O Carnaval de Estarreja – Parte II: O Cortejo Noturno
Era dia 28 de fevereiro de 2025. Chegamos a Estarreja cerca de 30 minutos antes do início do cortejo noturno das escolas de samba e podemos notar um grande movimento pela cidade em torno do Carnaval. Há algumas pessoas fantasiadas e em grupos, mas o movimento geral é de famílias e todos muito agasalhados por conta do frio que faz. Ao contrário de um Carnaval brasileiro, em que a festa e o barulho tomam todas as ruas de assalto pelos arredores, aqui temos um Carnaval bastante comedido, com as pessoas se destinando ao sítio de Carnaval de maneira organizada e conversando em um volume bastante baixo.
Fazemos uma breve pausa para jantar em uma barraca de lanches e logo corremos para a nossa arquibancada, sendo necessário cruzar a avenida em que ocorrerá o desfile para lá chegarmos. Neste momento, quase me perco do Leo, que por estar ansioso e com medo de perder o desfile, despontou na frente. Enfim, tudo correu bem e nos ajeitamos para ver o primeiro desfile.
Já de início, o clima da arquibancada destoa de um desfile de Carnaval no Brasil. Quase não se vê pessoas a conversar, cantar, dançar ou festejar. A reação do público se limita a observar o desfile, cuja primeira escola na avenida é a Trepa de Estarreja, cujo tema se dedica à obra de António Variações, o camaleônico músico português que fez sucesso entre o final dos anos ’70 e início dos anos ’80.
O desfile da escola apresenta uma comissão de frente que, destoando da escola Vai Quem Quer, possui alguns poucos homens a desfilar. A presença masculina é tímida ao longo do desfile, mas aparece em algumas alegorias e alas. Durante este desfile, percorremos a evolução da carreira de António Variações, com destaque para alegorias como um salão de beleza ou um palco com António ao centro, iluminado por painéis de LED e um globo de discoteca.
No público, temos reações tímidas, como breves palmas para acompanhar a música e alguns gritos quando uma ala passa próxima a um grupo de apoiadores da escola em questão. Todavia, não há nenhum sinal de dança nas arquibancadas. Passa um drone com a bandeira da escola acima da avenida, o que atrai a atenção do público. Na avenida, as passistas mandam beijos para amigos que localizam nas arquibancadas e estão extremamente sorridentes, em um gesto de felicidade pela execução de um trabalho longevo, ao mesmo passo em que estão a realizar uma performance enquanto passistas a desfilar na avenida. Enquanto isso, o corpo de organização do desfile se situa ao lado, acompanhando cada ala, sempre de olho no tempo e a gritar para as passistas “bora, anda”, sinalizando que é necessário correr para cumprir o tempo do desfile.
Figuras 1 a 3. Desfile da Escola de Samba “Trepa de Estarreja“
Ao fim do primeiro desfile, faço uma breve pausa para buscar cervejas e, no bar, já há uma confraternização de carnavalescos e torcidas, ao som de “Alegria” de Ivete Sangalo. Os grupos estão fechados e sem muito espaço para interação, mas pude notar uma trupe de carnavalescos do grupo “Charanguinha” de Ovar, que estavam animados para a próxima escola a desfilar, a Vai Quem Quer. Fiquei com a impressão de que, apesar de uma certa rivalidade entre cidades em busca do título de “melhor Carnaval de Portugal”, os grupos em si demonstram um respeito mútuo por todos os que fazem estes carnavais acontecerem.
Retornando às arquibancadas, inicia-se o desfile da Vai Quem Quer, cuja temática se enfoca em tradições da agricultura em Portugal. Contrastando com a nossa primeira visita ao ensaio técnico, o desfile em si – com toda a produção de alegorias e fantasias – é um bocado encantador. Como eu já tinha decorado o samba-enredo da escola, o cantei a plenos pulmões, o que despertou alguns olhares do público ao redor, como se eu estivesse a descumprir o ritual da festa aqui em Portugal. Ao fim do desfile da Vai Quem Quer, os integrantes do grupo “Charanguinha” de Ovar logo despontaram a comentar: “já ganharam, não precisam nem de competir”. Meu colega Leo também endossou esse coro, argumentando que a Vai Quem Quer apresentou um desfile muito mais próximo a um desfile do Rio de Janeiro do que a escola anterior. Apesar de minha simpatia à Vai Quem Quer pela recepção que tivemos, confesso que fiquei mais impressionado com a primeira escola (Trepa de Estarreja), apesar de ser um leigo em assuntos de Carnaval. Surpreendentemente, minha leiguice foi acompanhada pelos votos dos jurados, visto que a Trepa de Estarreja e seu António Variações foram os vencedores do desfile.
Figuras 4 a 6. Desfile da Escola de Samba “Vai Quem Quer“
Em sequência ao desfile da Vai Quem Quer, tivemos a escola Os Morenos, com um tema voltado ao universo da literatura e a sua importância. Com um samba-enredo que mesclava sonhos, contos de fada e paixão pela escola azul e branco, o desfile foi – possivelmente – o que mais suscitou uma resposta do público. Deste desfile, destaco a presença de uma criança com deficiência, a desfilar junto a seu andador como um garoto perdido da Terra do Nunca de Peter Pan. Também pude observar que, para as crianças presentes na arquibancada, era um grande momento de festa, seja jogando confetes na avenida, seja juntando-se às barreiras da arquibancada para verem o desfile mais de perto.
Figuras 7 a 9. Desfile da Escola de Samba “Os Morenos“
Por fim, decorreu o desfile da escola Samba Tribal, que apresentou um desfile homenageando o continente africano. Este talvez seja o desfile que mais nos gerou um estranhamento, seja por apresentar uma África tribal, com ênfase em savanas e animais (como uma zebra em um dos elementos alegóricos), seja por trazer passistas portuguesas a desfilar com perucas que emulavam cabelos cacheados e black power — seria isto um gesto de reconhecimento e respeito às diferenças? Prefiro ver desta maneira do que acreditar que seja apenas um caso de apropriação cultural. Ao fim do desfile, mais uma surpresa: a escola trazia um carnavalesco negro à frente da execução do samba-enredo, possivelmente sendo a figura que sugeriu tal temática.
Figuras 10 a 12. Desfile da Escola de Samba “Samba Tribal“
Se, inicialmente, fiquei com uma gigantesca impressão de tudo aquilo ser um caldeirão de apropriação cultural ao invés de um caldeirão de hibridismo cultural (Canclini, 1990; Bhabha, 1998), quanto mais eu refletia, mais eu compreendia que estava diante de um grande terceiro espaço, definido por Bhabha como:
espaço contraditório e ambivalente da enunciação […] É o Terceiro Espaço que, embora em si irrepresentável, constitui as condições discursivas da enunciação, garantindo que o significado e os símbolos da cultura não tenham unidade ou fixidez primordial — e que até os mesmos signos possam ser apropriados, traduzidos, re-historicizados e lidos de outro modo.
(Bhabha, 1998, pp. 67-68)
Este terceiro espaço que localizamos, quando olhado por um prisma decolonial (Walsh, 2006), nos faz saltar aos olhos uma série de ambivalências, dentre as quais me questiono se a tradução e ressignificação de práticas culturais do Carnaval brasileiro respeitam o país de origem ou se pode ser interpretado como um sutil gesto de recolonização. A mesma pergunta vale para a representação da África: é um gesto de honra e valorização da história do continente ou uma apropriação que pode ser lida como um sutil gesto de recolonização? Além disso, o fa(c)to de cantarem em português brasileiro indica um respeito a esta variante da língua? Como isso repercute posteriormente na vida daqueles que participam deste Carnaval? E a figura da mulher sensual que é representada pelas passistas, simboliza uma emancipação do corpo feminino português ou perpetua imagens exotizadas das mulheres brasileiras?
Saliento que tais questões são feitas para estimular um debate, principalmente sob uma ótica decolonial, todavia, ressalto a alegria (mesmo que comedida) dentre todos os que visitaram o Carnaval de Estarreja. Para além destes apontamentos, destaco o caráter de festa, que me parece levar a um ambiente de respeito, integração e comunalidade; torço para que iniciativas como o Carnaval de Estarreja abram as portas para uma maior tolerância quanto às variedades linguísticas e imaginários coletivos em Portugal, nem que seja por meio de um confuso terceiro espaço que promove uma multiculturalidade à moda de Estarreja.
Texto e imagens: Lucas Novais (CECS/Universidade do Minho)
Publicado em 12 de junho de 2025
Este micro-ensaio é a segunda parte de uma duologia intitulada “O Carnaval de Estarreja: Estranhamentos de um Terceiro Espaço criado pelas Escolas de Samba“. A primeira parte pode ser lida aqui.
Referências
Bhabha, H. K. (1998). O local da cultura (P. A. Nascimento, Trad.). Belo Horizonte: Editora UFMG.
Canclini, N. G. (1990). Culturas híbridas: Estrategias para entrar y salir de la modernidad. México: Grijalbo.
Walsh, C. (2006). Interculturalidad y colonialidad del poder: Un pensamiento y posicionamiento otro desde la diferencia colonial. In C. Walsh, W. Mignolo & Á. García Linera (Eds.), Interculturalidad, descolonización del Estado y del conocimiento (pp. 21–70). Buenos Aires: Ediciones del Signo.
LOCALIZAÇÃO
LOCAL: Aveiro
LATITUDE: 40.7530053
LONGITUDE: -8.5662668























