Mo[vi]mentos de músicos e poetas de rua na cidade do Rio de Janeiro

Este ensaio parte da investigação em andamento com artistas músicos e poetas que se apresentam em espaços públicos na cidade do Rio de Janeiro. Em especial, o corpus da pesquisa é composto por músicos de rock que se apresentam nas ruas, musicistas de fanfarras femininas de Carnaval e poetas de batalhas de poesia (slam). Compreendendo suas intervenções como expressões sensíveis da cidade, vimos cartografando algumas de suas práticas seguindo os atores e refletindo, a partir das experiências vividas em campo, aspectos que dão a ver seus deslocamentos urbanos.

Inspiramo-nos num contexto urbano como lugar “[…] em que as narrativas dos habitantes se referem às paisagens que abrigam suas referências em percursos e itinerários em que atribuem identidades sempre em perspectiva de um vir-a-ser” (Eckert, 2008, p. 10). Assim, como é de sua paisagem nas Antilhas que Glissant retira a ideia de um Caos-mundo em que “tudo está em tudo, sem que isso queira dizer que tenha forçosamente que mesclar-se” (Glissant, 2006, p. 26), pensamos a partir dos atores nesta investigação em certo Caos-Rio e no Diverso (em letra maiúscula, para acompanhar a grafia do filósofo) de seus movimentos percursivos.

 

Figura 1. O músico Wagner José toca na Feira do Lavradio, no centro do Rio, com a contribuição de uma passante
05/01/2025 – Acervo da autora

 

 

Figura 2. No mesmo dia, na zona portuária, a fanfarra feminista Mulheres Rodadas realiza cortejo de pré-carnaval
05/01/2025 – Acervo da autora

 

Desse modo, voltar o olhar e a escuta para esses artistas foi a forma com que se pôde passear por seus imaginários passeantes – ou seja, forjando nossa “série de intercessores”, nos dizeres de Deleuze:

 

[…] Podem ser pessoas – para um filósofo, artistas ou cientistas; para um cientista, filósofos ou artistas. […] Fictícios ou reais, animados ou inanimados, é preciso fabricar seus próprios intercessores. É uma série. Se não formamos uma série, mesmo que completamente imaginária, estamos perdidos. Eu preciso de meus intercessores para me exprimir, e eles jamais se exprimiriam sem mim: sempre se trabalha em vários, mesmo quando isso não se vê. (Deleuze, 1992, p. 156).

 

Apontamos que, nos casos seguidos nesta investigação, a materialidade das intervenções também reside nos gestos dos percursos dos artistas, pois histórias e experiências da cidade são nelas registradas, enquanto constroem no espaço público imagens que também forçam outros a sair do lugar – numa com-posição de tempos-espaços. Nesse sentido, pensando o corpo na urbe como imagem, presença sensível que carrega intenções, enraizamentos e história, e no imaginário como dimensão “[…] que ultrapassa o indivíduo” e “estabelece vínculo” (Maffesoli, 2001, p. 76), propõe-se tais performances como produtoras de mo[vi]mentos que agenciam conversas em trilhas sonoras, comunicando provisórias harmonias na urbe e distintos modos e desejos de habitá-la.

 

Figura 3. Jovens de periferias da cidade se reúnem no centro para uma batalha de poesias (slam)
27/01/2023 – Acervo da autora

 

Figura 4. Em outra parte da cidade, a slammer Preta Poética declama no bairro suburbano de Campo Grande
14/07/2025 – Acervo da autora

 

Figura 5. Batalha de poesias na Vila Kosmos, Zona Norte da cidade – Agosto/2023
Acervo da autora

 

Seguindo o pensamento da geógrafa Doreen Massey, em nosso estar juntos está em questão o engajamento de diversas trajetórias, “histórias-até-agora”, cujas “imaginações de espaço” entram nas negociações de lugares (Massey, 2008, p. 220), num conhecimento da cidade produzido por seus envolvimentos. Citando Ingold: “as formas que as pessoas constroem, seja na imaginação ou no concreto, surgem dentro do fluxo das atividades em que estão envolvidas, nos contextos relacionais específicos de seus envolvimentos práticos com aquilo que os rodeia” (Ingold apud Massey, 2008, p. 215). Acompanhando atores que buscam modular, pela performance, os lugares que percorrem e ocupam, apreende-se, então, que estes levam-trazem suas linhas aos espaços a fim de ali encontrar-se com outras, imprevistas e que possam ser favoráveis. Já quando encontram fios que com os seus próprios se confundem ou confrontam, pode haver até mesmo uma intensificação de sua ação – o que não quer dizer que vão contra as coisas do lugar, mas que se entremeiam com elas.

 

Figura 6. A banda de rock e blues Mr. Severin toca no famoso calçadão da praia de Ipanema, na Zona Sul
18/03/2023 – Acervo da autora

 

Fernandes e Herschmann (2025, p. 117) apontam, nessa direção, que pensar as ambiências da cidade como modo de ação urbana permite “[…] reavaliar desse modo os espaços urbanos a partir de suas sonoridades: situações nas quais o fenômeno acústico é convertido em medium do modo de existência e conformação desses espaços”. Tais performances, assim, falam dos caminhos de seus atores, e dos imaginários que estão, sempre, sendo formados e comunicados pelo movimento de seus corpos na cidade. O interesse desta investigação envolve justamente, ao percorrer com eles lugares onde desejam intervir artisticamente, descrever de onde partem e o que agenciam no espaço público – este entendido como espaço da diferença, da efervescência e do encontro. A partir daí, os atores expressam e partilham seus modos/mundos de vida, mediados pelas sonoridades – a música, a poesia –, estando-com outros que acessam, mesmo que por um tempo fugaz, esses modos de mundo com os quais vêm a conversar.

 

Figura 7. A fanfarra feminista Calcinhas Bélicas se apresenta pelo dia internacional da mulher, na Praça da República, em frente à Central do Brasil (por onde passam cotidianamente muitas mulheres trabalhadoras) – março de 2023
Acervo da autora

 

Nesta investigação, cada um dos atores nos conta histórias diversas de uma urbe em luta e em festa entre morros, praias, mangues, e onde se impõe tão fortemente uma “fatalidade do vínculo” (Sodré, 2014, p. 206) que nos obriga, sempre e mais uma vez, à “invenção” do lugar (Massey, 2008, p. 204) – a cidade, assim, constituindo o próprio Diverso (Glissant, 2005), lugar comum de coisas diferentes. Se para Glissant, travando sua discussão em torno de identidades e contatos interculturais, um multilinguismo não supõe coexistência ou conhecimento de várias línguas, mas sim “a presença das línguas do mundo na prática de sua própria língua” (Glissant, 2005, p. 51), em uma paráfrase poética sugerimos pensar a urbe constituindo-se na presença da multiplicidade de habitantes na prática de cada habitação – como em “totalidades-mundo” em que “todos têm necessidade de todos” (Glissant, 2005, p. 156). Performances em espaços públicos, assim, se totalizam apenas no sentido de que todos os elementos que ali se encontram estão compondo sua roda.

 

Danielle M. H. L. da Gama[1]

Publicado em 24 de setembro de 2025

 

[1] Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), na linha de pesquisa Cultura das Mídias, Imaginário e Cidade, onde é orientada pela Profa. Dra. Cíntia Sanmartin Fernandes. Realizou estágio doutoral sanduíche (Capes-Print) na Université Paul-Valery, Montpellier, sob coordenação do Prof. Dr. Fabio La Rocca. Mestre em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), na linha de pesquisa Identidade e Diversidade Cultural. Graduada em Comunicação Social pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Membra do Grupo de Pesquisa Comunicação, Arte e Cidade (CAC-UERJ).

 

Referências:

Deleuze, G. (1992). Os intercessores. In G. Deleuze, Conversações (P. P. Pelbart, Trad.). Editora 34.

Eckert, C. (2008). As variações “paisageiras” na cidade e os jogos da memória. ILUMINURAS9(20), pp. 1-12. https://doi.org/10.22456/1984-1191.9294. Acesso em: 02 jan. 2023.

Fernandes, C. S.; Herschmann, M. M. (2025). Ambiências carnartivistas na cidade. In: C. S. Fernandes, F. La Rocca, M. Herschmann  (Orgs.). Metrópole Sensível: Ambiências, atmosferas e tonalidades (pp. 115-138). Sulina.

Glissant, É. (2005). Introdução a uma poética da diversidade (E. A. Rocha, Trad.). UFJF.

Glissant, É. (2006). Tratado del todo-mundo (M. T. G. Urrutia, Trad.). El Cobre ediciones.

Maffesoli, M. (2008). Michel Maffesoli: o imaginário é uma realidade. Revista FAMECOS8(15), 74–82. https://doi.org/10.15448/1980-3729.2001.15.3123

Massey, D. (2008). Pelo espaço: uma nova política da espacialidade. (H. P. Maciel; R. Haesbaert, Trads.). Bertand Brasil.

Sodré, M. (2014). A ciência do comum: Notas para o método comunicacional. Vozes.

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