O caminhar pela cidade em Tóquio

“Quando chegámos a Komagome, o sol afundava-se e o dia tinha-se transformado numa suave noite de Primavera”.

Eliana Sousa Santos, investigadora no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, na Série Primavera Tardia no Público, escreve sobre a história cultural do Japão após flanar sobre o território urbano.

Entre “Utopias Metabolistas“, “Norwegian Wood“, “Diários de Shinjuku“, “Panópticos Metropolitanos” e “Superfícies Brilhantes“, uma parte da ilha é revelada aos leitores que terminam o texto com um aroma primaveril de um mundo pré-apocalíptico. A série Visões do futuro: tecno-distopias de Tóquio, que será liberada aos poucos no Público, teve suas observações realizadas no mês de junho de 2019.

Em Utopias Metabolistas, a autora dá conta da zona baixa de Tóquio e sua arquitetura. O símbolo desta região é a Nakagin Capsule Tower (1972), obra de arquitetos metabolistas que possuíam a ideia de adaptar os meios urbanos de modo orgânico, consoante a necessidade do local.

Já em um ambiente mais tranquilo da zona baixa está a The International House of Japan (I-House). De construção ampla e com propostas modernistas, o espaço urbano multiforme começa a ser desenhado na mente do leitor.

Caminhando por entre lírios em direção a zona alta de Tóquio, local em que as ruas cresceram respeitando o que já lá existia (seja a topografia ou antigas propriedades feudais), surge no horizonte a Universidade de Waseda e é altura de referir a literatura com a obra Norwegian Wood (1987) de Haruki Murakami. Respeitando os instintos adquiridos em One Hundred Famous Views of Edo (1857) e outras obras, a Universidade de Tóquio e o Lago Sanshiro surgem em seu esplendor.

Após isso, os bairros de Otsuka e Ikebukuro aparecem na infinidade territorial junto com as referências ao filme Diary of a Shinjuku Thief (1968) e a contracultura em Diários de Shinjuku. Entre observações e lembranças, a fotografia Towards the City & Notebook People of Tokyo (1974) entra em cena e depois cede espaço aos panópticos metropolitanos. Regressando novamente à arquitetura e aos imensos prédios de Tóquio, a parada é o Museu Edo-Tokyo e a história que remonta à Segunda Guerra Mundial.

Por fim, em Superfícies Brilhantes, uma outra parte da cidade é iluminada com estádios e as pequenas casas mais atuais revestidas de metal e vidro.

Após essa intensa deambulação pelo território japonês, a autora conclui que “do topo da colina onde estamos, vemos a paisagem urbana de Tóquio e temos a sensação de que esta metrópole de 15 milhões de habitantes, que ainda parece uma colecção de aldeias interligadas por uma vasta rede de comboios e auto-estradas, é um sistema complexo de forças e variáveis impossível de compreender na sua totalidade”.