Naquela mesa, no mercado: eu, meu pai e Florbela!

No Mercado Público de Porto Alegre (Brasil) existe um restaurante muito tradicional, com mais de 130 anos, o Gambrinus, homônimo do que existe em Lisboa. Este, porém, é de 1936, enquanto o  Gambrinus gaúcho foi aberto em 1889, ocasião em que ocorria a passagem da Monarquia para a República no Brasil. Meu pai me levava lá nos anos de 1980, era um hábito antigo, pois meu avô fazia o mesmo com ele décadas antes – o Gambrinus era o grande programa familiar e atravessou gerações. O local, simples mas acolhedor, segue firme no mercado público, após sobreviver a quatro incêndios e uma tentativa de demolição, conforme atesta o Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio Grande do Sul (CAU-RS, 2019). Íamos somente aos sábados, porque sábado era o dia do bacalhau “à Gomes de Sá”. Sentávamos sempre na mesma mesa para comer “o melhor bacalhau sem estar em Portugal”, como ele se referia ao seu prato favorito. E dito isso, completava: “é o que dizem, é o que dizem”!

Meu pai não conheceu Portugal, não houve tempo, porque tempo é o maior luxo, e não é para todos. Ele partiu numa tarde ensolarada de Maio, tinha um livro de Florbela Espanca na mesinha ao lado da cama, onde passou seus últimos dias. Ofereceu-me esse livro quando completei 21 anos e veio acompanhado de uma bela dedicatória, cujo significado só pude entender anos mais tarde. Adorava Florbela, dizia que ela era a expressão poética de um caso humano, e o livro continha todos os sonetos publicados em Livro de Mágoas, Livro de Soror Saudade, Charneca em Flor e Reliquiae. Estávamos no Gambrinus quando ele me disse que queria conhecer Vila Viçosa, onde a poetisa havia nascido, e mencionava o local como se fosse logo ali, virando a esquina.

Nesse vai e vem da minha memória, o tempo passou, os almoços de sábado cessaram, o pai adoeceu.  Um dia me pediu o livro de volta. “Ainda tens a Florbela?” Claro que eu tinha. Não me devolveu, mas eu sabia que estava em boas mãos e que um dia voltaria para mim. Nos seus derradeiros dias, Florbela continuava sendo assunto das nossas conversas, durante as visitas. Tomava-lhe a breve vida como exemplo, pois se ela partiu deste mundo aos 36 anos, quem era ele para reclamar da vida, já tendo chegado aos 74? E ele fechou os olhos, pela última vez, sonhando talvez em acordar numa primavera em Vila Viçosa.

Herr Müller se foi sem alarde e sem queixas. Uns dias antes, ali na cama mesmo, declamara Minha culpa (parte da coletânea de Charneca em Flor, 1930), e este foi o último soneto que o ouvi recitar. Ainda me pediu para voltar ao Gambrinus um dia desses, e comer o bacalhau à Gomes de Sá, “o melhor sem estar em Portugal, é o que dizem”…

Assim o fiz, em sua homenagem. Num sábado qualquer, já passados muitos meses de sua morte, com Florbela de volta às minhas mãos, entrei no Mercado Público, refazendo o caminho que gostávamos de percorrer juntos, espiando os preços dos legumes, dos peixes e dos queijos, e era sempre nessa ordem. Relembrei nossas paradas nas bancas, eu impaciente para chegar logo ao restaurante, o pai sem a menor pressa pois deixava o melhor para o final.  E lá estava o Gambrinus, impávido e centenário, com seu lindo vitral antigo logo na entrada. Eu olhava para ele encantada, lembrando do pai assumindo sua persona e sotaque, me segredando que ali havia uma alma portuguesa, com certeza!

Curiosamente, o Gambrinus surgiu de uma confraria germânica, que adorava culinária portuguesa, mas como alemão não sabe fazer bacalhau, nos anos 60 uma família vinda de Portugal assumiu o controle e desde então o tradicional restaurante preserva suas origens tendo um mix de gastronomia regional brasileira com influência portuguesa, ou seja, juntando o útil ao agradável.

O meu pai em “sua” mesa, imitava o sotaque do cozinheiro e fingia escolher algo no cardápio, mas sempre pedia o bacalhau. Enquanto aguardávamos, eu espiava pela porta os passantes que faziam suas compras no mercado. Quem seriam, para onde iam?  Ficava maravilhada e curiosa com aquele mundo diverso e colorido, onde movimentava-se tanta gente, para todos os lados. Lá fora a vida acontecendo num tumulto de sons e imagens rápidas; no interior do restaurante um mundo à parte transbordando em palavras, onde a vida cabia inteirinha naquele momento, com sonetos e poemas d´além-mar!

Em meio aos odores e sabores de um mercado dotado de vida própria- e quanta vida! –   eu sentia o tempo parar quando ouvia o pai recitar Florbela, Camões, Fernando Pessoa… E recitava como se português o fosse, carregado no sotaque, tudo de cor, sem errar. O cozinheiro o escutava, aos risos, e logo se juntava a ele, declamando clássicos, diante dos demais clientes, espantados com o alemão de sotaque português e o português já quase brasileiro, que abandonava a cozinha para ter com ele aqueles momentos de puro deleite. “É culpa tua, oh pá!”, diziam um ao outro, em tom jocoso. E lá iam os dois recitar Minha Culpa pela enésima vez, aos brados. Não sei se Florbela aprovaria, mas cá para nós, era mesmo um show à parte.

Na última vez em que lá estive, não estava mais o cozinheiro português, nem meu pai, mas em seu lugar estavam todas essas lembranças impregnadas naquelas paredes e na mesa dele, a nossa mesa. Ao entrar naquele local mágico de volta no tempo, deparei-me com ela, vazia, como se estivesse à espera dele. Sentei-me e abri a página marcada com uma orelha dobrada, o pai detestava marcadores. E apesar da Florbela ter dedicado o soneto a um certo Artur Ledesma, peço licença a essa flor nascida em Vila Viçosa para dedicá-lo agora a quem tantas vezes o declamou: meu pai, Gilberto Müller, o alemão mais português que eu conheci.

Fotos e texto: Madeleine Müller

Publicado a 19-04-2022

 

MINHA CULPA (à Artur Ledesma)

Sei lá! Sei lá! Eu sei lá bem

Quem sou?! Um fogo-fátuo, uma miragem…

Sou um reflexo… um canto de paisagem

Ou apenas cenário! Um vaivém…

Como a sorte: hoje aqui, depois além!

Sei lá quem Sou?! Sei lá! Sou a roupagem

Dum doido que partiu numa romagem

E nunca mais voltou! Eu sei lá quem!

Sou um verme que um dia quis ser astro…

Uma estátua truncada de alabastro…

Uma chaga sangrenta do Senhor…

Sei lá quem sou?! Sei lá! Cumprindo os fados,

Num mundo de vaidades e pecados,

Sou mais um mau, sou mais um pecador…

 

Referências:

CAU/RS. (2019). Mercado Público de Porto Alegre completa 150 anos. Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio Grande do Sul. Retrieved 29-03-2022 from https://www.caurs.gov.br/historia-mercado-publico-de-porto-alegre-completa-150-anos/

Espanca, F. (1982). Sonetos. Difel.

LOCALIZAÇÃO

LOCAL: RS

LATITUDE: -30.0271582

LONGITUDE: -51.2279524