Mostra de arquitetura em Portugal ataca descaso com a memória ao som de Gil

“No pátio do museu, uma Brasília bege descansa à sombra da escadaria de concreto. O carro da Volkswagen, lançado pouco tempo depois da inauguração da capital modernista desenhada por Oscar Niemeyer, ali materializa um futuro falido, uma visão de progresso agora vintage que tardou a chegar sobre quatro rodas.

Do lado de dentro, é a música que inunda o espaço. Um alto-falante solitário toca em looping a canção que Gilberto Gil escreveu quando se separou da terceira mulher. “Drão”, um lamento pelo fim de um amor chamado nesses versos de “imenso monolito”, é a espinha dorsal sonora de uma das maiores mostras de arquitetura brasileira já montadas.

É uma celebração de fundo quase trágico, o retrato de um “país cindido”, nas palavras do crítico Guilherme Wisnik, um dos organizadores do evento, traçado a partir de suas construções mais emblemáticas.

Lá estão imagens, desenhos e plantas das joias modernistas de Niemeyer, da Pampulha a Brasília, o MuBE de Paulo Mendes da Rocha, o Masp de Lina Bo Bardi, a FAU de Vilanova Artigas e quase uma centena de outros projetos que marcaram a forma que se pensou o espaço no Brasil.

São 3.000 itens vindos de 200 coleções distintas que acabam de ser doados por autores brasileiros e por herdeiros à Casa da Arquitectura, museu que ocupa uma antiga vinícola em Matosinhos, nos arredores do Porto, que agora passa a guardar um dos maiores arquivos históricos da arquitetura brasileira reunidos no mundo, rivalizando em peso e importância com coleções em São Paulo e no Rio de Janeiro”.  | Texto completo