando a memória, e a aprendizagem, de cada experiência, os chãos explorados, os objetos tocados ou transportados, a construção de um espaço íntimo, pessoal e social ou público, como descreve Hall (1959/1994), falando-nos, nos anos 60, de proxémia.

Na Praça, os corpos das vendedoras e dos vendedores falam-nos, significam modos simbióticos da experiência arrecadada ao longo de muitos anos, costurada num corpo quase-protésico que se estende para lá do orgânico, do qual faz parte a banca, os cestos e as caixas dos hortícolas e do peixe, outrora frequentemente carregados à cabeça, as facas afiadas prontas a desmanchar as peças da carne, cortando-a em pedaços mais pequenos ou separando-a dos ossos. Expressa-se nos seus movimentos uma coreografia há muito ensaiada, um vaivém permanente entre bancas, balanças, fornecedores, clientes e outros tantos invisíveis afazeres que desfilam nos bastidores, de volta da marmita do almoço ou do termo de leite com café.

O corpo de vendedoras, como o de Maria Teresa, mencionado no excerto do diário de campo acima, impressionantemente dobrado sobre si mesmo, fala-nos de tudo isto, mas também da mulher-mãe que ali cuidou do seu filho recém-nascido, embalado na caixa de fruta, por de baixo da banca, de entremeio entre o aviar da clientela. É agora um corpo frágil que não resistiu ao peso da vida. Há um outro corpo que não venceu. O de Maria Teresa aprumada e altiva, fazendo justiça à reputação de ser uma das vendedoras mais “finas” e bem-apresentadas da antiga Praça, sempre de cabelo e unhas pintadas, e então com banca privilegiada e especialmente bem composta, logo à entrada. A Maria Teresa tinha então um “ar de cidade” que contrastava com os modos mais rudes e as amplas gestualidades das outras vendedoras, especialmente as vendedoras-lavradeiras. Na banca de Maria Teresa não se regateava, ou se tal acontecia Maria Teresa mostrava-se imperturbável, desencorajando quem quer que fosse a negociar sequer um cêntimo.

Já junto às lavradeiras tudo era pretexto para que os corpos se degladiassem, aguerridamente. Os sacos mal pesados, os preços “sem vergonha”, a fruta podre escondida no fundo da saca, aviada à pressa, os insultos de parte a parte, as guerras e palavrões trocados entre vizinhas. Por entre regateios, mas também de adulações, do tipo “meu amor” ou “minha flor”, circulavam trejeitos acompanhados de expressões faciais e corporais intimidatórias, desde puxões de braço que procuravam, literalmente, não deixar fugir as clientes, a gestos braçais efusivos, de couves-lombarda ou vagens erguidas no ar.

A composição de gestualidades era orquestrada com uma paisagem sonora variada e contrastante, conforme se percorria a Praça, o cima e o baixo, o andar de cima onde estavam as flores caras e as frutas de tamanho grande e polidas, onde reinava um ambiente mais sereno, ou os diferentes recantos e as esquinas, a caminho do amontoado de cestos e galinhas soltas junto ao chafariz. Algumas vendedoras movimentavam-se pela Praça, à procura de clientes, de cesto no braço ou à cabeça. Imperava a desordem, a insalubridade, o chão negro atapetado de folhas de couve e outros vegetais amarelecidos apartados, um ambiente degradante pontuado por alguns rasgos de brio, como era o caso da banca de Maria Teresa ou das bancas mais limpas do andar de cima. A estratificação social fazia-se sentir na arquitetura do espaço, desenhando-se subtilmente diferentes circuitos para as classes populares e mais “rurais”, e outros para as “criadas” das “casas de família”, algumas delas situadas bem perto, na Rua Abade da Loureira, da cidade ou para as donas de casa mais “urbanas”. As metáforas do “corpo-sem-órgãos”, de Deleuze e Guattari, ou os mapas de “distinção”, económica, social e simbólica, bourdieusianos, à mistura, descreveriam bem a estrutura da antiga Praça.

Hoje, a Praça é um corpo-espaço disciplinado, regrado, cada vez mais uniforme, um corpo transparente, propício ao controlo e à vigilância, nos termos de Foucault. Facilmente vemos um qualquer ponto a partir de um qualquer ponto. Os pisos térreos deram lugar a “largas avenidas”, como se a inspiração haussmanniana tivesse transbordado muito para além do redesenho de Paris, na transição para o século XX, impondo-se ainda o mesmo ideal de modernidade, o mesmo paradigma ideológico e a preferência pela impessoalidade, já observada por Baudelaire, Benjamin, ou mesmo Vertov, quando no registo cinematográfico evidencia as grandes mudanças ocorridas na paisagem urbana nas grandes metrópoles em princípios do século XX.

Como discute Hall (1959/1994), “o espaço fala” é um “meio de comunicação”. Tanto potencia o contacto como a distanciação. É próprio da modernidade a organização do espaço de modo a colocar cada coisa e cada um no seu lugar. Tudo cumpre, ou deve cumprir, uma função, e as estruturas materiais devem contrariar as misturas, o inclassificável. Assim acontece com a nova arquitetura da Praça. A predominância da forma panótica, os amplos corredores, a luminosidade, a padronização dos materiais e design – ainda que pontilhada de desvios mais ou menos subtis, como acontece com os guarda-sóis de diferentes cores e feitios que de se destacam na sua coabitação dos “oficiais” – inibem a espontaneidade e mesmo a eventual tendência para uma certa promiscuidade que a convivência apertada e permanente entre os sujeitos, num mesmo espaço comum, poderia agenciar.

Nos aprisionados corpos das vendedoras e vendedores, assim como das compradoras e compradores parecem ressoar, subconscientemente, os efeitos de um tal novo paradigma disciplinador: ouvimos menos o regateio, os corpos apresentam-se de postura mais reta, quase em pose de parada militar – pose visível frequentemente assumida, por exemplo, pelas floristas –, há menos tensão evidenciada, mais silêncio, imperando uma espécie de contenção generalizada nos modos de estar e de interagir, nos jeitos de expressão corporal, do falar, do aproximar e do afastar: “o fluxo de palavras e a alteração da distância entre pessoas em interação são elementos do processo de comunicação” (Hall, 1959/1994, p. 202). Mais corpos-imagens de acordo com o expectado do que corpos vividos num espaço público.

As perceções sensoriais e as emoções moldam a ação do corpo. Porém, como defende David Le Breton (2003; 2010), em contiguidade com os modelos de interacionismo simbólico, estas são mediadas pelas representações sociais, as quais se vão transformando, produzindo subsequente efeitos na performatividade dos sujeitos. De que corpo falamos, quando falamos de corpo na Praça? De corpos-imagem na passerelle, na marquesa e no podium, que dão-se a ver naquele lugar, pintado como histórico e tradicional, comprando/vendendo produtos bio e saudáveis? De um corpo trans-humano, um corpo que se deseja controlado? Que outros corpos transbordam no ser-juntos?

 

Thatiana Veronez e Helena Pires

Braga, outubro de 2021

 

Referências:

Adami, E. (2018). Shaping the social through the aesthetics of public places: the renovation of Leeds Kirkgate Market. In E. S. Tonnessen & F. Forsgren (Eds.), Multimodality and aesthetics (pp. 89-111). Routledge.

Fernandes, L. (2021). As lentas lições do corpo. Ensaios rápidos sobre as relações entre o corpo e a mente. Contraponto.

Hall, E. T. (1959/1994). A linguagem silenciosa. Relógio d’Água.

Henry, M. (1965/2001). Philosophie et phénoménologie du corps. PUF.

Le Breton, D. (2003). Adeus ao corpo. Papirus.

Le Breton, D. (2010). A sociologia do corpo. Editora Vozes.

LOCALIZAÇÃO

LOCAL: Braga

LATITUDE: 41.5542808

LONGITUDE: -8.4275673