Cádiz (Fragmento #01)

Trocamos um olhar cúmplice e um subtil acenar de cabeça, num gesto cortês de reconhecimento, de proximidade, nesta incerta promiscuidade territorial. Sinto um prazer desavergonhado cada vez que subo à açoteia, tão próxima de tantas outras, de tanta gente, de tantos vizinhos.

Cá em cima, temos o privilégio de uma sala de estar comunitária, respeitando a individualidade e o espaço-próprio, num amontoado de micro-universos domésticos, diferenciados pelo dedo de cada habitante. A açoteia é uma janela sem cortinas. Estamos todos expostos, de forma democrática. Ou talvez não, pois se as açoteias mais elevadas espiam a totalidade das outras, ao contrário pouco será visível. Haverá quem prefira ver os outros sem ser visto. Haverá quem não se importe de ser visto e prefira não ter que ver os outros. Uma secular rede social. Ver, ser visto, acenar e sorrir sem conhecer.

O meu vizinho da frente está à mesma altura que eu. Apenas a uns escassos 4 ou 5 metros, que será a largura da nossa rua. Tão próximo, que lhe reconheço o cheiro da água-de-colónia ainda antes de o ouvir chegar. Não lhe conheço o nome. Nem o que faz. Apenas sei que quase sempre sobe à açoteia para se sentar num cadeirão a ler o jornal, ou um livro. A não ser quando chove.

Penduro a roupa no estendal. Imagino que ele olha para mim, talvez para o meu corpo, para as curvas do meu vestido. Agarro em duas molas e apanho do cesto uma toalha de banho. Em todos estes anos, creio que nunca trocámos uma palavra. Ficamos apenas pelo gesto, pelo mútuo assentimento do “eu estou aqui, sei que estás aí, olá, mantemos a distância, esta é a minha casa, essa é a tua”.

Acabo de estender a roupa e sou eu que me estendo ao sol. Passos chegam até mim. O meu filho pergunta-me se pode ir a casa do vizinho jogar Playstation, que o Lucas tem um jogo novo.

Digo-lhe que sim, mas que espere cinco minutos que desço com ele. Tenho que ir ao mercado. Talvez compre peixe para o jantar.

Descemos à rua. O Lucas mora mesmo em frente, no segundo andar. O meu filho toca à campainha e a porta abre. Antes de poder entrar, sai o meu vizinho de açoteia. Mesmo em frente um ao outro os nossos olhares cruzam-se, mas rapidamente se repelem. A intimidade das alturas não se prolonga pelos quotidianos térreos. Seguimos cada um para seu lado, deixando-nos imergir na multidão deambulante que ocupa a rua cada vez mais estreita.

Carlos Norton

Publicado a 18-11-2022

Ficha Técnica

F#01

Som gravado com binaurais Roland CS-10 EM

Cádiz (04.10.22 ; 13:20)

Gravação em movimento pelo centro histórico de Cádiz (Calle Compañia), entre residentes e turistas.

Para saber mais:

O Vizinho da Frente (5 vizinhos em 5 Fragmentos)

Ficheiros audio


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