Monchique (Fragmento #04)

– “Ó vezinhe” – grito para o António. Ele tem uma saca na mão. Pousa e acena. É ração para as galinhas. Já sei que vai demorar uns 20 minutos, o mesmo que eu.

– “Posso ir aí?” – grito com as mãos em concha. O António ouve muito bem, mas tem dificuldade em falar alto, por causa de um problema que teve quando era moço, por isso, em silêncio, limita-se a fazer sinal que sim.

Fico a observá-lo a entrar no galinheiro, de saca na mão e com um cesto pendurado à cinta, para recolher os ovos. É boa gente. E ainda bem, sendo o meu vizinho da frente, também é dos poucos que se aguentou por cá. Tal como eu. Só nos temos um ao outro. Há aqui uns outros vizinhos, mas são estrangeiros, uns franceses de um lado e uns ingleses do outro, que compraram os terrenos para semearem muros altos em toda a volta. Estão lá fechados, reformados, à espera da morte, que chegará tostada pelo Sol, que foi para isso que vieram para cá. Nunca saem, nunca os vemos, só às carrinhas de entregas que lá entram.

O António enviuvou cedo, antes de poderem ter filhos. Eu nunca casei. Estamos para aqui os dois, desde que aqui nascemos com um ano de diferença. Discutimos lavouras, partilhamos alfaias, vemos juntos os jogos de futebol, ao domingo vamos os dois a pé à vila. E partilhamos uma paixão. A música.

Desde há muitos anos fazemos esta brincadeira, emprestamos um disco ao outro durante dois ou três dias, e quando o outro devolve junta um outro disco da sua colecção. Tenho aqui o dele para devolver, o Neck and Neck, do Mark Knopfler com o Chet Atkins. Ouvi várias vezes. Muito bom.

Olho para fora, para o céu, para o tempo. Este início de Inverno traz uma certa melancolia, embalado pelo ar frio que desce a montanha. Agarro no Le Pas du Chat Noir, do Anouar Brahem. Perfeito para estes dias. Agarro nos dois discos, preparo-me para sair. Hesito. Choveu esta noite, a eira lá em baixo deve estar alagada, é melhor calçar as galochas. Até casa do António só tenho que descer esta ladeira, atravessar o pasto das ovelhas, passar a tábua por cima do ribeiro e subir à casa. Felizmente o meu vizinho mora mesmo em frente, são só 20 minutos até casa dele.

Levo uma cesta comigo, no regresso aproveito para apanhar umas púcaras. Ou então apanho à ida, é da maneira que deixo umas com o António. Ele também adora cogumelos.

Carlos Norton

Publicado a 22-11-2022

Ficha técnica

F#04

Som gravado com binaurais Roland CS-10 EM

Monchique (02.11.22 ; 10:43)

37º 18′ 10,26”N ; 008º 35′ 37,16”E

Gravação na Serra de Monchique, em zona rural na encosta Sul, a 500 metros de altitude.

Para saber mais:

O Vizinho da Frente (5 vizinhos em 5 Fragmentos)

Ficheiros audio


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LOCALIZAÇÃO

LOCAL: Faro

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