O Carnaval de Estarreja – Parte I: O Ensaio Geral

O carnaval carioca, popularizado mundialmente pelas escolas de samba, atua enquanto um grande símbolo da cultura brasileira, além de nos servir como um belo exemplo de hibridismo cultural, como nos apontam os historiadores Simas & Fabato (2015, p. 12) acerca de suas origens: 

 

Poucos locais seriam mais propícios ao surgimento das escolas do que a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, o Oxossi caçador das nossas macumbas. A geografia que mistura morro e asfalto, as tensões entre uma cidade negra – porto de entrada de milhares de escravos vindos da África e ponto de atração para milhares de libertos que chegam ao Rio nos anos imediatamente posteriores à abolição da escravatura, em 1888 – e uma cidade que tentou tirar onda de europeia (a “Paris Tropical” das reformas urbanas capitaneadas pelo prefeito Pereira Passos no início do século XX) possibilitaram que informações culturais de diversos matizes circulassem e produzissem um caldo de cultura peculiar. Tem de tudo na receita carioca

 

Mesmo não sendo adepto desta festividade popular, fui convidado por meu colega Leonardo, também doutorando em Estudos Culturais, a investigarmos as escolas de samba de Estarreja, aqui em Portugal, pois a tradução de uma festa – tão ligada à nossa cultura nacional brasileira – em solo português, nos deixou um bocado curiosos para buscar entender o que viria a ser este caldeirão de hibridismo cultural. Portanto, sob a luz do conceito de hibridismo cultural (Canclini, 1990; Bhabha, 1998), isto é, de uma série de processos socioculturais em que determinadas estruturas e práticas – únicas e distintas – combinam-se em novas estruturas, práticas e objetos híbridos, lançamo-nos ao desafio de conhecer os desfiles das escolas de samba de Estarreja.

 

Era dia 08 de fevereiro e iniciamos a nossa visita por Ovar, após eu e Leo assistirmos aos desfiles de anos anteriores no YouTube e notarmos que os desfiles das escolas de samba de Ovar pareciam mais bem produzidos do que os de Estarreja, no sentido de terem mais pessoas a participar enquanto público e membros do desfile. Como Ovar era caminho para Estarreja, havia tempo para uma breve visita.

 

Chegando em Ovar, localizamos que as escolas de samba e grupos carnavalescos ficavam centralizados em um único espaço, a “Aldeia do Carnaval”, que agregava cerca de 24 galpões, distribuídos entre 4 escolas de samba e 20 grupos carnavalescos. Cada galpão concentrava itens de cada desfile, com os enredos colados às paredes, sendo notório que existia uma divisão de gênero nas tarefas a serem realizadas, isto é, os homens se concentravam nas tarefas mais “organizacionais” (alegorias e música) enquanto as mulheres estavam à frente das tarefas mais “performativas” (como o desfile e seu andamento), embora fosse possível localizar algumas poucas pessoas de cada gênero transitando entre tarefas – em uma proporção 90/10.

 

Figuras 1 e 2. A Aldeia do Carnaval de Ovar

 

Demos uma breve volta pelo espaço, podendo notar que o ambiente se assemelhava a um clube, em que as famílias ligadas a cada grupo/escola se encontravam descontraidamente, sempre identificáveis pelas cores de sua agremiação. Também foi possível perceber que as miúdas demonstravam estar extremamente alegres e sempre a pular ou dançar, enquanto os miúdos geralmente seguiam os seus papais de maneira tímida e emudecida – os pais, neste caso, reuniam-se aos fundos de cada galpão, onde havia uma espécie de pequeno bar em que degustavam finos de Super Bock.

 

No dia em questão, haveria um desfile pela cidade e, apesar de nossa expectativa por um espaço cheio de música, apenas o grupo Charanguinha testava o seu carro de som, que quase me ensurdeceu. Aproveitamos para conversar brevemente com algumas agremiações, descobrindo um inesperado padrão: quase não havia brasileiros nas agremiações, eram geralmente no máximo 2 por agremiação.

 

Nossa passagem por Ovar foi bastante curta, pois tínhamos uma reunião agendada com uma representante da Escola de Samba Trepa de Estarreja. Ao chegarmos em Estarreja, verificamos que, ao contrário de Ovar, que possuía um espaço reservado para todas as agremiações, cada agremiação tem o seu espaço próprio. No caso em questão, tanto a escola de samba Trepa de Estarreja quanto a escola Vai Quem Quer situavam-se próximas, em uma área bastante rural e ao lado da linha do trem, distando cerca de 3 minutos à pé uma da outra.

  

Tentamos visitar a Trepa de Estarreja, entretanto, por ser um dia que contaria com uma grande festa à noite, não obtivemos contato com nenhum representante, apesar de conseguirmos visitar brevemente o seu espaço. A escola encontrava-se vazia, exceto por alguns trabalhadores a organizar a festa que ocorreria mais tarde. De início, achei curioso que a escola possuía as mesmas cores da Estação Primeira de Mangueira, tradicional escola de samba do Rio de Janeiro e dona do coração do sambista Cartola. Em conversa com meu colega Leonardo, me foi exposto que, em pesquisa prévia, ele notou que quase todas as escolas de samba de Portugal fazem alusão a algumas escolas de samba tradicionais do carnaval carioca.

 

Realizamos um breve passeio pelo centro da cidade, que encontrava-se deveras vazio. Ao passarmos em frente à Câmara Municipal, observamos que todas as agremiações que compõem o Carnaval de Estarreja tinham os seus emblemas em destaque. Inclusive, achei deveras interessante que existiam 2 grupos carnavalescos dedicados às mulheres.  

 

Figura 3. Câmara Municipal de Estarreja

 

No centro da cidade, havia um espaço dedicado ao Carnaval, onde se realizavam os ensaios das diferentes escolas e grupos. Este mesmo espaço foi onde se realizou o desfile (ou cortejo) de Carnaval em si. No caso, conseguimos chegar bem no início do ensaio da escola Vai Quem Quer e, já de início, me surpreendeu que o público ali presente era quase que totalmente português. Tal demografia também era notória na própria escola. Assim como nos vídeos a que assistimos previamente à nossa visita, era possível perceber que o desfile era composto quase que exclusivamente por mulheres passistas, enquanto os homens estavam localizados quase que exclusivamente na bateria da escola, exceto por poucas figuras masculinas que complementavam alguns elementos cenográficos, como espaços dedicados a pequenos carros alegóricos ou a figura do mestre-sala que acompanhava a porta-bandeira.

 

 

Figuras 4 e 5. Sítio do Carnaval em Estarreja

 

Apesar de estar um grande frio, todas as passistas vestiam-se com shorts e salto alto, com uma grande presença de mulheres adolescentes e jovens adultas, além de pequenas alas mirins repletas de jovens meninas. Enquanto aguardavam a sua ala entrar na avenida, notei algumas destas crianças a brincar com gravetos, como se fossem varinhas mágicas de pequenas bruxas.

 

Durante o ensaio, o primeiro choque: todo o samba-enredo é cantado em português brasileiro, apesar de – notoriamente – a escola possuir pouquíssimos membros que possam ser identificados como brasileiros, nomeadamente 1 casal de pessoas negras presentes na bateria. Ao fim do ensaio, que até consegue brevemente aludir a um universo de Brasil, apesar da presença quase nula de brasileiros na escola ou na plateia, todos ali presentes voltam a ser portugueses, isto é, deixa-se de ouvir o português brasileiro e volta a se ouvir o português de Portugal.

 

Eu e Leo buscamos conversar com uma figura que notamos ser parte do núcleo organizador e enfim descobrimos: a escola possui apenas 1 brasileiro (o homem negro da bateria), o que contrariava as nossas expectativas iniciais. Nesta breve conversa em que nos apresentamos e fizemos algumas perguntas, fomos convidados a visitar a sede da escola.

 

Lá chegando, conseguimos estabelecer uma relação inicial. Conversa vai, conversa vem, notamos que as relações domésticas dos organizadores demonstram um alto grau de envolvimento com o universo carnavalesco de Estarreja. No caso, a madrinha de bateria da Vai Quem Quer é a mulher do presidente do presidente da própria escola; em outra frente, o responsável pelo marketing da Vai Quem Quer é casado com a presidente da escola rival, Trepa de Estarreja. 

 

Os organizadores nos compartilharam, animadamente, que visitaram o Brasil pela primeira vez em Novembro de 2024, conhecendo mais a fundo algumas das escolas de samba do Rio de Janeiro. Leo, que trabalhou por anos como carnavalesco no Rio de Janeiro, iniciou um aprofundamento de laços, ao fazer perguntas voltadas à organização de escolas de samba e desejando saber quem eram as pessoas que o grupo havia conhecido na visita ao Rio. Eu, por outro lado, busquei conhecer um pouco mais daquelas pessoas que ali estavam conosco, descobrindo que o vice-presidente, André, nasceu em 1987 e no coração da Vai Quem Quer, pois aquele ateliê onde estávamos havia sido a casa de seus pais à época de seu nascimento.

 

Figuras 6 a 8. Ateliê da Vai Quem Quer

 

Figura 9. “Quando plantamos juntos, colhemos mais do que vitórias!”

 

Buscamos entender um pouco melhor o porquê de terem tão poucos brasileiros a experienciar o Carnaval de Estarreja – seja nas escolas de samba, seja no público do ensaio, para o que nos compartilharam que “os Brasileiros daqui não querem escolas de samba e o trabalho que isso envolve. Até podem abrir rodas de samba e pagode, mas não abrem escolas”. Também questionamos se existiria algum tabu social e/ou conservador quanto ao fato das mulheres vestirem fantasias que possam tender à sexualização, para o que nos foi sumariamente respondido com “não, daqui para o Sul não há esse tipo de conservadorismo”. Em resposta ao pouco número de homens a desfilar, outra resposta sucinta: “é verdade, porque não temos interesse”. Mas por que não há interesse em homens a desfilar? Ainda busco entender…

 

Já ao lado, a playlist do espaço central tocava desde funk brasileiro à música típica portuguesa. Visando entender melhor a relação que tinham com a cultura brasileira, visto que as escolas de samba são uma expressão cultural tipicamente brasileira, fizemos algumas perguntas direcionadas a compreender se ocorria algum tipo de intercâmbio cultural direto entre Brasil e Portugal na escola. O grupo então nos apresentou que o próprio nome da escola surgiu de uma história em quadrinhos (banda desenhada em Portugal) da Turma da Mônica e que, no auge da popularização do Carnaval do Rio aqui em Portugal (meados dos anos ‘80 e ‘90), para além do que se transmitia na TV Portuguesa, obtinham fitas cassete e VHS dos desfiles do Rio de Janeiro de parentes e amigos que visitavam o Brasil. Todavia, exceto por um breve contato mais “profissional” junto aos carnavalescos brasileiros, em que os contactam e convidam para transmitir conhecimento à escola no formato de workshops, não há um diálogo cultural mais amplo, exceto pela recente visita que realizaram ao Rio de Janeiro.

 

Leo então questiona, de maneira direta, como eles visualizam o Carnaval de Estarreja e essa relação com o Carnaval do Rio de Janeiro. Também de maneira direta nos é respondido que há um fascínio pelo Carnaval do Rio e, portanto, querem “absorver” o Carnaval do Rio para Estarreja. Outrossim, tal resposta vaga não explicita qual é o intuito com tal “emulação”.

 

Por fim, o que fica mais evidente é que os laços sociais e as relações que são criadas a partir da escola de samba, seja pelo nível de envolvimento ou pelo trabalho árduo e artesanal que está ali presente, criam um grande senso de pertencimento aos membros da escola, como sugeriria Maffesoli (1986/1998) em seus estudos acerca do tribalismo pós-moderno. Isto é explicitado pelas palavras de André, vice-presidente e mestre da bateria: “não consigo largar a escola nem por um momento, por isso que não vou ao Brasil ou vi o Carnaval do Rio presencialmente. Não consigo!”. Ainda assim, neste primeiro momento, muito me confundiu o fato de uma festa popular tão intrínseca à cultura nacional brasileira ser emulada como um produto, ao ponto de imitarem o sotaque e musicalidade do português brasileiro, mas não ser estabelecida uma relação significativa ou alusão à cultura que buscam emular, ou melhor, “absorver”.

 

Texto e imagens: Lucas Novais (CECS/Universidade do Minho)

Publicado em 30 de maio de 2025

 

Este micro-ensaio é a primeira parte de uma duologia intitulada “O Carnaval de Estarreja: Estranhamentos de um Terceiro Espaço criado pelas Escolas de Samba“. A segunda parte pode ser lida aqui.

 

Referências

Bhabha, H. K. (1998). O local da cultura (P. A. Nascimento, Trad.). Belo Horizonte: Editora UFMG.

Canclini, N. G. (1990). Culturas híbridas: Estrategias para entrar y salir de la modernidad. México: Grijalbo.

Maffesoli, M. (1986/1998). O Tempo das Tribos. O declínio do individualismo nas sociedades de massa. Rio de Janeiro: Forense Universitária.

Simas, L. A., & Fabato, F. (2015). Para tudo começar na quinta-feira: O enredo dos enredos. Módulo Editorial.

LOCALIZAÇÃO

LOCAL: Aveiro

LATITUDE: 40.7530053

LONGITUDE: -8.5662668