A PLENITUDE DO INSTANTE

1 – AQUELE QUE PAIRA

Houve um tempo em que a minha relação com a cidade era física, construída nos percursos, nas deambulações e nas incursões. Durou esse tempo enquanto pude ver. Desde a adolescência, altura em que comecei a “ir ao Porto sozinho, até ao dia em que deixei de poder ver a cidade com os meus olhos, mantive com ela uma relação de fascínio e de criação de entendimentos. Não sou favorável à auto-contemplação, pelo que não vou aqui desenrolar memórias em expansão narcísica do próprio umbigo. A nossa vida não interessa aos outros porque é nossa, mas porque toca a deles. Aquilo que aqui digo posso resumi-lo numa frase: tornei-me um flanêur da minha cidade. O flanêur é aquele que paira. O cronista João do Rio, que pairava sem cessar sobre o Rio de Janeiro, dizia que perambulava, captando assim da cidade a cena e a obscena. Aquele que paira sabe colher as aragens quase imperceptíveis do acontecer, as finas partículas que se desprendem do borbulhar anónimo e tecem o dia-a-dia da cidade. Faz voo raso às vezes, quando algo de mais intenso tem a força da luz no caminho do insecto. E volta em seguida à sua deambulação sem propósito senão o de esgotar-se todo naquela experiência do ver, do cheirar e do sentir. Anda por ali, passa e volta a passar, entra nos mesmos sítios e em sítios novos e com todos se espanta sem verdadeiramente se espantar com nenhum. É um transeunte – um transeunte, aquele ou aquela que está em transe pelo simples facto de pairar.

2 –OS PASSEADORES DE DISNEYLÂNDIAS

O flanêur descobre na cidade em que paira a singularidade de a não poder reduzir a nenhuma outra, mesmo quando faz com ela vários paralelos com as que conhece. Tem a percepção da singularidade e sabe quanto tudo o que vê e sente no fluir de todas as coisas que o cruzam e o invadem nessa cidade é intenso, repleto e fugidio. O que acontece a cada momento esgota-se na plenitude do instante – ou se vive logo ali, ou não se leva no bolso para lugar nenhum. Quem leva a cidade no bolso são os caçadores de fotografias do turismo de massas, os passeadores de disneylândias, mas esses não são flanêurs. O flanêur é, em boa medida, o contrário do turista que se embebeda de imagens: não acredita no retrato 10 por 15 como possibilidade de fixação do real. A maioria daqueles que pairam nasce e morre sem escrever uma linha sobre o que mais gosta: do pulsar da sua cidade – da sua cidade e não duma cidade qualquer. Escreveriam a profusão de sensações, escreveriam a solidão e a festa, a bebedeira de inverno numa viela vazia e o erotismo escaldante de certos lugares de veludo, que só a vida sem grandes concessões à disciplina pode oferecer. Escreveriam, mas não escrevem, porque isso seria substituir o prazer da rua pela quietude insossa do escritório. Na próxima vinda à Terra gostava de ser um flanêur a tempo inteiro e concentrar no espaço demasiado curto e demasiado extenso de uma vida todas as fibras e veias da cidade por que me apaixonasse.

3 – VENDER A MINHA CIDADE

Um dia, por necessidade de desempenhar uma profissão, perguntei a mim mesmo o que poderia ser sem deixar de ser flanêur. E descobri: ser etnógrafo urbano. Do comportamento desviante, porque dos que se portam bem não me parecia que houvesse muito para dizer. Passei a sentir e a escrever e a dizer a cidade por profissão. Tratou-se de a tornar em mais qualquer coisa do que uma amante. Ou em menos qualquer coisa, porque em nada há mais substância do que numa amante. Essa menos qualquer coisa foi fazer dela objeto de análise racional. Era uma exigência profissional, mas também uma nova etapa do pairar – porque o flanêur não hiberna. Tornei-me etnógrafo urbano e passei a vender a minha cidade em aulas, livros e congressos. E em reuniões de etnógrafos, em que todos gostavam muito da sua cidade, cada um da sua e todos da cidade em geral, como num pique-nique em que se reúne o farnel de cada um e todos provam do de todos.

4 – RENTE À ÁGUA, AS DERRADEIRAS CINTILAÇÕES

Entretanto veio a falta de visão e a ameaça da cegueira. Tinha nessa altura uma bicicleta todo-o-terreno com que diariamente fazia percursos pela cidade. Comprei-a para andar no monte, mas depressa descobri que as raízes transmontanas dos meus antepassados tinham sido cerceadas pelo hálito da cidade. O ar lavado dos grandes espaços dava-me tonturas, o horizonte ficava demasiado ao longe – e depressa me acometia uma inquietude que, tivesse eu

tido a imprudência de ir ao psiquiatra, teria sido transformada em estado mórbido. Mas logo tudo se dissipava ao chegar à minha cidade, por mais ameaçadoras que fossem certas ruas para os que as olhavam pela primeira vez. Foi assim que ela me foi conhecendo todo. Deixava-me passear-lhe pelo vestido como fazemos com uma amante, tirava-o às vezes só para mim e vi então com os meus olhos cada vez mais enfraquecidos, coisas que terei pudor de contar seja a quem for, como dizia Régio da sua Portalegre cidade no alto Alentejo plantada. Descobria caminhos que me levavam a promontórios debruçados sobre a paisagem, e daí recolhia imagens que sabia perto de serem as últimas; desvendava veredas entre pedaços de bosque perdidos na orla do Douro, parava a BTT nas pedras da margem e, rente à água, recolhia daquele espelho

esverdeado as derradeiras cintilações. Era um flanêur feliz – o flanêur da bicicleta. Lembro-me de parar em certos pontos altos de onde se via o rio e a linha do casario e os ruídos que se coavam, vindos de longe, num fundo de garganta. Dos pontos altos a cidade não mostra só a sua pose, mas sobretudo a sua voz. Respira e arfa – como os seres circulados pelo sangue. Permanecia então em cima da bicicleta, o equilíbrio sustentado num único pé contra o chão. Parado, a estender o olhar pela placidez murmurante daquilo tudo. Ao longe toda a cidade é serena. De perto torna-se ruído, vai-nos jugulando nas suas artérias indiferentes, vai-nos lançando cheiros a urina que dormem nas esquinas – até que arregalamos a vista e vemos como é feia, desordenada e absurda.

5 – POR TODA A PELE

O que tem de intenso uma cidade é que encerra o melhor e o pior. Por uma questão de dever profissional, o etnógrafo do comportamento desviante deve nutrir interesse pelo pior. Por uma questão insondável como o destino, o flanêur também. É suposto que o desvio seja o lado tumultuoso e maléfico da cidade, o lado onde exprime as chagas e mostra a quem vier como se é pleno e miserável, senhor e servo nas entranhas do grande animal. As dobras e recantos, os desvãos e os becos, terraços e pequenas praças e relva calcada no meio de prédios tristes, arvoredos sujos com patos em lagos parados, mas também a luz plena das grandes artérias – tudo nela encerra todos os contrários em simultâneo. É ardilosa, engana o turista mostrando-lhe o belo. O turista é o tonto do belo. E caça-o em imagens fixadas por máquinas fotográficas japonesas. Um japonês pode ter em casa o mundo todo em fotografias. O flanêur pode ter tido o mundo todo num mergulho fundo que depois nem sabe contar nem pode mostrar numa rede social. Seja como for, nessas pausas para deixar a cidade falar comigo, sentado na minha bicicleta com um único pé no chão e a vista de náufrago a procurar a margem, pensava com frequência em como tudo aquilo que via me desapareceria dentro em breve dos olhos. Engoli, por esses tempos, da paisagem o mais que pude. Venham agora empreiteiros e autarcas e alterem a cidade: pouco podem contra mim. Já não verei os dislates que fazem, os modos grotescos com que rasgam o vestido à noiva. Tirou-o só para mim e percorri-lhe toda a pele quando assim me deitava nela, deslizando-lhe pelos flancos com a minha bicicleta.

Luís Fernandes

Publicado a 11-11-2022

Texto e imagem publicados originalmente no livro: Pires, Bernardino (2022). A cidade do Porto na obra do fotógrafo Bernardino Pires. IN-LIBRIS.

LOCALIZAÇÃO

LOCAL: Porto

LATITUDE: 41.1579438

LONGITUDE: -8.629105299999999