Que tempo tem o tempo do jardim do Parque São João da Ponte?
Que importância tem o tempo na forma como vivemos e sentimos os espaços públicos urbanos e na relação que desenvolvemos com esses espaços físicos?
Que tempo e que espaços, podemos perguntar. Uma possível resposta: o tempo tal como o percecionamos e sentimos fluir nas praças, nos jardins, nas ruas, nos espaços que partilhamos com outros na nossa vida social quotidiana, sempre que os atravessamos, a correr, a andar, de carro; quando por lá paramos e os contemplamos; quando sentimos o seu cheiro, dependendo da tarefa que temos em mãos, do tempo dos calendários, dos relógios, das estações do ano, do tempo dos nossos corpos, do ritmo ou compasso que escolhemos ou a que estamos sujeitos.
Filipa Matos Wunderlich, professora de design urbano na University College London, defende que o ritmo é um dos elemento-chave na perceção e experiência que temos do tempo nos espaços públicos urbanos. De que ritmos são compostos esses espaços, pergunta Filipa nas várias investigações empíricas que desenvolveu sobre o assunto (Wunderlich, 2023). Pensar em ritmos é pensar em movimento, repetições, regularidades, ciclos, velocidades, intensidades e mudanças em organizações e arranjos particulares que compõem e definem a identidade de um determinado espaço. Inspirada na ritmanálise do filósofo Henry Lefebvre e no trabalho do sociólogo Eviatar Zerubavel, ambos focados nos ritmos da vida quotidiana nas cidades, Filipa defende que os ritmos que definem a identidade de um espaço urbano compreendem várias dimensões, ou tipos de ritmos, entre eles, os socioculturais, naturais, sonoros, espaciais, olfativos… São estes ritmos, que integram e combinam atributos da natureza e das interações entre os indivíduos, o espaço e os objetos que alimentam a forma como sentimos e representamos o tempo de um lugar e, assim, a ligação emocional e afetiva que temos com ele (Tuan, 1977) .
A este propósito ocorreu-me a ligação particular que tenho com o jardim do Parque São João da Ponte em Braga, e a imagem que dele tenho — até que ponto e como o quanto me agrada aquele espaço, e as memórias que dele tenho, estão relacionadas com os ritmos que caraterizam o seu quotidiano e o distinguem de outros jardins urbanos?
Como será ir para o jardim com esta preocupação, a de escutar conscientemente os diferentes tipos de ritmos que em conjunto definem aquilo a que Filipa chama a “Sinfonia de um lugar” (2008)? Qual é o tempo deste lugar (Lynch, 1972), do “meu” jardim?
Situado no final da Avenida da Liberdade, próximo da base do Monte do Picoto, o Parque da Ponte, renovado em 2016, conta com cerca de sete hectares e meio. É composto por uma parte exterior, a mais antiga, do lado nascente, onde se encontra a capela de São João sob denso arvoredo; e uma parte interior, do lado poente, com um lago artificial, rodeado por sequoias, tílias, abetos, cedros, azevinhos, camélias e sobreiros, um jardim que se enquadra na imagem do movimento cultural Romântico do século XIX (Andresen, s/d; Ferreira, 2024).
Figuras 1 a 4. Interior do Parque
Nos muitos anos que já levo na cidade de Braga senti sempre o jardim do Parque da Ponte como um espaço à parte, menos do que real, que se faz sentir lento e nos pode fazer abrandar, mesmo que o propósito seja usá-lo como corredor para chegar mais rapidamente à cidade, ou como pista de corrida.
Figura 5. Corrida
O lago, a água a correr na fonte, a constância sonora do repuxo de água, o movimento lento dos patos a chapinhar, o vento a soprar por entre as copas das árvores, alguém a alimentar os pombos que depenicam grão a grão as migalhas espalhadas no passadiço junto ao lago… A ordem natural comanda as sensações de calma, tranquilidade e prazer que o espaço desperta, ainda que este tempo, ou andamento, para usar um termo da musicologia, possa ser perturbado ou pontuado por acontecimentos súbitos, humanos ou naturais: um grito de uma garça, batidas de bolas, vozes humanas, ruído de um aspirador de folhas, alguém a tocar guitarra, a abertura do sistema de rega…
Figuras 6 e 7. Fluxos de água
Os ritmos do jardim do Parque da Ponte variam com a altura do ano, da semana e também do dia. Fazem parte da rotina os sons humanos e mecânicos produzidos pelo grupo de trabalhadoras municipais que atravessa diariamente o jardim, por volta das 7h:30, com os respetivos carrinhos, puxados à mão ou motorizados, cada uma com destino próprio. Uma espécie de arruada que anuncia o despertar do dia naquele espaço que quotidianamente acorda de uma forma preguiçosa e lenta. A lentidão do despertar é também marcada pelos jogos de luz e sombra, com a luz solar a inundar tímida e respeitosamente o espaço físico do parque à medida que o tempo do horário avança. A rotação do sol ao longo do dia inflete os ritmos espaciais e socioculturais que marcam a identidade daquele lugar, seguramente, e, diria eu, é crucial na sensação de tranquilidade, segurança e conforto que nele sentimos.
Mas a vida no parque é conjugada também noutros fluxos, que são típicos daquele espaço. Às terças-feiras, dia da feira semanal em Braga, que se estende no sopé do Monte Picoto, faz parte da ambiência sonora da vida do parque, ao despertar do dia e pelo início da tarde, o ressoar do som da batida dos ferros, implicado no montar e desmontar das tendas dos feirantes. No verão, em tempo de férias escolares, são vários os grupos de jovens que fazem do espaço um ponto de encontro diário, para conversar, trocar a bola, parar a meio de um passeio de BTT; os namorados que se sentam nos bancos ou nas mantas a passar a tarde, os avós que passeiam os netos, os grupos que se encontram para desfrutar de uma refeição em conjunto. A chegada a Braga nos últimos anos dos muitos migrantes, em particular da comunidade brasileira, veio trazer a este espaço toda uma nova dinâmica e com ela uma imagem renovada, que se quer longe da imagem estigmatizada de outros tempos. Esta dinâmica expressa-se não apenas em ocasiões pontuais (Pradel, 2013), por o jardim ser palco de vários eventos anuais organizados por aquela comunidade, mas regularmente, em especial quando as condições climáticas convidam e permitem alimentar a sociabilidade (Simmel, 1917/1981) e a convivencialidade (Illich, 1973) e assim os sentimentos de familiaridade e de bem-estar que integram a experiência deste jardim.
Figura 8. Lago do Parque daPonte
Creio que nesta sensação de estar fora de Braga em Braga, na magia que resulta dos ritmos e tempos próprios deste lugar, tem um papel deveras importante aquilo a que alguns chamam de “paisagem sonora” (Schaffer, 1977), ideia que remete para a ambiência sonora que carateriza o jardim, o conjunto de sons, sons de fundo, sons limpos, que ressoam e se vão alternando em diferentes padrões de intensidade, regularidade, duração e repetição ao longo dos dias, das semanas, das estações…No preciso momento em que escrevo este texto a experiência sonora do jardim do Parque da Ponte foi completamente alterada por via dos trabalhos de reconstrução de um edifício contíguo ao espaço. Os sons motorizados ou mecânicos que costumavam fazer parte do background, dos sons de fundo, passaram a fazer parte dos sons da frente, durante a maior parte do dia. A experiência aural deste lugar alterou-se e, com isso, o seu potencial de nos transportar para um além harmonioso e equilibrado. Lamentavelmente, não temos o poder “Dos pássaros de Londres” de Cesariny:
“Os pássaros de Londres
cantam todo o inverno
como se o frio fosse
o maior aconchego
nos parques arrancados
ao trânsito automóvel
nas ruas da neve negra
sob um céu sempre duro
os pássaros de Londres
falam de esplendor
com que se ergue o estio
e a lua se derrama
por praças tão sem cor
que parecem de pano
em jardins germinando
sob mantos de gelo
como se gelo fora
o linho mais bordado
ou em casas como aquela
onde Rimbaud comeu
e dormiu e estendeu
a vida desesperada
estreita faixa amarela
espécie de paralela
entre o tudo e o nada…”
Zara Pinto-Coelho
Braga, setembro de 2025
Publicado a 12 de setembro de 2025
Referências
Andresen, T. (s/d) (Coord.). Jardins históricos do Minho. https://www.minhoin.com/fotos/editor2/minhoin/gca/ajh_jhm_i_20230705.pdf
Cesariny, M. (S/d). Poemas de Londres. https://www.portaldaliteratura.com/poemas.php?id=692
Ferreira, R. (2024, 24 de fevereiro). O centenário do Parque da Ponte. Correio do Minho. https://correiodominho.pt/cronicas/o-centenario-do-parque-da-ponte/15796
Illich. I. (1973). Tools for conviviality. Harper & Row.
Lynch, K. 81972). What time is this place? Massachusetts Institute of Technology.
Pradel, B. (2013). Rythmes événementiels et aménagement des espaces publics à Paris, Bruxelles et Montréal. Loisir et Société / Society and Leisure, 36(1), 78-93.
Schafer, R. M. (1977). The tuning of the world. Destiny Books.
Simmel, G. (1917/1981). La sociabilité. Exemple de sociologie pure ou formale. Sociologie et Épistémologie (pp. 121-136). PUF.
Tuan, Yi-Fu (1977). Space and place. The perspective of experience. University of Minnesota Press.
Wunderlich, F. (2023). Temporal urban design. Temporality, rhytm and place. Routledge.
Wunderlich, F. (2008). Symphonies of urban places: Urban rhythms as traces of time in space. A study of ‘urban rhythms’. https://discovery.ucl.ac.uk/id/eprint/1314821/
LOCALIZAÇÃO
LOCAL: Braga
LATITUDE: 41.5416871
LONGITUDE: -8.418896199999999

























