A escrita na pedra urbana: a fala das paredes de Malta

A composição geológica do arquipélago de Malta é essencialmente calcária, composta por rocha sedimentar bastante susceptível à erosão. Os edifícios mais característicos do país – datados desde a pré-história à actualidade – são construídos com essa rocha, cujas tonalidades de amarelo têm variações, ainda que subtis. Embora no passado alguns destes edifícios tenham tido revestimento ou pintura, atualmente é a pedra nua que prevalece. Daí resultam construções edificadas com um aspeto particular, com a erosão da pedra a ser exposta em toda a sua irregularidade e organicidade. Ao crepúsculo, quando os edifícios recebem os últimos raios do sol, a pedra brilha reluzente num dourado que contrasta com as águas mediterrâneas.

A arquitetura monumental de Malta tem uma presença muito forte em várias cidades, como em Valletta, Vittoriosa, Cospicua, Senglea, Mdina, Rabat ou Victoria, em Gozo. Os edifícios militares e religiosos, onde o estilo barroco prevalece, sinalizam as marcas deixadas pela presença da Ordem de Malta no arquipélago. As marcas da II Guerra Mundial também aí têm lugar, embora sejam mais discretas. São vários os edifícios junto aos portos que preservam na pedra os efeitos dos estilhaços das bombas que a Itália fascista e a Alemanha nazi lançaram naquele território, então sob controlo britânico.

Nos edifícios habitacionais, a pedra contrasta com as coloridas varandas fechadas, em madeira, cuja cor varia entre o vermelho, azul, verde, amarelo, branco ou roxo. A cor das portas condiz com a da varanda e muito frequentemente as entradas têm representações de santos em cerâmica vidrada colorida, sinalizando a religiosidade dos malteses.

As paredes destas cidades parecem silenciosas. Mas não são. Praticamente não existem pinturas murais ou pichagens, é um facto. Mas a escrita nas paredes existe em Malta desde há muitos séculos. É na pedra que ela é gravada, aí permanecendo perene à passagem do tempo. É preciso um olhar atento para ver e distinguir os grafitos[1] que se acumulam nas paredes dos edifícios das cidades maltesas. Discretos, de dimensões reduzidas e anónimos, eles contrastam precisamente com a monumentalidade dos edifícios, na sua grande maioria, de caráter público ou religioso.

O grafito é uma técnica de decoração de edifícios com uma história artística relevante. Mas enquanto rasgo deliberado na pedra como forma de comunicação, ele tem uma presença ancestral em várias culturas e sociedades. Desde o Paleolítico que o ser humano inscreve marcas visuais ou escritas neste suporte, com intenções e mensagens variadas. Trata-se de inscrições muitas vezes espontâneas, imediatas, diretas e nem sempre compreendidas e compreensíveis mas com uma função sígnica específica[2], pertencendo ao espectro das intervenções não autorizadas feitas pelos cidadãos em várias cidades do mundo. São, tal como o mural e a pichagem, formas de apropriação do espaço público, utilizando-o como seu e imprimindo recados para si próprio ou para que outros os vejam.

Nas ilhas de Malta os grafitos têm vários tempos, em acumulação, desde a pré-história à actualidade, havendo uma grande abundância de representações visuais. É extraordinário percorrer a própria história do país através deles. Reconhecer aí várias cronologias, várias culturas e sociedades, as crenças e ideologias, vários momentos sociais e políticos marcantes para a população.

A ligação ao mar percorre todos esses tempos e talvez seja por isso que as representações visuais de barcos tenham uma presença profusa. O projeto científico The Malta Ship Graffiti Project, que se dedica a interpretar estas representações visuais, considera precisamente que o barco foi para os malteses, durante séculos, o único veículo de comunicação e transporte com o mundo (Malta Ship Graffiti Project, s/d). Para quem nele navega representa isso, mas também representa o veículo que proporciona sustento, segurança e, tantas vezes, perigo. Por isso estes desenhos representam diversas tipologias de barco – desde as pequenas embarcações de pesca aos grandes galeões, carracas, galés ou tartanas maltesas.

Encontrei dezenas destes grafitos nas ilhas de Malta, sabendo que muitos datarão dos séculos XVIII, XIX ou XX. Não é só o nível de detalhe que impressiona nos desenhos gravados, que raramente ultrapassam os 20 cm de comprimento. É a aura do tempo, saber que há 200 anos alguém se deteve a desenhar na parede um objeto que representava mais do que ele era em si mesmo. A grande maioria das representações de barcos encontram-se em locais de culto. E aí, junto à entrada de igrejas e capelas, parecem testemunhar atos de fé ou de gratidão. Não deixam, ainda assim, de representar a vida de alguém, a sua poética, a forma de pensar e de sentir.

Deter o olhar nestas representações visuais é por isso uma experiência sensorial e poética. Sem alerta prévio, a existência de roteiros ou de qualquer referência aos grafitos, percorri inicialmente Malta sem detetar a sua presença. Tratando-se de inscrições muito discretas – tanto quanto à escala como quanto à delicadeza das incisões, este encontro foi sendo progressivo e implicou a passagem da observação do todo para o particular.

A partir de certa altura isso significou abandonar uma postura deambulante[3] (Breton, 1994, p.86) ou de deriva (Debord, 1958, p.67) e adotar uma busca consciente. Percorri assim vários edifícios a partir do nível do olhar, posição onde repousam com mais frequência estas inscrições. Para registá-las, fotografá-las, observá-las e interpretá-las.

A presença das representações de barcos é de facto predominante, mas não é exclusiva. As cruzes – latina, de Malta, suástica – proliferam. Tal como as estrelas – de quatro, cinco, seis, sete e oito pontas – símbolos de diverso significado. As figuras geométricas – círculos, triângulos, quadrados – também têm uma presença regular.

A estas representações simples, juntam-se outras mais complexas. A biblioteca nacional de Malta aloja muitas delas. Por exemplo, ali se encontra um grafito com a representação de duas figuras antropomórficas, em pé sob um machado disposto na horizontal. Uma dessas figuras segura um escudo e a outra uma espada, na mão direita e, na esquerda, uma cabeça decapitada.

Encontrei ainda aí a representação de um flamingo, junto a um dos muitos barcos representados, com a rara assinatura do seu presumível autor (Wil 95); de um campo de futebol, marcando a posição dos jogadores no espaço; ou a representação de uma cena composta por três figuras humanas, colocadas numa espécie de pódio em perspectiva de onde sobressai a cruz de Malta.

As figuras antropomórficas de braços no ar ou em várias actividades vão salpicando as paredes, assim como as representações do sol, de casas e de alguns objectos, todos arranhados na pedra de forma simplificada, mas nem por isso inexpressiva.

A maciez do calcário dá-se a essa expressividade sendo que alguns desenhos que encontrei nas paredes de outros edifícios públicos revelam um traço expressionista, de quem brinca no suporte com linhas rasgadas que atribuem sombra e luz, que corrigem ou acentuam o traço, que criam volume.

Deixei para o fim as mensagens escritas nestas paredes. Não porque as considere menos importantes, nem porque em Malta tenham uma presença menor. Os corações com inscrições de nomes abundam. Alguns têm datas. Detive-me algum tempo junto a um coração, datado de 1969, com a inscrição “Norman love Sina”. Passados mais de cinquenta anos, não pude evitar questionar-me se Norman continua a amar Sina? Se os dois estão sequer vivos? Se foram juntos a Malta, como turistas, ou se aí viviam?

As mensagens políticas têm menor presença. Os Asian Boyz, um gangue do sul da Califórnia criado no final de 1980 e constituído por imigrantes do sudeste asiático, não deixaram mensagens, mas várias assinaturas. A sigla ‘ABZ MP’, gravada em rocha, denuncia a passagem dos ‘Monterey Park Asian Boyz’ por Malta. Inscrições de apoio e de repúdio pelo Partido Nacionalista (P.N.) são também frequentes.

O P.N., fundado em 1926, com uma história associada ao fascismo e com uma ideologia conservadora e de direita, alterna o poder em Malta com o Partido Trabalhista desde a independência, em 1964. Embora as representações visuais sejam mais impactantes pela sua invulgaridade, esta escrita também se inscreve na fala do espaço urbano que, afinal, é “o local onde o discurso se pode tornar selvagem e, escapando a regras e instituições, se inscrever nas paredes.” como Henri Lefebvre considerou (2003, p. 19).

Em Malta ecoaram em mim várias vezes as palavras de E.M. de Melo e Castro, sobre as inscrições no espaço público português após a revolução de 25 de Abril de 1974. O poeta e artista considerava que “A escrita nas paredes é (…) um facto altamente revelador da liberdade de um POVO (…)” (1977). Como interpretá-las aqui, em inscrições na parede que acumulam vários tempos e contextos? Qual a liberdade de quem, no século XVIII ou XIX, desenhou aqueles barcos em presença das forças napoleónicas ou do império britânico? Qual a liberdade de quem gravou na pedra mensagens de apoio ou de repúdio a um dos partidos da alternância democrática maltesa? O que significa a liberdade para quem desenha suásticas num país massacrado pelos nazis? Qual a liberdade do Norman para amar Sina, em 1969?

O que é a liberdade de um povo em contextos tão dispares como os de criação das inscrições grafitadas de Malta? Pode a liberdade pensar-se no abstrato?

Sem respostas definitivas, vou ensaiando hipóteses. É possível forçar a liberdade em momentos de agonia. É possível alimentá-la, discutindo posições partidárias. É possível defraudá-la, enaltecendo o agressor no próprio lugar agredido. Ou em qualquer outro lugar. É possível amar e ser amado em qualquer circunstância. A liberdade não se pensa, assim, no abstracto. Ela define-se e ganha significado na relação com as condições concretas de cada momento. Não obstante, o facto de Malta não apagar as inscrições que tem – por ser difícil apagar o grafito, por serem discretas a ponto de passarem despercebidas, por não incomodarem os poderes ali instalados ao longo dos séculos ou por essa forma de viver a cidade ter sido incorporada, entre outras possibilidades – faz com que estas cidades maltesas tenham a sua história inscrita não apenas na macro-escala urbanística mas também numa micro-escala, a escala ao alcance de cada individuo. Isso testemunha uma performatividade não apenas histórica, como sensorial, estética e vivencial à escala de cada um de nós e de todos, enquanto comunidades socializadas.

[1] Considerando que o termo grafito tem variações de significação, de acordo com o contexto e tempo cronológico a que se reporta, importa esclarecer o sentido adotado neste ensaio. Enquanto modo de expressão, o grafito implica uma inscrição realizada em parede. Na língua portuguesa, este termo foi sendo substituído genericamente pelo termo ‘graffiti’, embora no campo dos estudos da história da arte o termo ‘grafito’ continue a ser utilizado. A decisão por retomar o termo grafito prende-se com o seu sentido etimológico. A este respeito, Sofia Salema e José Aguiar esclarecem que:

“A palavra grafito deriva do nome grego “graphos” que significa escrever, desenhar, inscrever, incisão (em latim “graffitum”, no singular, e “graffitti”, no plural). O grafito está associado à grafia, enquanto técnica de gravação com um estilete, como a grafia incisa sobre as tabuletas de cera, ou a inscrição gravada sobre uma superfície.” (2009, p.14).

Esta associação à grafia é uma das componentes importantes para o sentido que o termo adopta no ensaio, reportando-se à técnica específica de gravar, que se distingue do termo mais alargado de ‘inscrever’ (onde várias técnicas podem ser utilizadas).

Em complemento a este sentido, acrescenta-se ainda o que Torres Júnior refere, no que respeita a se tratar de uma ação de implica uma vontade de comunicar de forma espontânea com o mundo. A este respeito, o autor refere:

“Grafito – B. Art. Do it. Graffito, (…) Genericamente, é o desenho ou a inscrição verbal, gravados com ponta dura em superfícies menos dura. Técnica óbvia e espontânea, corresponde a uma das primeiras manifestações da vontade de poder no homem que deseja impor-se ao Mundo, gravando nele as suas ideias, imagens ou vivências (…)” (s/d, p.892).

[2] A utilização do signo como forma de comunicação é refletida por Umberto Eco, que considera que o mesmo “É usado para transmitir uma informação, para indicar a alguém alguma coisa que um outro conhece e que outros também conheçam. Ele insere-se, pois, num processo de comunicação deste tipo: fonte – emissor – canal – mensagem – destinatário.” (2004, p.25). O autor acrescenta ainda que, numa perspectiva histórica, “Toda a discussão filosófica sobre as ideias nasce porque articulamos signos.” (2004, p.100).

[3] Para os surrealistas, a deambulação implicava uma ausência de objectivo na caminhada. A Internacional Situacionista afastou-se dessa concepção com o método da deriva, que tem o objetivo de mapeamento e reconhecimento do espaço urbano. Ainda assim, são ambos mecanismos de reconhecimento espacial da cidade e descoberta do lugar de cada um nela. (Cruzeiro, 2014, pp.166-168).

Texto e fotos: Cristina Pratas Cruzeiro

Publicado a: 06/10/2023

Referências

Breton, A. (1994) Entrevistas. Lisboa: Salamandra.

Cruzeiro, C.P. (2014) Arte e realidade : aproximação, diluição e simbiose no século XX. Tese de doutoramento, Belas-Artes (Ciências da Arte), Universidade de Lisboa, Faculdade de Belas-Artes.

Debord, G. (1958) Contribution to the Debate“Is Surrealism Dead or Alive?”’. In

McDonough, T. ( Ed.) (2004) Guy Debord and the Situacionist International. MIT Press. ISBN: 0-262-13404-7, pp.67-69.

Eco, U. (2004) O Signo, trad. Maria de Fátima Marinho, Editorial Presença.

Júnior, T. (s/d) Grafito. Enciclopédia Luso-Brasileira da Cultura vol. 9 (pp. 890-891). Verbo.

Lefebvre, H. (2003). The urban revolution. University of Minesotta Press.

Melo e Castro, E. M. de (1977). Pode-se escrever com isto. Colóquio Artes nº 32 (pp. 48-61). Fundação Calouste Gulbenkian.

Malta Ship Graffiti Project [em linha], (sem data). Malta Ship Graffiti Project – Discover Malta’s Maritime History Etched In Stone. [Consultado em 3 de outubro de 2023]. Disponível em: https://maltashipgraffiti.org

Salema, S. e Aguiar, J. (2009) Cor e esgrafito no Alentejo. Conservar Património nº 9 (pp.13-25). Associação Profissional de Conservadores-restauradores de Portugal.

LOCALIZAÇÃO

LOCAL: Malta

LATITUDE: 35.937496

LONGITUDE: 14.375416