Braga 24: Uma cidade dividida entre passado e futuro?
Neste ano de 2025, a cidade de Braga é a “capital portuguesa da cultura”. Tal denominação é dada após uma tentativa sem sucesso de ser a “capital europeia da cultura de 2027” em eleição que ocorreu em 2023. A vencedora foi Évora, o que levou as outras finalistas (Aveiro, Braga e Ponta Delgada) a partilharem o título de “capital portuguesa da cultura” sucessivamente em 2024, 2025 e 2026, respectivamente (Magalhães, 2023).
No meu caso, cheguei à cidade em meados de julho de 2024 e após alguns dias intensos, como a data de minha chegada e as desventuras que narrei nos últimos micro-ensaios, enfim decidi experimentar o centro da cidade e, assim, obter algumas primeiras impressões in loco do que seria esta cidade bi-milenar de ascendência romana.
Ao sair de casa, meu intuito era buscar algum restaurante bem tradicional e comer um Bacalhau à Braga, afinal, estar em Portugal pede um Bacalhau e não teria nada mais justo do que ser à moda da cidade, não é? O destino escolhido foi o restaurante “Águas de Bacalhau”, não apenas por ter “bacalhau” no nome, o que para mim demonstrava que o prato seria uma especialidade da casa, mas também pelas boas avaliações e localização, que é muito próxima ao “Arco da Porta Nova”, um monumento icônico da cidade e que simboliza a “porta aberta” pela qual a cidade é comumente referida.
Entretanto, quem ficou em “águas de bacalhau” foi eu, pois cheguei após às 15 horas e o restaurante já estava fechado. À época, eu ainda não sabia que, aqui nesta Terrinha, ficar em “águas de bacalhau” significa “malograr-se, permanecer tudo na mesma, não dar nada, não dar resultado” (Academia das Ciências de Lisboa, 2025), mas logo aprendi. Outra frustração foi descobrir que o suposto restaurante “tradicional” não era como eu esperava, isto é, havia sido inaugurado em 2022 e o menu/ementa demonstrava uma identidade bastante jovem e plural, seja no linguajar, seja na disponibilidade de pratos típicos de diferentes países, incluindo o meu Brasil e os meus vizinhos argentinos. Ao contornar o restaurante “Águas de Bacalhau” e seguir em destino ao “Arco da Porta Nova”, encontro o que realizaria o meu desejo inicial: o restaurante “Inácio”. Este sim era um típico português, vide a sua construção, uma clássica casa de pedra e deveras rústica. Infelizmente não pude experimentá-lo, pois este restaurante, que lá existia desde 1931, encontrava-se fechado e, ao que tudo indica, há pelo menos uns 3 anos. Findei a busca pelo meu “bacalhau à Braga” no restaurante “La Porta”, que suspeitava ser espanhol, entretanto, é um restaurante italiano e foi inaugurado em 2019.
Figura 1. A jovem ementa do “Águas de Bacalhau”
Figura 2. A fachada do tradicional “Inácio”
Figura 3. O “Bacalhau à Braga” do “La Porta”
Após almoçar, inicio a minha caminhada pelo centro de Braga, logo sendo surpreendido pelo grande número de lojas fechadas e obras a serem realizadas. Dentre as lojas fechadas, há variados tipos, desde lojas de souvenires a pastelarias e restaurantes. Parecia que a cada 2 lojas abertas, existia 1 fechada.
Figuras 4 a 6. Lojas fechadas em Braga
Ao subir para ver a famosa Sé de Braga, reconheço um artista de rua que assisti em um programa turístico ainda no voo para Portugal. Todavia, o espaço que havia para realizar a sua arte já era um tanto mais enxuto, visto que dividia a diminuta rua com uma construção, tornando ainda mais difícil de conseguir parar e apreciar a sua arte. Pelos arredores, pude notar algumas pixações que traziam uma alma “jovial” à cidade, embora quem estivesse a visitar o centro naquele Sábado de sol se resumisse a turistas, famílias “tradicionais” (papai, mamãe e miúdos) e pessoas mais sênior (acima de 60 anos). Destas artes na rua, destaco uma pixação “Shrek is love, Shrek is life” (Shrek é amor, Shrek é vida) – um meme bastante popular entre a dita geração Z – e expressões de cunho político, vide um A anárquico e “Antifa” (abreviação de anti-fascista), que aparece duas vezes, estando riscado em uma delas.
Figura 7. Músico dividindo espaço com a construção
Figuras 8 e 9. Pixações do centro da cidade
Concluindo este breve passeio, chego à Sé de Braga. Mas não é esse histórico monumento que me chama a atenção de início, pois reparo que ao lado, onde estaria localizada uma loja de souvenires, noto que há uma série de jornais a tapar sua fachada. A loja não se encontrava aberta e os jornais trazem algumas manchetes que denotam Portugal naquele momento: “Investir, investir, investir. A máxima das empresas para crescer”; “Risco de inflação trava euforia no corte de juros”; “Banca aposta no crédito ao consumo”; “Desemprego registado aumenta há seis meses”; “Sector imobiliário considera Simplex positivo, mas tem dúvidas”.
Quando retorno o meu olhar para a imponente Sé de Braga, sinto o peso de toda a sua história e me desconecto daquele momento para imaginar como foi a sua construção ao longo da Idade Média. Ainda me é surreal imaginar que a história da catedral antecede a construção da minha pátria como tal, isto é, anterior à chegada dos portugueses no meu querido Brasil. Ao refletir sobre esta observação, recorro a Walter Benjamin (1935/2012, p. 19) e o conceito de autenticidade da obra de arte: “O aqui e agora do original constitui o conceito de sua autenticidade e sobre o fundamento desta encontra-se a representação de uma tradição que conduziu esse objeto até os dias de hoje como sendo o mesmo e idêntico objeto”.
Próximo a mim, há um grupo de senhoras portuguesas, a realizarem uma visita guiada pela cidade de Braga. Ouço de soslaio: “deveríamos fazer isto mais vezes. Mal saio de casa e há anos que não vejo a Sé”. Sento-me ao pé da Sé e vejo um grupo de crianças a brincar pelas ruas, observando que não pousam o olhar na catedral em nenhum momento.
Figura 10. A fachada e suas manchetes
Figura 11. A catedral e sua imponência
O conceito de aura, em Walter Benjamin (1935/2012, p. 27), pode ser entendido como “um estranho tecido fino de espaço e tempo: aparição única de uma distância, por mais próxima que esteja”. Em minha tentativa de definir a “aura de Braga”, explicitaria uma sensação de “viagem no tempo”. Neste caso, por alguns instantes ao olhar e tocar a Sé de Braga, viajei para uma Bracara Augusta medieval. Mas seria esta a Braga contemporânea?
As cidades passam por desestruturações e reestruturações ao longo do tempo e do espaço, como nos traria Lefebvre (1968/2008). Se, ao visitar a Sé de Braga, pude obter esta experiência de “viagem no tempo” e que remonta à sua historicidade, o restante das minhas idas e vindas mostram o oposto, vide as diferentes construções, as lojas e restaurantes tradicionais que fecharam e as tímidas expressões de uma juventude (adolescentes e jovens adultos) pelas paredes da cidade. Juventude esta que não pude notar in loco neste caminhar diurno, talvez por se sentirem mais à vontade em um ambiente noturno. Também é válido ressaltar que, durante esta breve passagem, não tive contato com nenhum brasileiro ou outros grupos de imigrantes a aproveitar a cidade, apenas pude notá-los a trabalhar, seja servindo mesas ou a atender clientes em lojas.
Por fim, fico a me questionar se a Braga 25 – a capital portuguesa da cultura, ajudará a cidade a definir a sua identidade atual ou se uma eventual turistificação poderá canibalizar ainda mais a sua identidade, mercantilizando suas memórias, histórias e património, em linha com estudos recentes acerca da cidade do Porto (Silva, Ribeiro & Araújo, 2022).
Texto e imagens: Lucas Novais (CECS/Universidade do Minho)
Publicado em 17 de abril de 2025
Referências
Academia das Ciências de Lisboa. (2025). Ficar em águas de bacalhau – Dicionário da Língua Portuguesa. Dicionário da Língua Portuguesa. Acessado em February 26, 2025, a partir de https://dicionario.acad-ciencias.pt/curiosidades/ficar-em-aguas-de-bacalhau/
Benjamin, W. (1935/2012). A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica (F. D. A. P. Machado, Trad.). Zouk.
Lefebvre, H. (1968/2008). O direito à cidade (R. E. F. Frias, Trad.). Centauro Editora.
Magalhães, P. (2023, April 12). Braga usará título de Capital Portuguesa da Cultura para “celebrar” criação nacional. Público. https://www.publico.pt/2023/04/12/local/noticia/braga-usara-titulo-capital-portuguesa-cultura-celebrar-criacao-nacional-2045890#google_vignette
Silva, M., Ribeiro, R., & Araújo, E. (2022). The tourist era in the city of Porto: Enchantment, suspension and (un)sustainability. In Z. Pinto-Coelho & H. Pires (Eds.), The City of the Senses, the Senses in the City (pp. 103-129). UMinho Editora.
LOCALIZAÇÃO
LOCAL: Braga
LATITUDE: 41.5499885
LONGITUDE: -8.4269012





















