Cuidar do que é nosso. Encontros inesperados
Nas cidades de hoje, o exercício de andar deixou de ser o grande meio de conhecer e pensar o espaço, tal como a comunicação para ser veloz deixou de ser experimentada na relação face a face entre os sujeitos.
Carlos Fortuna, 2018, p. 137.
Quando vou a pé para o trabalho, por vezes acontece fazê-lo com tempo, sem a sensação de que estou atrasada, livre da culpa que o ritmo da máquina da cidade nos faz sentir sempre que deixamos de correr atrás do tempo. Uma perversão que existe na cidade, diz Gonçalo Tavares (2025), é transmitir a sensação de que estamos sempre atrasados, algo que nos faz sentir culpados, seja por não ter feito o suficiente, seja por não ter dado o suficiente.
Nesses intervalos, em que me dou ao luxo de pôr entre parêntesis as preocupações práticas, ir a pé para o trabalho transforma-se, ganhando novos contornos. Não se trata mais de uma transição entre um dentro e um fora, de um entre aqui e um lá sem “valor próprio” (Grós 2008/2021, p. 37). Pelo contrário. É como se tudo estivesse à minha espera, à espera de ser olhado, sentido, calcorreado. Caminho de corpo inteiro, à margem dos que por mim passam a correr ou a falar com os pares, imersos no frenesim quotidiano para o qual nos empurra a sensação constante de “estar em dívida”. Deixo-me embalar e conduzir pelo som do riacho, enquanto caminho atenta “à simpatia das coisas vivas” (Grós, 2008/2021, p. 60) que respondem à minha presença.
É como se estivesse a ver as coisas pela primeira vez. Talvez isso corresponda áquilo que José Gil (1996) designa como sendo o olhar (Neves, 2010). Diz o filósofo que ver e olhar não são a mesma coisa. Para ver, temos de olhar, mas podemos olhar sem ver, isto é, sem intelectualizar, sem dar um sentido ao que se vê e, em vez disso, simplesmente desfrutar do processo, do ir no fluxo: no fluxo da água, do vento que sopra nas árvores e nas flores, do impacto do bater dos pés no chão ou das bicicletas que por mim passam sempre com algo melhor para fazer.
Num desses momentos de deriva, de gozo da paisagem aberta, perto da entrada de um do chamado Parque Desportivo da Rodovia, na cidade de Braga, o colorido brilhante de uma planta despertou a minha memória, levando-me de volta à ilha de São Miguel, nos Açores, e aos deslumbrantes recantos povoados com centenas de pés da mesma planta que eu julguei ser original e típica daquelas paisagens verdes e húmidas.
Figura 1. Canteiros
Apanhada de surpresa, senti necessidade de me desviar do caminho para que não restassem dúvidas acerca da minha inesperada descoberta. As plantas estavam dispostas em canteiros, nas bermas de uma espécie de ponte pedonal, em forma de círculo, que permite atravessar o rio Este de um lado para outro. E digo uma espécie de ponte por ter sido pensada não apenas com um propósito funcional, o de ser um lugar de passagem, mas também com fins de convivialidade: integra mobiliário, bancos e mesas, que nos convidam a sentar e a conviver, ainda que alguns se possam sentir intimidados a fazê-lo, dado que a centralidade da passagem retira o efeito de abrigo que os bancos podem ter nos espaços públicos das cidades. Estar sentado, para descansar ou por prazer, é dar o corpo a ver aos outros, o que faz do ato de sentar em público na cidade um ato simultaneamente banal e delicado; daí que a localização deste tipo de assento, tanto quanto o seu design, intervenham nos tipos de usos que fazemos dele (Jolé, 2003). Os que por ali se encontram parecem não ser vistos como acolhedores, nem propiciar as sociabilidades. Das várias vezes que por lá passei, nunca os vi ocupados.
Figura 2. Ponte pedonal e mobiliário
Mas não foi o mobiliário da ponte pedonal que me atraiu. Foi sim o colorido da vegetação nos canteiros. À beira deles, estava um homem já com uma certa idade, com uma pequena enxada nas mãos, sem farda, ou qualquer outro signo de funcionário da Câmara. O espanto da minha descoberta inusitada fez com que o interpelasse de imediato. E a conversa arrastou-se. Da planta para a dedicação com que ele cuida diariamente dos canteiros. Todos os dias, depois de almoçar em casa (por vezes com as duas filhas que o vêm visitar), sai para tomar café no quiosque junto ao Centro de Nanotecnologia, um local de encontro para muitos homens reformados. Em vez de ficar a jogar as cartas e a dar duas de conversa, uma prática habitual na esplanada daquele quiosque, entretém-se a dar vida a esta zona liminar.
Tudo começou com a pandemia e com a necessidade de “sair de casa para não ficar maluco”. Ainda assim, “o divórcio aconteceu”. Começou por fazer figuras nos canteiros com os frutos das árvores que ladeiam o rio Este naquela zona; com o passar do tempo, as figuras deram lugar a palavras, em alto relevo, traçadas com pés de plantas. “Braga, cidade paraíso”; “Braga, encanta”; “Rio Este”.
“Tenho de imaginar tudo primeiro na minha cabeça, para depois passar a executar”, disse-me orgulhoso. “Vem aqui gente letrada da vizinhança falar comigo para mostrar o seu apreço pelo que faço”. “Eu até gostava de fazer mais, de cuidar, por exemplo, dos espaços em torno daquelas árvores ali; já falei até com os homens da Câmara, que andam aqui no parque…” O gosto pelo cultivo da imaginação vem-lhe das práticas da sua anterior profissão. “Eu tinha uma agência publicitária. Toda a gente sabia quem eu era em Braga. Veja lá que a minha filha formou-se em farmácia, mas trabalha na área da publicidade”. Quem sai aos seus…
Figura 3. Braga Encanta
Figura 4. Cidade Paraíso
Figura 5. Complexo Desportivo da Rodovia
O meu encontro com esta prática expressiva, que é simultaneamente uma prática de cuidado, fez-me pensar na “porosidade” (Benjamin, 1928/1992) dos espaços urbanos — uma ponte pedonal que é passagem e que quer ser em simultâneo uma sala de estar e um canteiro de flores que é ao mesmo tempo público e privado. Vi o potencial dos usos que fazemos dos recursos públicos coletivos e das experiências que favorecem o sentido de comuns (“commons”), alicerce da cultura cívica urbana (Amin, 2008).
A discussão contemporânea sobre o sentido dos comuns (e.g. Bollier, 2016, 17 de maio) diz-nos que este resulta de uma praxis que “comuniza as coisas” e que é conduzida por “princípios de cooperação e responsabilidade: uns com os outros, com a terra, as florestas, os mares, os animais” (Federici, 2012/2019, pp. 317-318). O que nos liga e prende aos outros pode ser também abordado em termos de cuidado, como propõe Joan Tronto no livro Caring democracy publicado em 2013. Tal implica repensar as relações sociais concretas numa ótica democrática, de responsabilidade partilhada. Neste tipo de cenário, a individualidade criativa dos sujeitos pode prosperar expandindo os horizontes do tornar comum (“commoning”) desde que, como sublinha o arquiteto grego Stavrides, a comunização ou o processo de fazer o comum “nunca se ossifique na realidade ou fantasia fechada de um mundo comum homogeneizado” (Stravides, 2017, p. 273).
Zara Pinto-Coelho (CECS/Universidade do Minho)
Braga, 26 de maio de 2025
Publicado a 26 de junho de 2025
Referências
Amin, A. (2008). Collective culture and urban public space. City, 12(1), 5-24.
Benjamin, W. (1992). Rua de sentido único, Crónica berlinense e infância berlinense por volta de 1900 (C. Fischer & I.A. Sousa, Trad.). Relógio d`Água. (Obra original publicada em 1928)
Bollier, D. (2016, 17 de maio). Commoning as a transformative social paradigm. David Bollier. News and perspectives on the commons. [https://www.bollier.org/blog/commoning-transformative-social-paradigm].
Federic, S. (2019). O ponto zero da revolução: trabalho doméstico, reprodução e luta feminista (Coletivo Sycorax,Trad.). Elefante. (Obra original publicada em 2012)
Fortuna, C. (2018). Caminhar urbano e vivências imprevistas. Revista Brasileira de Sociologia, 6(3), 136-154.
Gil, J. (1996). A imagem-nua e as pequenas percepções. Estética e metafenomenologia. Relógio d ́Água.
Gonçalo, M. T. (2025, 5 de março). A literatura é uma arte pobre, no melhor dos sentidos. Jornal Sol.
Grós, F. (2021). Caminhar uma filosofia (C. Euvaldo, Trad.). Ubu Editora. (Obra original publicada em 2008)
Jolé, M. (2003). Quand la ville invite à s´asseoir. Le banc public parisien et la tentation de la dépose. Les Annales de la Recherche Urbaine, 94, 107-115.
Neves, J. P (2010). A experiência perceptiva do ecrã. Novas perspectivas interdisciplinares. In Z. Pinto-Coelho, & J. P. Neves (Eds.), Ecrã, paisagem e corpo (pp. 95-103). Grácio Editor.
Stavrides, S. (2016). Common space: The city as commons. Zed Books.
Tronto, J. (2013). Caring democracy. Markets, equality, and justice. New York University Press.
LOCALIZAÇÃO
LOCAL: Braga
LATITUDE: 41.5540606
LONGITUDE: -8.400602200000002
















