O ato de caminhar por Francesco Careri

“Caminhar continua a ser importante para renomear e transformar o mundo”, declara, em entrevista, Francesco Careri, arquitecto, professor na Universidade de Roma Três e fundador do grupo Stalker.

Para o entrevistado, caminhar é uma experiência, uma exploração urbana. Esta ideia que já deu origem a dois livros – Walkscapes. O caminhar como prática estética e Caminhar e Parar – resultou em um projeto, o C.I.R.C.O., acrónimo para Casa Irrenunciável para o Lazer Cívico e a Hospitalidade. O objectivo? “Aproveitar os edifícios abandonados da cidade (de Roma) para uma nova política de habitação temporária, baseada na ideia de hospitalidade, que reunirá pessoas que estejam de passagem na capital italiana”. Afinal, na visão de Francesco, as cidades necessitam cada vez mais dessa energia heterogénea.

As caminhadas são a forma, em sua visão, de conhecer verdadeiramente a cidade que não é apenas um sistema de regras, de planeamento, mas de vida espontânea, de cultura. Essa visão inspira seu programa de curso no mestrado em Arquitectura e Design Urbano. Diferente das habituais aulas em salas fechadas, seu planeamento de curso envolve caminhadas e provas realizadas ao ar livre. Com um olho no objectivo e outro em tudo aquilo que poderia ser considerado “invisível”, a fantasmagoria citadina é extraída da natureza. O espaço urbano tradicional é modificado e todas as suas facetas tornam-se, então, visíveis.

Assim, ao longo das linhas, fica muito claro para o leitor que Francesco Careri conecta a caminhada a um acto simbólico, de apropriação e significação do lugar, da cidade. É, em suas palavras, uma “poesia da terra”. A partir disso, logo se nota um olhar diferente sobre a urbe, um olhar insaciável que defende a troca de experiências e que cada cidadão pode (e deve) intervir no meio. Não seria curioso encontrar harmonia na liberdade humana?