Transformações e continuidades em tempos de Covid-19

Da janela do meu quarto (e atual ambiente de trabalho), vejo as mudanças climáticas da Primavera. Tempos transformadores e enigmáticos. O significado desta estação que simboliza a alegria, se transforma em uma sensação real, com a ajuda do sol e da natureza. “Nas casas vizinhas vejo pessoas tomando sol no dia-a-dia. As crianças brincam por alguns momentos e continuam colocando seus desenhos de arco-íris nas janelas. Algumas pessoas estão em pátios e terraços para fazer seus exercícios físicos. É possível escutar conversas e risadas durante as noites frias. São tempos de adaptação” (excerto de diário de campo, 13 de abril de 2020).

“Fui interrompida pela minha própria curiosidade. Na Praceta Amândio Ferreira Pinto, alguns vizinhos saíram de suas casas com instrumentos musicais e, respeitando o distanciamento de 2 metros de proteção, cantaram “Parabéns”. Um dos moradores está comemorando mais um ano de vida. O isolamento social não impediu que encontrassem uma forma de felicitá-lo”. Enquanto eu “invento”, tentando escrever sobre um mundo já existente, estas pessoas que também vivem na Praceta Amândio Ferreira Pinto, buscam formas de darem continuidade às suas vidas e aos seus vínculos de sociabilidade (excerto de diário de campo, 15 de abril de 2020).

O que desperta minha curiosidade neste momento é que vemos a mobilização tecnológica capturar ainda mais a nossa existência. A complexidade inerente do ser humano está tomando outras formas, como deve ser de fato. As pessoas estão mais presentes no meio virtual e tentam retratar seus cotidianos em isolamento social. Nas redes digitais, inúmeros pedidos de “fiquem em casa”. Os média, preocupados em noticiar constantemente o avanço da pandemia da Covid-19, tentam levar à população entretenimento. Festivais e apresentações musicais são anunciados constantemente, como foi o caso do Varandas, que aconteceu em Portugal no dia 29 de março, e as lives do YouTube que estão acontecendo no Brasil. Na Itália, vídeos de apresentações musicais com a canção Bella Ciao, símbolo da Resistência Italiana contra o fascismo na 2ª Guerra Mundial, são postados constantemente. Em meio às transformações vivenciadas no cotidiano das sociedades contemporâneas, nos deparamos com modificações contínuas, como explicou Perniola (2005).

A Itália e o isolamento social na pós-modernidade me lembram Gianni Vattimo e suas reflexões acerca de uma possível “sociedade transparente” na pós-modernidade. Vivemos em uma sociedade de comunicação generalizada, mas temos espaços para expor nossas opiniões e mostrar como estamos lidando com as mudanças da contemporaneidade. A pandemia da Covid-19 trouxe uma certa nitidez em relação aos outros espaços que temos para ocupar. Vejo vídeos postados em redes sociais com exercícios físicos e fotos postadas por pessoas que estão lendo seus livros favoritos nas varandas de suas casas. Páginas no Instagram, como a Visit Portugal e até mesmo a do Município de Braga, começaram a postar fotos de outras pessoas, reforçando o pedido: “fica em casa”. A hashtag subsequente sempre acende a luz da esperança: “vai ficar tudo bem”. Hoje, dia 15 de abril, o artista Banksy fez uma postagem no Instagram. Uma casa de banho, ocupada por ratos que marcavam nas paredes seus dias de quarentena. O artista anônimo, conhecido mundialmente por seus trabalhos nas ruas, também está em casa, em um processo adaptativo de trabalho. São outros espaços e outras formas de ocupação, sem deixar de lado a essencialidade de cada ser?

 

Referências

Maffesoli, M. (1997). A transfiguração do político a tribalização do mundo. Porto Alegre: Sulina.

Perniola, M. (2005). Sex appeal do inorgânico. São Paulo: Studio Nobel.

Vattimo, G. (1992). A sociedade transparente. Lisboa: Relógio D’Água.

 

Por Alessandra Nardini

Braga, 17 de abril de 2020

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