Entre Muros e Montanhas: A Arte que Cresce Fora da Vista da Cidade
Num recanto sossegado do Minho, entre árvores verdejantes e o ritmo do som das rodas de skate sobre o cimento do Skatepark do Couto, nasceu um mural que fala mais alto do que parece. No Couto, em Barcelos, não há trânsito nem multidões. Só uma aldeia, um skatepark, muita vontade dos jovens envolvidos, e uma parede que, durante dias, se transformou num lugar de encontro entre artistas, skaters e moradores locais. O mural não surgiu apenas para decorar, mas para provocar, refletir e cuidar. Nas letras desenhadas por Eldr e Soldier ecoam perguntas sobre desigualdade, comunidade e pertença. Esta é a história de como a arte urbana, muitas vezes associada ao caos das grandes cidades, encontrou no campo minhoto um novo chão fértil para crescer.
O desafio lançado pela Associação Couto Park – Clube Skate de Barcelos foi criar um mural com uma mensagem de combate ao racismo e à xenofobia, promovendo a inclusão, a diversidade e o respeito através da arte urbana e do skate. O objetivo central é “sensibilizar a comunidade para a importância da igualdade e do acolhimento de todos, reforçando o skate como espaço de liberdade, expressão e superação”, afirma Flora, membro integrante da Associação Couto Park.
A intersecção entre arte urbana e meio rural ajuda a gerar novas formas de pertença e expressão coletiva. Ao ser transposta para territórios menos povoados, a arte urbana adquire um papel simbólico e social, transformando o espaço visualmente e ativando memórias locais. Nestes contextos, murais e graffitis tornam-se veículos de diálogo intergeracional e afirmação identitária, inscrevendo as regiões no mapa contemporâneo da criação cultural.
Fig. 1. Skater no Skatepark do Couto. Créditos: João Salgado (2025)
Além disso, o sucesso da arte urbana nos últimos anos deve ser interpretado à luz de um paradigma de planeamento urbano em que as artes e a cultura desempenham um papel cada vez mais saliente e em que o setor artístico-cultural tem sido considerado um capital relevante para a promoção das imagens das cidades e para o seu desenvolvimento (Campos, Júnior & Raposo, 2021), que pode também ser aproveitado pelos meios rurais, uma vez que faz, maioritariamente, uso de galerias ao ar livre. A arte urbana serve o duplo propósito de aumentar a identidade estética dos edifícios e engajar visual e culturalmente os visitantes para determinados lugares, contribuindo para o desenvolvimento das comunidades rurais através do turismo (Zhu, Zhang, & Liu, 2024), atendendo à nova tendência dos viajantes de partilhar os sentimentos, experiências, estilo de vida e perceções dos residentes locais (Vallbona & Mascarilla, 2020).
Este estudo de caso analisa a criação de um mural urbano colaborativo no Skatepark do Couto, em Barcelos, concebido por dois artistas portugueses — Hélder Duarte (Eldr) e Miguel Silva (Soldier).
O Projeto no Skatepark do Couto
Contexto e convite
O skatepark do Couto, situado numa zona rural de Barcelos, foi idealizado por um grupo local com apoio da Câmara Municipal, através do IPDJ e Programa Geração Z, com a orientação do Presidente da Associação Couto, João Miguel Araújo, e com a participação dos skaters da associação, Pedro Bessa Menezes, Francisco Vilas Boas e Jota Ferreira. Hélder conheceu o projeto durante a construção em curso, e pelas redes sociais, e ofereceu‑se como voluntário. Posteriormente, foi convidado a participar como artista principal. A associação gestora, Couto Park, selecionou os participantes para o Live Painting com base nos estilos dos artistas e na relevância da mensagem inclusiva que se pretendia comunicar.
O briefing centrava-se num mural com mensagem explícita contra a xenofobia e racismo, promovendo inclusão, diversidade e respeito. As frases escolhidas foram:
“A ganância envenenou a alma do homem. Mais do que máquinas precisamos de humanidade. Mais do que inteligência precisamos de bondade e ternura.”
O logotipo do “Couto Park” também deveria ser incluído e executado em graffiti ou caligrafia, em harmonia com o estilo dos artistas. A mensagem tinha como público-alvo tanto os frequentadores do skatepark como a comunidade local nas redes sociais e imprensa.
Figs 2 e 3. Eldr e Soldier a iniciarem os trabalhos. Créditos: João Salgado (2025)
Planeamento e execução
A preparação começou com uma visita ao local e reunião entre organização, artistas e voluntários, seguida da análise do espaço e levantamento fotográfico. Simulações em Photoshop permitiram resolver previamente questões de design e composição. No dia do evento, as bases foram traçadas e cada artista pintou sua área conforme o delineado. A intervenção ocorreu durante o Go Skateboarding Day (21 de junho), com atividades paralelas: skate, música, churrasco e o testemunho de Laís Reis sobre inclusão das mulheres no skate, com o especial “Girls Meeting”. Mais de 80 pessoas participaram.
A operacionalização envolveu a colaboração com voluntários locais e até com um jovem que participava do evento, que, ao expressar interesse, recebeu um rolo para ajudar a preencher áreas do mural. O ambiente colaborativo e inclusivo marcou todo o processo.
Hélder Duarte (Eldr) e Miguel Silva (Soldier)
Hélder Duarte, conhecido artisticamente como Eldr, formou-se em Design Gráfico na Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha. Segundo ele, começou “a fazer caligrafia mais assiduamente por volta de 2015” quando acabou a licenciatura. A escolha pelo nome Eldr marca também uma identidade visual e conceptual ligada à escrita artística contemporânea. A inicial imersão na caligrafia teve origem académica, partindo do estudo de tipografia medieval no contexto do curso de design. A aprendizagem de alfabetos e técnicas históricas despertou o seu interesse, e só depois passou a observar artistas urbanos que integravam caligrafia em murais, levando-o a explorar essa convergência estética.
Eldr[1] relata que, desde 2015, dedica-se intensivamente à criação de alfabetos visuais, com foco em letras robustas e geoformas preenchidas por linhas: “adaptei um tipo de letra de maneira a que consiga uma linha de texto bem preenchida e com pouco espaço em branco”. Além disso o artista afirma que gosta “de ver como funcionam alguns tamanhos de texto diferentes em conjunto, cores diferentes e com contraste e, mais recentemente, o uso de spray para dar um efeito mais dimensional ao desenho.”
Miguel Silva assume o nome Soldier no universo do graffiti. Cresceu em Portugal e, desde infância, demonstrou uma forte inclinação para o desenho: “aos 6 anos já andava com lápis na mão, a copiar tudo o que via”. Começou no graffiti com 16 anos, inicialmente com tags, evoluiu para throw‑ups, pieces e eventualmente caligrafia, atraído pelo poder emocional das palavras: “gosto da força das palavras, da forma como uma letra pode transmitir emoção mesmo antes de ser lida”. Apesar da formação em Design Gráfico, foi na rua que encontrou a sua voz artística mais autêntica.
Soldier classifica o seu estilo como “uma fusão entre o graffiti clássico e elementos mais gráficos, com alguma influência do design”. Prefere paletas vivas, contrastes fortes, mistura de letras e formas simbólicas, adaptando cada intervenção ao espaço específico em que trabalha: “é uma conversa entre mim e o lugar”.
Figs. 4 e 5. Eldr e Soldier a realizarem o mural. Créditos: João Salgado (2025)
Influências e Estética Visual
Eldr aponta dois artistas determinantes: o holandês Shoe, que evoluiu do graffiti para o movimento Calligraffiti, e o artista russo Pokras Lampas, conhecido por grandes murais caligráficos. Ambos combinaram técnicas históricas de caligrafia com escala contemporânea. Já Soldier menciona Does e MadC como influências iniciais, e acrescenta que mais tarde se interessou por artistas portugueses como Vhils e Eime. Além disso, estudou a tradição gráfica nacional—azulejos, bordados e padrões portugueses—para integrar elementos culturais no seu trabalho.
Eldr utiliza alfabetos densos e bem preenchidos, priorizando composições caligráficas que ocupam completamente o espaço e minimizam espaços vazios. Emprega formas geométricas e cores contrastantes para criar profundidade, recorrendo também ao spray para efeitos dimensionais. Soldier, por sua vez, constrói murais com forte presença gráfica: letras estilizadas alinhadas a símbolos visuais, graças à sua formação em design e à sensibilidade para cores e formas adaptadas ao contexto físico.
Impacto Comunitário e Cultural
Relação com a comunidade local
O mural foi bem recebido por vizinhos, representantes da associação e moradores da freguesia: “foi um vizinho do skatepark que cedeu o muro para a pintura do mural… as pessoas da freguesia partilharam nas redes sociais com mensagens de orgulho”. Não houve relatos de resistência; pelo contrário, existiu entusiasmo comunitário, atesta Flora, membro da associação, afirmando que os locais gostaram do trabalho e dizem que o espaço ficou ainda mais bonito e com mais cor. A presença de um mural num ambiente rural, dentro de um skatepark já instituído, pareceu natural e bem integrada, sem tensão entre arte urbana e meio não urbano.
Para Eldr, pintar num meio rural “significa praticamente o mesmo que pintar num meio mais urbano”, desde que o espaço — como um skatepark — já seja identificado com cultura urbana. No entanto, para o artista, o facto de estar mais distanciado da cidade cria oportunidades de expressão que não seriam possíveis, por exemplo, numa avenida citadina mais movimentada. Já segundo Soldier, esta experiência reforça a capacidade da arte urbana de trazer a cultura contemporânea a áreas onde ela dificilmente chega, servindo de ponte entre tradição e modernidade.
Ambos destacam que, com diálogo e planeamento adequado, a arte urbana pode transformar percepções sobre espaços públicos: “um mural pode nascer de um processo participativo, onde todos têm voz. Isso fortalece o sentimento de pertença” (Soldier).
Como evidencia Flora: o Skatepark é um espaço que “passou a ser o ponto de encontro dos jovens que vivem nos arredores. A criação da associação Couto Park veio dinamizar ainda mais o espaço, com aulas e eventos de skate para toda a comunidade. Este skatepark acaba por ser o ponto de encontro entre os jovens ali residentes e o mundo, já que por ali passam pessoas vindas de toda a parte, incluindo de outros países.”
Figs. 6. A celebração do mural. Créditos: João Salgado (2025)
Aprendizagens individuais
A experiência foi marcante para Eldr: “foi a primeira vez que pintei um mural com outros artistas e não sabia que poderia correr tão bem”. Destaca a camaradagem, coordenação e boa comunicação entre os participantes.
Soldier, por seu turno, enfatiza a escuta — do lugar, das pessoas, do tempo — e aprendeu que a arte respeitosa pode abrir portas e mudar perceções sobre o território.
Evolução da relação entre arte e lugar
Eldr indica que o projeto não mudou sua visão sobre arte e território: o seu método é sempre respeitar o espaço e os envolvidos, independentemente do contexto. Já Soldier afirma que agora reconhece com mais clareza como “o território molda a arte tanto quanto a arte molda o território”; um mural é, em essência, um diálogo.
Ambos desejam voltar a trabalhar em contextos rurais. Eldr aguarda convites futuros para continuar a expandir a sua arte fora dos grandes centros urbanos; Soldier deseja levar workshops, ações educativas e processos participativos que envolvam jovens, ensinando técnicas e mostrando o graffiti como possível caminho de vida.
Conclusão
Este estudo de caso demonstra que a arte urbana — graffiti e caligrafia — pode transcender o meio urbano e gerar impacto simbólico, social e cultural em contextos rurais. O skatepark do Couto tornou-se um palco de expressão artística, diálogo comunitário e inclusão. O processo colaborativo, desde o pré-desenho até a execução no evento, reforça a importância de planeamento, participação local e sensibilidade ao espaço.
Eldr e Soldier mostram trajetórias diferentes, mas complementares: um mais voltado à caligrafia estética e gráfico‑tipográfica; outro à força expressiva do graffiti com design. A intervenção no Couto tornou-se um catalisador de comunidades locais, marcando as potencialidades do muralismo participativo para transformar perceções e criar sentido de pertença, num lugar onde não havia esse precedente.
Este projeto sugere um caminho promissor: redes de arte pública em aldeias ou freguesias que valorizem identidade local, inclusão e diálogo artístico. Para isso, são essenciais condições institucionais, apoio da comunidade e abertura para processos verdadeiramente colaborativos.
Texto: Catarina Bessa Rodrigues (CECS/Universidade do Minho)
Imagens: João Salgado
Publicado a 28 de agosto de 2025
Notas:
[1] Todos os testemunhos deste micro-ensaio foram obtidos exclusivamente através de entrevistas informais realizadas pela autora.
Referências
Campos, R., Júnior, J. L., & Raposo, O. (2021). Arte urbana, poderes públicos e desenvolvimento territorial: Uma reflexão a partir de três estudos de caso. Etnográfica, 24(2), 361–384. https://doi.org/10.4000/etnografica.10747
Crespi-Vallbona, M., & Mascarilla-Miró, O. (2020). Street art as a sustainable tool in mature tourist destinations: A case study of Barcelona. International Journal of Cultural Policy. Advance online publication. https://doi.org/10.1080/10286632.2020.1792890
Zhu, Q., Zhang, J., & Liu, Y. (2024). Efficacy assessments of public artworks intervening in rural built environments for tourism developments: A comparative study of two tourism villages in Hangzhou. Journal of Asian Architecture and Building Engineering, 23(2), 2380827. https://doi.org/10.1080/13467581.2024.2380827
LOCALIZAÇÃO
LOCAL: Braga
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