Lugar e não-lugar, a propósito da Rua de Costa Cabral

Inicio o meu último ensaio deste ano 2023 acabando da mesma forma com que me estreei na Passeio: lembrando Tuan (1977) e o seu conceito de lugar. A cidade tem sido um fugir e isso agride. Mas, de repente, é quase final de tarde, nada parece dar certo e sou guiada até à Rua de Costa Cabral. É a artéria mais extensa da cidade do Porto e nela cabem muitos lugares-experiência pessoais. Ainda evito o Conde de Ferreira. Pelas transversais de Costa Cabral há caminhos para o luxo intimidante e apelativo das Antas. Passeios de domingo, com o futebol a buzinar a Praça Velasquez. A Praça do Marquês, com a igreja nas imediações, onde, por vezes, procuro sossego, no bulício das ruas. A meio de Costa Cabral há um colégio que já foi rotina de criança em roda livre e, ao fundo, lá na ponta, a Areosa, pedaço-fronteira do subúrbio que habito. Sendo presença tão assídua, temporal e emocionalmente, nuca dei especial atenção a esta rua, como acontece com os vizinhos que cumprimentamos por cerimónia. Até hoje.

Então, tem acontecido que o Porto se transforma ciclopicamente num não-lugar (Augé, 1992, citado por Schneider, 2015), com todas as características do hiper-realismo teorizado por Baudrillard (1981). Um simulacro de si próprio. Isso entristece e afugenta. Não raro, vou encontrando quem é expulso da Baixa, pela voragem da multidão que não deixa espaço para o lugar. O Bugatti, na Rua da Constituição, mesmo ao pé de Costa Cabral, é um dos abrigos dos fugitivos. E atenção que por lá se misturam imigrantes, , moradores que descem até à rua para um aconchego de comida. Inclusão em estado puro. Não há bandeiras que o assinalem, existe simplesmente.

Penso, recorrentemente, no possível egoísmo da minha avaliação. Será emoção serôdia? Caminhando em direção ao Trindade, em matinés de domingo que repetem os percursos da infância, procuro nos cheiros do renovado cinema (nas alcatifas que exalam meninice) um regresso que é atualizado a cada nova visita, porque nada há ali de cristalizado. A verdade é que não se trata de ir à sessão nostalgia. Reformulo os remorsos. Há algo de profundamente distorcido nesta urbe que se penteia e maquilha para compor uma personagem que quase já não é. Até mesmo nos negócios renovados, tão perfeitos no anacronismo que fabricam plasticamente.

Passei parte da época Natalícia escandalizada com estas evidências e a correr no sentido oposto a elas. De um momento para o outro, Costa Cabral, sem aviso. Apenas os primeiros metros, junto ao Marquês. Terei de a percorrer toda a pé, um dia. Há um talho, odor de carne, nada embalado. Logo de seguida, a mercearia fina, salga de bacalhau no ar (claro está), nozes, especiarias, uma luz amarelada. Tudo o que as outras têm, sem pretensiosismo e sem fotos para turista. Por falar em fotos, até um fotógrafo com noivas no escaparate, lembro-me agora. Voltando aos turistas. Juro que aconteceu: uma guia com uma horda de seguidores invadiu a minha compra de chá de hibisco e ameixas de Elvas, na Rua do Bonjardim. O empregado nem se questionou. Encolheu os ombros e esperou que o vendaval passasse. Vi esse mesmo empregado ansioso por uma Francesinha no Bugatti, há dias.

Mas bom. Costa Cabral. Nada é perfeito aqui e tudo é equilibrado na sua imensa confusão algo decadente. Bolas de Natais de outrora a enfeitar montras de pronto-a-vestir que (pasme-se) têm só duas ou três peças de cada modelo, tudo impecável, um atendimento que parece que nos adivinha os desejos. O herbanário acotovela-se com o barbeiro pós-moderno, há uma mercearia com bananas à porta. Um correr que não engole. Bálsamo sensorial. Geografias possíveis.

Texto e imagens: Teresa Lima

Publicado a: 22/12/23

Referências

Augé, M. (1992). Non-lieux. Verso.

Baudrillard, J. (1981).  Simulacres et simulations. Paris: Galilée.

Schneider, L. C. (2015). Lugar e não-lugar: espaços da complexidade. Ágora17(1), 65-74.

Tuan, Y.-f. (1977). Space and place: the perspective of experience. Minneapolis: University of Minnesota Press.

 

 

LOCALIZAÇÃO

LOCAL: Porto

LATITUDE: 41.168936

LONGITUDE: -8.5906174