Para onde olharam elas — Portugal visto por mulheres fotógrafas estrangeiras

Quando em Portugal se implementava um regime político autoritário na década de 1930, a fotografia experimentava um fulgor excepcional, saindo dos estúdios e das mãos dos “profissionais”. Entre os inúmeros fotógrafos estrangeiros que aterraram em Portugal durante o Estado Novo, contam-se muitas mulheres. Percurso breve pelo trabalho de mulheres fotógrafas estrangeiras que captaram Portugal entre 1930 e 1975.

Quando Susan Lowndes (1907-1993) veio viver para Portugal, em 1939, notou que não existia um bom guia artístico e cultural do país em língua inglesa e que a última edição do conhecido guia da editora Murray era já de 1887. Mas foi só em 1946 que a escritora e mulher do embaixador britânico em Portugal, Ann Bridge, desafiou a minha avó inglesa para escreverem um livro em conjunto e partirem à descoberta do país onde eram “estrangeiras”. The Selective Traveller in Portugal, publicado em 1949, teve um enorme sucesso, com inúmeras edições nas décadas seguintes. Em 1954, no seu livro Portugal and Madeira, Sacheverell Sitwell escrevia na introdução: “Nenhum viajante inglês poderá visitar Portugal sem ter este livro à mão e qualquer escritor inglês que escreva sobre Portugal terá de estar em dívida constante para com elas.”

Ann Bridge deixou Portugal pouco depois da publicação daquele guia. A minha avó Susan não regressou a Londres e ficou a viver no Monte Estoril até ao fim da vida e a escrever sobre cultura, arquitectura, arte e religião em Portugal (além de um livro sobre gastronomia portuguesa e espanhola, que era motivo de riso na família, pois nunca soube cozinhar). Lembro-me bem de a ver sentada na sua secretária a escrever à máquina, mas nunca a vi com uma câmara fotográfica.

As duas inglesas percorreram Portugal de automóvel, em 1946, e visitaram centenas de igrejas, monumentos e museus. Sabemos que também levaram uma câmara, mas nas legendas das imagens reproduzidas no livro nada remete para a sua autoria, delas próprias ou de outros. De onde vinham então as imagens que ilustravam The Selective Traveller in Portugal? Na página de agradecimentos, encontram-se os nomes dos responsáveis das instituições que lhes cederam imagens, mas não os autores das fotografias em si. O primeiro a ser reconhecido foi António Porto d’Assa Castelo Branco, da secção fotográfica do SNI (Secretariado Nacional de Informação), “uma colecção única que forneceu muitas das fotografias para este livro” e, como sabemos, para tantos outros livros publicados nas décadas seguintes. Entre os vários directores de museus reconhecidos — afinal, este era um guia artístico e cultural —, estava também Vasco Rebelo Valente, director do Museu Soares dos Reis, do Porto, que lhes deu “muitas fotografias”. Apenas dois nomes de privados surgem como “tendo, amavelmente cedido fotografias” — W.B. Rumann, Esq. e uma mulher, Mrs. Scoville, muito provavelmente uma referência a Orlena Scoville, a norte-americana que comprara, e restaurara, o Palácio da Bacalhôa, em Azeitão, em 1936.

Na década de 1950, o panorama editorial de livros para estrangeiros, sobre Portugal e colónias, mudou radicalmente. Foi um período em que as instituições culturais e turísticas do Estado Novo investiram especialmente na divulgação internacional do país, através da encomenda de livros de viagem escritos, e por vezes fotografados, por estrangeiros. A investigadora Susana S. Martins, da Universidade Nova de Lisboa, tem trabalhado sobre o tema, analisando o papel fundamental que a fotografia teve na produção de um “Portugal” não só para “inglês” ver, mas para “francês”, “holandês”, “norte-americano” ou “suíço” verem. As agências do Estado possuíam, classificavam e disponibilizavam as fotografias do Portugal – um Portugal “do Minho a Timor” – que se queria mostrar. | Texto completo