“Nunca me senti tão feliz a dizer ‘vou para o manicómio'”

A luz do sol entra, inclinada, e ilumina as mesas de trabalho do espaço de coworking Now (No Office Work), no Beato, em Lisboa. Numa delas, à esquerda, está Anabela a trabalhar um pedaço de barro. À sua frente, resultado da concentração em que passou as últimas horas, começou a nascer uma escultura feita de cabeças de monstros que parecem lutar entre elas por um espaço para nos desafiarem. Cobras enrolam-se nos monstros e outros seres mais pequenos nascem do barro, como se se libertassem de algo. Tudo junto, parece um grito. E é.

Anabela Soares sofre de uma doença mental vinda de há muito, de uma infância de sofrimento que, mesmo passados 50 anos, não se apaga nunca e a domina, por vezes em forma de raiva, a maior parte em forma de dor que não a abandona. Aproximamo-nos dela para saber como correu este primeiro dia no Manicómio, o projecto criado por Sandro Resende e José Azevedo, a partir de vários anos de trabalho no Hospital Júlio de Matos com pessoas “com experiência de doença mental” — a expressão que preferem utilizar.

O sucesso do que foram desenvolvendo no Júlio de Matos, que passou por várias exposições em que a arte criada pelos artistas com doença mental se cruzou com a de nomes consagrados, nacionais e internacionais (de Pedro Cabrita Reis a Jorge Molder, de Jeff Koons a Emir Kusturica), conduziu-os até este projecto do Manicómio, que acabam de lançar e que deverá ter inauguração oficial antes do final de Fevereiro.

A ideia é tirar os doentes dos pavilhões hospitalares e integrá-los num espaço de coworking com pessoas que fazem as mais variadas coisas, com plantas, uma cafetaria com comida saudável, um cão, revistas, mesas de madeira, uma bonita vista, e os raios de sol que entram. | Texto completo