Um passeio pelo Mercado-Praça | Espaço de sociabilidades

Quantos são os lugares públicos numa cidade que podemos interrogar acerca do papel desempenhado na interação e no vínculo social? Infinitos, certamente. O micro-ensaio que se desenrola a seguir propõe, num exercício reflexivo a partir de imagens recolhidas e do trabalho de campo desenvolvido ao longo dos últimos meses, pensar o Mercado Municipal de Braga – conhecido pelos locais sob a designação “Praça” – como um ponto de cruzamento, de encontros, de atualidade e de memória.

 

O Mercado-Praça

Afinal, o que é uma praça? E, por quê um mercado-praça?

Se formos pensar sobre as praças, observamos que estas podem ser compreendidas como espaços em que se desenrolam as mais diferentes sociabilidades e afetividades, representando, em muitos os casos, um local de encontros (Lynch, 1999), em que vemos e somos vistos. Contudo, a praça pode ser abordada também como um espaço de comércio e circulação (Lamas, 1993), pleno de formas simbólicas.

O território da praça, assim como uma definição precisa do que ela verdadeiramente significa, é subtil: mostra-se, mas não nos cerca, nem se impõe. Autores como Crespo (s/d.) pensam na praça como uma espécie de lugar de ação, reação e interação na paisagem da urbe. A praça é, deste ponto de vista, essencialmente o lugar onde a humanidade, enquanto comunidade, se realiza. E a humanidade se realiza de diferentes e múltiplas formas: entre palavras, olhares, negociações, confusões, afetos e dissabores…

É nas praças que acontecem os encontros do quotidiano em alguns grandes centros urbanos e que há espaço para o simples ato de “estar”, seja sozinho ou em companhia. Autores como Pereira (2008) sustentam que as praças são espaços patrimoniais ricos em história, cultura, tradição e saber sobre a cidade como local de identidade.

Por mencionar a história, a relação entre a milenar Bracara Augusta e a atividade comercial desenvolvida em praças é intrínseca, de laços estreitos e que remontam à Antiguidade. Como bem salienta Bandeira (2020, p. 6), “tempos houve em que Braga toda ela era praticamente um único mercado”. De caráter descentralizado e irregular, a atividade comercial de feira e comércio foi sendo organizada e centralizada entre os finais do século XVIII e século XIX, até resultar no Mercado de Ferro na Praça do Município e depois o Mercado-Praça, já na localização atual.

Para perceber melhor o contexto do qual partiu a referência de/a Praça, algumas fontes visuais da cidade de Braga foram consultadas no Museu Nogueira da Silva (MNS/Braga). As imagens explicitam essa relação intrínseca entre praça e comércio, bem como praça e encontros.

 

 

Figura 1: Praça do Município (Século XX)
Créditos: Acervo Manuel Carneiro | Museu Nogueira da Silva, Braga

 

Figura 2: Campo da Vinha em dia de feira (Século XX)
Créditos: Acervo Manuel Carneiro | Museu Nogueira da Silva, Braga

 

Figura 3: Praça do Município (Século XX)
Créditos: Acervo Manuel Carneiro | Museu Nogueira da Silva, Braga

 

Figura 4: Campo da Vinha em dia de feira da lenha (Século XX)
Créditos: Acervo Manuel Carneiro | Museu Nogueira da Silva, Braga

 

Figura 5: Mercado Municipal na Praça do Município (1915)
Créditos: Museu da Imagem | https://cutt.ly/fndajIg

 

Figura 6: Mercado Municipal na atual localização (Século XX)
Créditos: Acervo Arcelino Augusto de Azevedo | Museu Nogueira da Silva, Braga

 

A Praça | Espaço de sociabilidades

Pelo regresso do rei, as regateiras da praça prometiam as arrecadas a Nossa Senhora da Torre (…). (Ondina, 1998, p. 95)

Para os clientes mais fiéis e antigos, o Mercado Municipal sempre foi a Praça. Ia-se à Praça para fazer as compras e também para trocar “dois dedos de conversa” com os conhecidos ou com as(os) vendedoras(es).

Se prosseguirmos com a compreensão da Praça como um local-chave de sociabilidade, podemos refletir sobre as formas que essa interação assume e as diferentes pessoas envolvidas que participam nesse espetáculo da vida comum diária.

Vale ressaltar que é por meio da comunicação, ou seja, de trocas simbólicas comuns, que se efetua a concretização da vida social (Carey, 1989/2009). Independente de quais forem os detalhes da produção e/ou reprodução dessa vida individual e/ou coletiva, somos, enquanto humanos, criados, mantidos e transformados culturalmente através da comunicação, de estruturas sociais e de relações intercaladas de símbolos.

A interação social pode variar de uma conexão mínima, como uma saudação entre conhecidos, a conversas estendidas entre aqueles que se encontram no mercado, ou até mesmo interações entre comerciantes e clientes. Como explicam Watson e Studdert (2006, p. 14), “esse envolvimento pode levar à formação de laços sociais fracos, mas os mercados também podem servir como locais de laços sociais mais fortes, onde amigos e famílias negociam juntos e formam uma comunidade específica, ou onde comerciantes e compradores regulares passam a se conhecer com o tempo” (grifos meus).

 

Figura 7: Mercado Municipal de Braga (2018)
Créditos: Acervo pessoal da autora

 

Figura 8: Mercado Municipal de Braga (2018)
Créditos: Acervo pessoal da autora

 

Figura 9: Mercado Municipal de Braga (2021)
Créditos: Passeio

 

As conversas e a mistura social entre diferentes faixas etárias, grupos socioeconómicos, demográficos e étnicos/raciais é uma constante. O que os une é a alimentação e o ato de compra/venda. Nesse sentido, e se quisermos levar essa proposta a fundo, podemos pensar em algumas categorias de observação, por exemplo: i) a vida social das(os) vendedores, ii) os relacionamentos entre clientes e vendedoras(es), iii) a Praça como um espaço social para diferentes grupos de clientes e, por fim, iv) as relações sociais tecidas na Praça, com direito às amizades, mas também aos conflitos e tensões.

Outro ponto válido a ressaltar é que se pensarmos a função de inclusão social – dos idosos, das minorias e daqueles fragilizados economicamente – desempenhada nos espaços públicos e, claro, na Praça, como uma forma de interação/vínculo social e copresença, o papel de sociabilidade defendido aqui assume um significado maior. Apesar de ser uma tarefa difícil, dada a infinidade de estímulos olfativos e visuais que fazem com que todos fiquem com ideias e desejos gastronómicos, é completamente viável entrar, estar e não adquirir nenhum único produto (apesar de que os vendedores os conhecerão por essa característica).

Um dos exemplos da dimensão relacional e interacional presente no quotidiano da Praça pode ser percebido a partir do excerto da nota de terreno[1] do dia 8 de maio de 2021:

As lavradeiras próximas aos animais vivos estavam interagindo entre si e com outros clientes. Algumas pessoas filmando/fotografando na parte de cima em frente as lojas. O movimento era, afinal, grande. (…) Fui ver se conseguia sentar no muro para beber um café e olhar a praça de cima. (…) Havia um mini-espaço que estava a ser sempre ocupado por fotógrafos amadores num vem e vai. Reparei na questão relacional. Clientes aos pares. Conversas em roda espalhadas por diversos locais.

Num permanente movimento de expansão e contração, a depender do dia e horas em que visitamos a Praça, caminhamos para uma finalização da ideia aqui apresentada.

Um corpo-lugar sozinho não faz sentido, se pensarmos no sentido da comunicação vista como comunhão ou troca. É a sociabilidade construída num emaranhado de teias pelas mais diferentes pessoas que por ali caminham e passeiam, que nos deparamos com um processo interessante: o de transformação quotidiana de um espaço urbano em lugar-comum. Assim, a Praça pode ser vista como um espaço de comunidade, de sentir, de contestação da vida, de produção e afirmação de cultura.

 

Thatiana Veronez

Julho/2021

Agradecimentos:

As imagens presentes nesse micro-ensaio do Acervo Arcelino Augusto de Azevedo e do Acervo Manuel Carneiro foram gentilmente cedidas pelo Museu Nogueira da Silva para fins de investigação da Passeio. Agradeço a simpatia e apresentação dos acervos realizada pela Dra. Maria Helena Trindade.

 

Referências:

Bandeira, M. S. M. (2020). Mercados Municipais de Braga: passado/presente. Braga: Câmara Municipal de Braga.

Carey, J. W. (1989/2009). Communication as culture: essays on media and society. Nova Iorque: Routledge.

Crespo, N. (s/d.). A praça como panorama. Estudo Prévio. https://www.estudoprevio.net/nuno-crespo-a-praca-como-panorama/

Lamas, J. (1993). Morfologia urbana e desenho da cidade. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

Lynch, K. (1999). A boa forma da cidade. Lisboa: Edições 70.

Ondina, M. (1998). Vidas vencidas. Lisboa: Editorial Caminho.

Pereira, M. M. (2008). Praças públicas sustentáveis: caso de renovação das praças. Dissertação de mestrado em Arquitetura, Universidade de Lisboa, Portugal. Retirado de https://fenix.tecnico.ulisboa.pt/cursos/ma/dissertacao/2353642204828

Watson, S. & Studdert, D. (2006). Markets as sites for social interaction. Bristol: The Policy Press.

 

[1] A Passeio, no âmbito do subprojecto COMPRAÇA, tem levado a cabo o desenvolvimento de um trabalho de campo no Mercado Municipal de Braga, desde janeiro de 2021, que implica idas regulares à unidade de estudo e posterior registo do observado em notas de terreno. Uma leitura sugerida sobre o trabalho etnográfico e a escrita etnográfica encontra-se disponível em Fernandes, L. (2002). Um diário de campo nos territórios psicotrópicos: as facetas da escrita etnográfica. In T. Caria (Ed.), Experiência etnográfica em Ciências Sociais (pp. 23-40). Coimbra: Edições Afrontamento.

LOCALIZAÇÃO

LOCAL: Braga

LATITUDE: 41.5542808

LONGITUDE: -8.4275673