O que é a cidade?

O Monte da Lua – Ideia e sentimento

 

 

 

Ali tudo se torna possível.
Uma cidade?

Afrontar os nevoeiros que a cobrem, é uma escolha.
E passada a porta da decisão, abrem-se intactos os seus mistérios
e o improvável que se passeia en plein air e sem reserva.
A bagagem, melhor deixá-la à entrada.
Assim livre de acessórios e certezas,
caminhamos na direção do que tememos conhecer.

Atravessar a cidade para a ver da serra.

Ao alcance do olhar abre-se o mar em praias íntimas de areia fina e clara. As altas arribas cortam a pique a paisagem, desde sempre luxuriante e motivo de renovado encanto. Romanos, lusitanos e árabes, muçulmanos, cristãos e judeus, estes obrigados a forçado abandono, todos foram aqui atraídos por uma beleza que não esconde inconforto. Depois vieram príncipes e poetas, curiosos e nómadas, todos sedentos de prometida harmonia. A todos este lugar lança uma fala e dela ninguém sai privado. Como este sussurro frontal que me diz:

Nada é vulgar, tudo é figurável.

No interior, caminhos de muita sombra entre bosques densos. Não é raro entrever palácios fechados, quintas silenciosas com segredos que respiram nas folhas húmidas de árvores antiquíssimas. Ainda do alto e com o mar em fundo, os risos francos das crianças que fomos, recordam ao coração o justo batimento do afeto e da força de viver.

A brisa passa, e sem a tocar prende da nuca os medos ali escondidos. E voa entre a neblina que ali se fez mais espessa.

De regresso à gruta das acácias, despem-se as vestes do encontro. Devagar, torna o rosto dos dias. O verde da paisagem instala-se no olhar. E acomodado, saúda o farol que, ao longe, continua a ser guia. O  diálogo permanece, num cúmplice baixo-contínuo.

Presença do mistério, os gatos chegam sem convite humano.
E quando o olhar desce ao caminho, atraído pela flor que nasce entre as pedras,
um gato ruivo deixa o muro onde fingia dormir, lançando-se sobre a nuca descoberta,
seu novo colo.

 

Carolina Leite

 

Referências sugeridas

  • Uma obra/texto literários: Llansol, M. G. (1996). Inquérito às quatro confidências. Diário III. Lisboa: Relógio d’ Água.