Entre o esperado e o inesperado: um autocarro-bar como ação política de campanha eleitoral
18 de maio de 2025 foi dia de eleições legislativas em Portugal. As ações políticas das várias candidaturas ao Parlamento foram-se materializando por todo o país, assim como se outras ações de campanha em espaços públicos. Estas campanhas tentam gerar atenção e captar votos por entre as mais diversas pessoas, dos mais diversos grupos etários, incluindo os públicos-alvo que circundam as universidades. Este texto parte da observação das imediações da Universidade do Minho, em Gualtar, Braga, no dia 7 de maio, e é estimulado por uma ação de campanha política concreta, concebida por meio de um autocarro-bar [1]. A campanha é analisada mediante o veículo a que recorre e as suas dinâmicas ao longo do dia 7 [2], ressaltando-se o que é socialmente mais esperado e mais inesperado, entre a convenção e a novidade.
Figura 1. Autocarro-bar estacionado na rotunda da Variante de Gualtar, em frente ao campus da Universidade do Minho, no passado dia 7 de maio. Captura fotográfica efetuada pelas 19h55.
Créditos: Pedro Eduardo Ribeiro
Ledin e Machin (2018) seguem Gibson e Voloshinov para falar em potencialidades (affordances), ou seja, “as ideias e assunções” que “moldam a comunicação e os comportamentos sociais” (pp. 29-30) de materiais como o veículo. Helena Pires e Cynthia Luderer dão conta dos “significados” já reconhecidos e daqueles que estão por reconhecer e se vão reconhecendo, assinalando que as potencialidades “mudam ao longo do tempo, determinando princípios de regulação, mas também abrindo espaço aos usos inesperados e à liberdade criativa” (2024, para. 8). Assim se vão produzindo e reproduzindo ao longo do tempo sentidos, mediante vários contextos (e.g., político, sociocultural, temporal), bem como discursos já existentes e novos e contradiscursos, a partir dos quais se podem desvendar ideologias (Ribeiro, 2024a; 2024b; van Dijk, 2017). Comunicar implica, inevitavelmente, mover-se entre o esperado e o inesperado.
Na rotunda em frente ao campus da Universidade do Minho, em Braga, sobressai-se um veículo. Tudo isto com uma caminhada pela zona, que permite observar o que não nos é evidente ao primeiro olhar, enquanto flanêur (Barbosa & Lopes, 2019).
As ações políticas são concretizadas através de materiais semióticos. Exemplos destes são os cartazes, outdoors ou, como mostra o caso deste ensaio, os veículos. Estes não podem ser desarticulados das interações desenvolvidas com as pessoas, cujos comportamentos podem promover ideologias sobre e na realidade social. Seguindo Ledin e Machin (2018, p. 11), tudo isto é possível graças à “presença física” e ao seu “design” e à capacidade de se tornarem significativos, que resultam de “escolhas semióticas” e aos seus “modos” (van Leeuwen, 2022). Por outras palavras, do que escolhem as pessoas que os trabalham e como estas estão associadas a significarem algo e, assim, construírem sentido.
Começando pelo que se interpreta como o mais inesperado, mesmo que não seja uma ideia pioneira (e.g., Zappettini, 2019): o veículo. Este corresponde a um autocarro, o qual contraria as trajetórias daqueles que vão circulando na rotunda e na variante e para outras ramificações dali. Fixou-se ali. Lançou-se à estrada a 1 de maio. Pintado a várias tonalidades de azul, com realce de uma mais clara, cor que sugere equilíbrio e prazer (Kress & van Leeuwen, 2021), encontra-se parado justamente em frente à entrada principal do campus. O autocarro tapa inclusive o bloco vermelho “Universidade do Minho” e “Campus de Gualtar”, com a respetiva logomarca. O autocarro tem dois andares, estando um deles operacional, aberto em jeito de bar, servindo cervejas a copo e reunindo pessoas aparentemente jovens universitárias que confraternizam em frente. Daí a designação de autocarro-bar. Em cima daquela pintura, leem-se algumas palavras e símbolos. “- BUROCRACIA/ + CASAS”, “ACELERAR PORTUGAL”, “DESTA VEZ, É LIBERAL” ou “VOTA i/ iniciativa liberal”. Por esta última, associa-se denotativamente o autocarro a uma ação política do partido Iniciativa Liberal (IL).
Figura 2. Fotograma de um vídeo que resume a ação política durante a transição da noite do dia 7 para o dia 8. Captura efetuada a 10 de maio de 2025, às 23h59.
Consultável em: https://www.instagram.com/p/DJXjJK8MjzO/.
Num dos vidros do autocarro, no andar superior, leem-se palavras e símbolos, em fundo azul e letras maiúsculas a cor branca, o que ajuda à sua saliência no todo do autocarro. Quando explorando o programa eleitoral da IL, este estabelece como um dos objetivos desenvolver uma “Política habitacional focada no aumento da oferta”, num objetivo maior, que é “ROMPER COM A ESTAGNAÇÃO ECONÓMICA” (p. 2). Naquele documento, lê-se também a mesma composição visual escrita, ainda que revertida e com palavras apenas, numa página onde se destaca a necessidade de facilitação da construção de edifícios para a habitação. Assinalando que a “carga burocrática no setor é muito elevada”, esclarece-se que “[m]uito tempo decorre entre a aprovação do investimento e a conclusão da construção, passam-se vários anos em muitos casos” (p. 84). Os sinais de adição (“+”) e subtração (“-”) salientam e delimitam uma ideia (Kress & van Leeuwen, 2021; van Leeuwen, 2008): são necessárias mais habitações e menos procedimentos burocráticos. do programa, sugerem-se a “[c]olocação de imóveis vazios do Estado no mercado” (p. 85) ou “[d]escentralizar para aliviar a pressão demográfica nas grandes cidades” (p. 86).
A habitação como essencial para a economia, portanto, instrumentalizada (van Leeuwen, 2008). Com clareza, desvenda-se uma ideologia “liberal”, de liberalismo, uma vez que o partido se afirma como “‘liberal em tudo: na economia, nos costumes e na política’” (Pinto citado em Matos & Ribeiro, 2024, p. 40). Isto vem em linha com o lema sob a metonímia (cf. Ribeiro, 2024a) e personificação “ACELERAR PORTUGAL”, presente quer no veículo quer no programa do partido. Recorrendo a Cunha e Cintra (1997), destaca-se também a outra construção frásica como exemplo: a locução adverbial de tempo “DESTA VEZ”, o uso do verbo ‘ser’ como afirmativo de um futuro próximo (Araújo, 2005), através da forma verbal “É”, e o adjetivo “LIBERAL” ajudam a remeter quer para o partido quer para a sua ideologia política.
Aquela ideologia política ligada ao liberalismo (económico) em oposição a outras, como o socialismo e a outras defendidas por partidos à esquerda. O liberalismo privilegia, entre outras, a ideia de o Estado intervir menos na economia, deixando o mercado funcionar mais liberalmente. Recentemente, o ex-presidente da IL, Rui Rocha, destacou que “o seu partido pretende uma revisão constitucional que permita ‘acabar com o socialismo’”. A este propósito, no programa da IL pode ler-se: “O Estado não se simplifica e a vida dos que portugueses está cada vez mais complicada. O Estado vive da burocracia e a burocracia alimenta o modo de vida dos corruptos.” (p. 1). Considerando o que já se foi elencando até aqui, esta associação que implica uma agregação (‘Estado social burocrático como promotor de pessoas corruptas’) e uma genericisação enquanto estratégias discursivas (van Leeuwen, 2008) também leva à produção de um discurso populista que se cria com este tipo de afirmações. Segundo Estrela Serrano, o populismo consiste num “antagonismo entre uma elite corrupta e o povo puro e incorruptível representado por um líder carismático” (2023, p. 5). Adianta ainda a autora que é situado contextualmente e “atravessa fronteiras, ideológicas, geográficas e históricas”, assumindo “uma miríade de formas, por vezes contraditórias” (p. 5).
Estes tipos de atos políticos não são novidade para este partido. Marco Matos e Vasco Ribeiro discutem a comunicação do partido, na sua aliança do digital com o físico, e como esta está muito aliada ao entretenimento, ao humor e à analogia com a cultura popular. Através de estudos de outdoors, a autora refere que se verifica “uma grande utilização de referências pop por parte do partido, as quais tornam a comunicação mais próxima do imaginário dos eleitores” (p. 55). Na campanha para as eleições europeias, a IL já houvera utilizado estratégia similar com um autocarro para angariar votos e a confiança das pessoas cidadãs. Abaixo, numa outra ocasião, num evento de outro âmbito universitário.
Figura 3. Publicação da página Instagram da IL relativa à presença na Queima das Fitas de Coimbra, em 2024, a propósito das eleições europeias, com o veículo supramencionado. Captura efetuada a 11 de maio de 2025, pela 00h09.
Consultável em: https://www.instagram.com/p/C7Z0IBaMC3m/?igsh=d2RzcnhrZ25pMTBm.
Do ponto de vista do alcance nas plataformas digitais, como a que vai sendo elencada, o impacto é considerável. Na plataforma Instagram, uma das mais usadas em Portugal, um vídeo que faz um resumo deste acontecimento (figura 2) conta com mais de 19 mil visionamentos [3]. Antes deste, também no Instagram, um vídeo prévio de presença do dirigente da IL, numa zona de bares perto do local onde estacionou o autocarro (figura 4), conta com mais de 243 mil [4].
Figura 4. Fotograma de vídeo que anuncia a presença de Rui Rocha, junto à Variante de Gualtar, numa zona de bares perto do local onde o autocarro-bar se encontrava estacionado. Captura efetuada a 11 de maio de 2025, à 00h38.
Consultável em: https://www.instagram.com/reel/DJW1LioMyHK/?igsh=aWR2ZXpxZmtiM2U4.
Nas circunstâncias e nos contextos que se foram descrevendo, o autocarro-bar incorpora e produz um conjunto de sentidos alinhados com a IL, o que mostra a relevância de se compreender o que pode ser mais esperado ou mais inesperado do que as manifestações do quotidiano podem despoletar. O esperado e o inesperado entrecruzam-se: as cores e a sua ligação à IL, os ideais políticos associados à IL e a ação política como promotora de uma ideologia político-partidária baseada no liberalismo, um autocarro como construtor de uma ação política, um autocarro-bar, que oferece finos e despoleta confraternizações, ou a aproximação informal do dirigente da IL às pessoas cidadãs, sobretudo mais jovens. O veículo pode servir para transportar pessoas e fazer viagens ora mais frequentes ora mais ocasionais, mas também para mobilizar politicamente as intenções de voto, através de ofertas direcionadas e simples, como um copo de cerveja e uma conversa. A política vai-se fazendo. Incluindo através de autocarros-bar.
Pedro Eduardo Ribeiro (CECS/Universidade do Minho)
Publicado a 30 de julho de 2025
Notas:
[1] Concebe-se esta designação como um neologismo, não esquecendo, contudo, a já existente designação sem hífen de um estabelecimento comercial com o mesmo nome, coincidentemente, também em Braga: https://www.instagram.com/autocarrobar/.
[2] Utiliza-se aqui uma proposta da literatura teórica e empírica com base em Ribeiro (2024a; 2024b) para a análise. Esta orienta uma análise de alguns daqueles textos, também produtos semióticos, produzidos pelos respetivos materiais semióticos (Ledin & Machin, 2018). Recordando aquela proposta de Ribeiro (2024a), dividem-se em recursos multimodais e contextuais, estes últimos necessariamente multimodais. Quantos aos primeiros: “(…) participantes, ligações acionais e indexais (o que se sugere revelar, pensar e sentir, dizer e expressar e que ações se conduzem), cor, forma(s), saliência, delimitação, cenário e objetos” mais “objetos enquanto assuntos, gramática e léxico, atores que convoca e estratégias discursivas” (p. 95). Quantos aos segundos: “(…) intertextual, sociocultural, político, (…) e mediático” (p. 95). O capítulo de livro de Ribeiro (2024a) foi antes publicado na Passeio enquanto micro-ensaio.
[3] Número obtido a 11 de maio de 2025, pela 00h52.
[4] Número obtido a 11 de maio de 2025, pela 00h52.
Referências bibliográficas
Araújo, E. R. (2005). O Conceito de Futuro. In E. R. Araújo (Ed.), Actas de Conferência “O Futuro não pode começar” (pp. 7–48). Núcleo de Estudos de Sociologia da Universidade do Minho. http://hdl.handle.net/1822/3461
Barbosa, I., & Lopes, J. T. (2019). Descodificar as paredes da cidade: da crítica à gentrificação ao direito da habitação no Porto. Sociologia: Revista Da Faculdade De Letras Da Universidade Do Porto, 38, 6–29. https://doi.org/10.21747/08723419/soc38a1
Cunha, C., & Cintra, L. (1997). Nova gramática do português contemporâneo (13.ª ed.). Edições João Sá da Costa.
Kress, G., & van Leeuwen, T. (2021). Reading images: The grammar of visual design (3.ª ed.). Routledge.
Ledin, P., & Machin, D. (2018). Doing visual analysis – From theory to pratice. SAGE.
Matos, M., & Ribeiro, V. (2024). Entertaining Politics: O uso do humor pela Iniciativa Liberal como estratégia de campanha política nas Europeias e Legislativas de 2019. Observatorio (OBS*), 18(1), pp. 37–59. https://doi.org/10.15847/obsOBS18120242301
Pires, H., & Luderer, C.. (2024, maio). O que dizer e o que fazer com os bancos públicos? Uma breve leitura guiada…. Passeio – Plataforma de Arte e Cultura Urbana. https://www.passeio.pt/galeria/o-que-dizer-e-o-que-fazer-com-os-bancos-publicos-uma-breve-leitura-guiada/; https://hdl.handle.net/1822/91736
Ribeiro, P. E. (2024a, julho). Barcelona pró-Palestina: Uma cidade-movimento?. In Z. Pinto-Coelho, & H. Pires (Eds.), A pele da cidade – Notas do quotidiano (pp. 93–102). CECS – Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade. https://hdl.handle.net/1822/93214
Ribeiro, P. E. (2024b, 15 de outubro). Media construction of pseudo-events: Lula da Silva at the Portugal’s parliament during a historic annual celebration. Discourse Studies. https://doi.org/10.1177/14614456241288354
Serrano, E. (2023). Foreword. In I. F., Cunha, L. Guazina, A. Cabrera, & C. Martins (Orgs.), Media, populism and corruption (pp. 5–6). Coleção ICNova. https://colecaoicnova.fcsh.unl.pt/index.php/icnova/article/view/134
van Leeuwen, T. (2008). Discourse and practice: New tools for critical discourse analysis. Oxford University Press.
van Leeuwen, T. (2022). Multimodality and identity. Routledge.
Zappettini, F. (2019). The Brexit referendum: how trade and immigration in the discourses of the official campaigns have legitimised a toxic (inter)national logic. Critical Discourse Studies, 16(4), 403–419. https://doi.org/10.1080/17405904.2019.1593206
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