Um olhar que se tornou introspectivo na freguesia de Gualtar

Há menos de um mês, a rotina de Gualtar mudou. O medo e tensão, espalhados pelo avanço do novo Coronavírus pelo mundo, transformaram a rotina de vida das pessoas. Com o encerramento do edifício que dá lugar ao Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho, noticiado pela rede televisiva no dia 07 de março, a população viu o isolamento social cada vez mais próximo e isto tornou-se cada vez mais percetível. Em uma segunda-feira, dia em que normalmente as atividades escolares são retomadas após os finais de semana, o campus de Gualtar encontrava-se vazio.

“Na Praceta Amândio Ferreira Pinto, o silêncio. O vento frio e o sol anunciavam que a Primavera estava próxima, as folhas e flores estavam nascendo novamente. Os cafés ao redor da praceta estavam abertos, porém funcionavam com movimento reduzido. O olhar das pessoas que tentavam seguir com suas rotinas denunciava o medo, mas o sorriso de uma atendente do Café Snack-Bar Três Corações mostrava tranquilidade. Ouve-se o sino da Paróquia de São Miguel e os gritos das crianças que ainda brincam nos pátios das escolas da região”. Enquanto os noticiários já discutiam a paralisação das escolas, as crianças continuavam brincando e, mesmo que inconscientemente, tentavam manter uma rotina de vida saudável em espaços coletivos. “Andando pela N103, estrada que dá acesso à Universidade do Minho, viam-se poucas pessoas. O movimento de estudantes, investigadores e professores indo e vindo para a Universidade reduziu e quase já não há pessoas ocupando os espaços públicos. O que acontecerá com estes espaços? E com as pessoas? A resposta me parece incerta” (excertos de diário de campo, 10 de março de 2020).

Na escadaria que dá acesso à Universidade do Minho, localizada ao lado das paradas de autocarros Gualtar I e II, só se via a imprensa. Um cinegrafista estava fazendo imagens de uma instituição de ensino vazia, paralisada pela ameaça de uma pandemia que ainda não era confirmada. “Eram 11:00 horas e alguns ônibus passavam vazios. Ao entrar em um deles, o vazio se tornou mais nítido. Ao invés de pagar pela viagem em dinheiro, optei pelo cartão. Já havia lido recomendações dizendo que, neste momento, o contato com dinheiro deveria ser reduzido pelo risco de contágio. Passamos por três pontos, e o autocarro continuava vazio. As janelas, estavam abertas. Vi que algumas pessoas começaram a entrar no autocarro. Uma senhora estava carregando uma flor, símbolo de vida, mas nos olhos a expressão era de incerteza. O caminho percorrido até o edifício de Administração Regional de Saúde do Norte, situado no Largo Paulo Osório, foi marcado pelo silêncio. Poucas pessoas se falaram e, dentro do edifício, uma quantidade reduzida de senhas eram distribuídas pelo segurança, que explicava a necessidade de evitarmos aglomeração no local. O atendimento era demorado. Algumas pessoas aguardavam na parte interna do edifício, enquanto outras preferiam ficar do lado de fora, afastadas, tomando sol na rua em um dia frio. De volta à parte interna, pessoas utilizando o álcool em gel disponibilizado pela instituição constantemente, portas abertas e o som de tosses. Era possível escutar pessoas se queixando, falando do medo de não conseguirem atendimento no local, pois não queriam voltar em outra data para regularizar seus números de utentes. Angolanos, brasileiros e portugueses. As variações da língua portuguesa quebravam o silêncio no local. O espaço público dedicado a saúde pública continuava ocupado de acordo com sua funcionalidade, de forma heterogênea, mesmo que em escala reduzida” (excerto de diário de campo, 10 de março de 2020).

A Organização Mundial de Saúde (OMS) declara pandemia face ao novo Coronavírus e a mudança de classificação obriga países a tomar atitudes preventivas para combater a Covid-19. Ainda é cedo para saber os efeitos disto em todo o planeta, restaurantes e cafés se mantiveram abertos. A Tasquinha Bracarense, ponto de encontro para muitos estudantes, investigadores e professores da Universidade do Minho almoçarem, estava vazia às 12:00 horas. Este espaço, que sempre esteve cheio neste horário, estava muito vazio. A sensação era estranha. Apenas cinco clientes. A famosa “Rua dos Bares”, frequentada por estudantes da UMinho, também estava vazia. Apenas uma mesa do lado de fora, ocupada por duas pessoas que estavam conversando. “Como este cenário universitário ficaria a partir de então? E as transformações propiciadas pela ocupação efêmera destes sítios urbanos, anteriormente tão heterogêneos? Estas questões marcam o começo de uma quarentena e o início de novas formas de transitar e ocupar” (excerto de diário de campo, 11 de março de 2020).

As práticas sociais e culturais das sociedades contemporâneas mudaram e os humanos tentam se adaptar ao isolamento social. A comunidade acadêmica, a freguesia de Gualtar, o concelho de Braga e Portugal viram a necessidade de reclusão e adaptação. Com as escolas fechadas, o movimento de crianças e jovens pelas ruas de Gualtar reduziu. As pessoas procuram fazer seus exercícios físicos nas varandas e nos terraços. “Na Praceta, durante alguns dias, houve Aplauso Sanitário. Algumas pessoas saíram nas janelas e varandas às 22:00 horas durante três dias consecutivos para aplaudir os profissionais da área de saúde que trabalhavam incansavelmente para salvar vidas. Após três dias, o silêncio voltou a reinar na freguesia” (excerto de diário de campo, 15 de março de 2020). Algumas pessoas passeiam pelas ruas sozinhas com seus cachorros, outras ainda tentam manter a mesma rotina, como alguns idosos que se encontram em esquinas e na porta de comércios que ainda se mantém abertos. “Bandeiras de Portugal estão sendo penduradas nas janelas e varandas, assim como desenhos de crianças. Vemos desenhos de arco-íris e mensagens dizendo que tudo ficará bem. As crianças pedem fé e esperança, enquanto a Primavera traz o sol e expõe uma natureza cada vez mais bela” (excerto de diário de campo, 31 de março de 2020).

Ao propor o conceito de “heterotopias urbanas”, Michel Foucault (2001) explanou sobre a concepção de História, estagnada no decorrer dos séculos, e da necessidade de pensar em fenômenos de ruptura, principalmente voltados para o “tempo e espaço”. Pensar nestes fenômenos é uma forma de reconhecer, no interior da história, tipos de durações diferentes, reforçadas pela heterogeneidade. Se estas durações, permitem que os indivíduos possam ocupar espaços e tempos diferentes, de maneiras diversas, podemos falar de “durações múltiplas”. O isolamento social fez com que espaços públicos se tornassem vazios, mas ressignificou o espaço doméstico. A pandemia do Coronavírus mostrou que as transformações dos “espaços e tempos” não param. A casa agora também é escritório, sala de aula, espaço de culto religioso e ginásio. “Aos finais de semana, o silêncio dá lugar para a música. Algumas risadas, conversas e sorrisos podem ser escutados na Praceta Amândio Ferreira Pinto. E, mesmo que a pandemia continue crescendo e deixando milhares de pessoas doentes pelo mundo, a esperança cresce e se torna perceptível na freguesia de Gualtar, assim como a Primavera, estação que anuncia uma época de vida e transformação” (excerto de diário de campo, 01 de abril de 2020).

As “durações múltiplas” se entrelaçam e geram transformações cada vez mais nítidas. A ocupação dos espaços, anteriormente definidos pela localização geográfica, principalmente de sítios que permaneceram estáveis ao longo do tempo, como praças, igrejas e outras instituições, deu lugar a formas de ocupação mutantes, espalhadas em diversos lugares (casas), utilizados múltiplas maneiras (Martins, 2002). O posicionamento do espaço, anteriormente definido pela localização, agora é “definido pelas relações de vizinhança, entre pontos ou elementos”, e o seu conceito se torna cada vez mais abrangente do que a concepção demográfica pode propor (Foucault, 2001, p. 412). O conceito de espaço é mais abrangente que a concepção demográfica pode propor. “Estamos em uma época em que o espaço se oferece a nós sob a forma de relações de posicionamento” (Foucault, 2001, p. 413). A preocupação em retratar sítios vazios da freguesia de Gualtar deu lugar à inquietação de observar as transformações vivenciadas pelas sociedades neste momento de isolamento social e combate à Covid-19, que mostram como o espaço doméstico está cada vez mais heterogêneo, carregado de motivações, desejos e percepções que estão diretamente relacionadas às nossas subjetividades.

 

Referências:  

Foucault, M. (2001). Outros espaços. Ditos e Escritos III. Rio de Janeiro, Forense Universitária.

Martins, C. J. (2002). Utopias e heterotopias na obra de Michel Foucault: pensar diferentemente o tempo, o espaço e a história. Imagens de Foucault & Deleuze: ressonâncias nietzschianas. Rio de Janeiro: DP&A, 84-98.

 

Por Alessandra Nardini

Braga, 06 de abril de 2020

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