Paralelas na cidade 3 – Saito e a imperfeição na Rua da Alegria

Calcorreamos três ruas paralelas da cidade do Porto: Bonjardim, Santa Catarina e Rua da Alegria. As três rasgam a baixa, desembocando junto ao Marquês. Paralelas na cidade é um olhar deambulante, necessariamente atento e emocional sobre o espaço urbano. Paralela 3 – Rua da Alegria

Acabo o périplo das Paralelas na Cidade na Rua da Alegria, Porto. A deambulação é intrinsecamente emocional. Por esse motivo, não há uma razão para serem três paralelas, nem para serem estas. A não ser o facto de ter sido, durante um período de tempo, uma escolha repetidamente realizada, em caminhadas ao calhas na cidade. Gosto particularmente da Rua da Alegria por ser, das três, aquela que, esteticamente, sempre me desagradou. Nem nunca percebi a razão do nome, em rua tão suja de poluição e com habitações tão tristonhas. Haverá que convocar, aqui, a estética da imperfeição de Saito (2017) e outras correntes estéticas ou filosóficas para entender porque é que somos atraídos para uma certa decadência. Ou não. Talvez não seja necessário intelectualizar. Apenas deixar-se guiar. Até, enfim, compreender que o único paradoxo da Rua da Alegria não está no nome. Que rua tão tremendamente discordante! Está lá a casa de Guilhermina Suggia (exemplar de Arte Nova no Porto), assim como prédios com varandas minúsculas e persianas sujas. Toda a rua é atravessada pela algazarra da urbe, estacando em grafitti ou num bucólico jardim, que adorna o cruzamento com a Rampa da Escola Normal. Há, na rua, habitação, escolas, muitas oficinas automóveis, até a casa de rolamentos e uma quase invisível vida cultural. Num portão manhoso e escuro assisti, em tempos, a uma deliciosa peça de teatro, com o público sentado no chão. Saltitam, de número em número, experiências artísticas: o Clube do Desenho, uma oficina de cerâmica, muitos ateliers caóticos de atividade. E, também, clubes noturnos, mercearias de bairro, o vertiginoso edifício da Cooperativa dos Pedreiros. Além do estaleiro a céu aberto da Baixa, mas isso não é uma singularidade da rua. Que se assume, a um tempo, transgressora, acolhedora, feia, velha e contemporânea.

Mas, sim, recolhidas as primeiras impressões deambulantes, vale a pena uma incursão por Yuriko Saito. Vimos, sobretudo nas paralelas 1 e 2 (Rua do Bonjardim e Santa Catarina) uma cidade que se molda ao perfecionismo, lado a lado com a ruína do pré-existente. Os andaimes expostos pela Baixa do Porto deixam antever estes exemplares “cosy”, “clean”, cosmopolitas, incaracterísticos. Como um corpo aperfeiçoado pelo ginásio e gabinetes de estética ou a fruta calibrada das grandes superfícies. É de Saito a imagem: “a estética da perfeição e da imperfeição rege vários aspetos da nossa vida quotidiana, desde os relvados verdes e frutas e legumes em perfeita forma até à moda rápida e ao corpo humano esculpido” (2017). O que o autor propõe (inspirado na estética japonesa) é justamente uma aceitação da ruína como condição emancipadora e crítica para a análise do quotidiano. A perfeição idealizada inibe o sentido crítico, já a imperfeição gera uma aceitação da harmonia do imperfeito e, em simultâneo, uma busca da qualidade. Neste périplo pela Rua da Alegria, deixemo-nos levar por um amoralismo, que não cria pré-conceitos, e por um sentido crítico que não procura apenas o belo, mas indaga, em palavras e olhares, o corpo-cidade enigmático, brincalhão, secular e polimórfico.

Referência

Saito, Y. (2017). The role of imperfection in everyday aesthetics. Contemporary Aesthethics, 15. https://digitalcommons.risd.edu/liberalarts_contempaesthetics/vol15/iss1/15/

 

Teresa Lima, 28-03-2022

LOCALIZAÇÃO

LOCAL: Porto

LATITUDE: 41.1559135

LONGITUDE: -8.6024821