Subúrbio na cidade

Viver é muito perigoso

(Rosa, 1956)

 

Se o corpo é a nossa primeira morada, o lar que me povoou foi a minha avó. Fresca era a casa da infância. De lençóis limpos e cheiro a sabão. Chorei a demolição das paredes velhas, de gente pobre, sem significado arquitetónico, estético ou artístico. Chorei o fim da casa plantada num subúrbio com ar de aldeia.

Mais à noite, quando os sons se ampliam, os passos ressoavam na gravilha, o caminho tateava-se no escuro, guiados pelo farol da casa, a certeza de uma luz no postigo. A porta leve batia como um pêndulo e isso confortava-me o sono, assim como o cocurru das rolas no calor da sesta. Dentro da casa, suspiros que se fazem pela tarde, para beber com o chá. Perfeitas eram as chávenas de plástico, com que brincávamos aos bolos feitos da terra do quintal, no chão de terra batida da loja. Na sua continuidade, a largueza do campo. Havia um rego de água, que caminhava pelo doce da glicínia, contornava o esterco da capoeira e ia dar às ervas fofas, como que a luz imaginada para lá do horizonte, onde todas as aventuras eram possíveis.

Fora dela, uma camioneta empoeirada, a caminho da cidade. Primeiro as portadas que roçavam a velha camioneta, como que passavam por nós, acenando. Depois a mistura suja do que chamam a urbe. Que susto! Um cacarejar fedorento de penas, tripas enfarinhadas a fumegar ao redor dos pregões, chão gordurento e uma pressa que matizava cores no ar saturado. Apresentava-se a dança da cidade, que era também uma caixa de pastéis açucarados. Às vezes, o Porto dava-me uma mão sem intimidade, percorrendo o oco do desconhecido. Uma casa-gruta, de gente velha, cheirando a humidade sem janelas.

No ar leve de uma tarde de Inverno, vi as luzes da cidade trémula, diluindo-se nas vidraças de chuva. Ao longe, o rumor silencioso de um corpo que ora nos abriga, ora nos cospe, enigmático e sugestivo. Lá em baixo, as árvores enchem-se de pássaros que esvoaçam excrementos a quem passa. E isso é a cidade a zombar de nós, solta, ácida e brincalhona. Com um quê de pitoresco. Como o elétrico de degrauzinhos, guinchando atenção. Pede que o habitemos e aí vamos rodopiando no frio da noite, aconchegados num movimento de carrocel, que nos apresenta, enfim, uma cidade jocosa. Respiramos o ar noturno e quase acreditamos que o perigo não existe. Mas no interior do prédio de incontáveis janelas, até o perfume sofisticado dos que habitam o espaço inibe e retrai. Porque há botõezinhos que apontam uma morada, não um postigo que caqueia no silêncio da noite. E dentro de uma das incontáveis janelas, os sons são abafados por alcatifas com aquele mesmo cheiro da sofisticação. No centro da mesa, há um bolo com fios de ovos, que eu vejo pela primeira vez e não tenho coragem de tocar. Dezenas de lilliputianos citadinos arrebanham os fios de ovos, com o à vontade de quem vê muito e não se assusta com nada. Afundo-me num sofá macio, com o mesmo aroma do vão da escada, que me confirma que a cidade é tão violenta, quanto violentos são os primeiros segundos fora do útero materno.

Tardes de domingo mornas, recendendo ao couro dos casacos novos. A lassidão da rua provoca uma náusea que se detesta e saboreia, como coisa que é preciso gostar. Talvez que salsichas mirradas se virem pela milésima vez sobre si próprias, enquanto, no caldeirão ao lado, o ranço de bifanas borbulhe sem complexos. No jardim, os namorados beijam-se “de boca”, oh! Ali mesmo ao lado da igreja encerada. A missa é tão cidade como a cidade se me apresenta. Entre o cinza granítico, sem expressão, uma indiferença que agride. Os olhos do padre não se veem, mas eles veem-nos a nós, mesmo se nos camuflamos num canto escondido. Não há compasso de espera, nem ritual. “Uma fervurinha”.

Mais ao longe, uma avenida reta, de prédios com arestas, por onde se circula no remanso do crepúsculo. Gosto de imaginar que a viagem não tem fim, entre perpendiculares que rasgam verticais, curvas que se abrem em árvores e candeeiros que incendeiam o lusco fusco. Ah! A cidade que descansa, sem enigmas, nem revelações. Apenas é. Inspira e expira, sem pressa, já sem a preocupação de querer parecer. Olhos semicerrados, refeita de um dia cheio. Apenas o piscar das luzes, a mansidão do rol que cai sobre o carro e a ilusão de que toda a vida poderia ser um deambular ao calhas, sem esperar nada, mas querendo tudo. A praça que se encheu de famílias sossega já. Nestas tardes, sim. Havia um sabor bom de mulheres sem vigilância. Ao redor da praça, tomava-se um café, inundados pelo cheiro dos jornais e revistas que nos olhavam com um ar novo e promissor de urbanidade. Assim como quando regressávamos do dentista compensados pelo cimbalino com leite junto ao bolo de arroz, depois de um livro comprado na cidade.

Então, os domingos de futebol (sem relato) eram uma alegria de criançada a correr pela Praça Velasquez, em brincadeiras só interrompidas pelo bruáá do estádio. A mulherada juntava-se a tagarelar e foi aqui que ouvi a expressão “beijo de boca” (que escândalo!). Esta era a cidade coquette, de ruas limpas e casas que apetecia invadir. Sem ser visto. Que vidas se desenrolariam nestas casas de jardinzinhos redondos? Imagino um cheiro a pão acabado de comprar e uma marmelada caseira, de um laranja translúcido. A ordem aqui existente seria aconchegante, uma ordem vinda de um lugar que se conhece sem precisar de onde. Apetece ficar, neste cheiro de comida nova, que queremos experimentar.

Os fragmentos de memória enunciados, são deliberadamente evocativos. Acreditamos, como Bachelard, que “os valores de abrigo são tão simples, tão profundamente enraizados no inconsciente, que os encontramos mais facilmente por uma simples evocação do que por uma descrição minuciosa” (Bachelard & Danesi, 1996, p. 22). O espaço da infância é um lugar abrigo de indefinidos perigos. Entre o medo do desconhecido e a atração pelo novo, o que subsiste são os significados surgidos da interação entre o eu, a cidade e os muitos personagens que a povoam, ela incluída, com seus prédios, suas ruas, suas árvores, seus tremores. Fixamos estas memórias com delicadeza, como quem prende uma borboleta esvoaçante, tentando reter a sua forma, mas sem eliminar o seu fluxo. Este é um território de tensões. Do tempo com o espaço, do contínuo com o objeto. E quando se perdem os objetos, permanecem as experiências traduzidas num espaço de conversação, reverberando pela memória, pelas palavras que se materializam neste ato de escrita, pela partilha comunitária do vivido. Entre o mundo interior da criança e a realidade experienciada, constrói-se a significação (este discurso que exprimo agora e partilho com quem me lê). É possível que outros significados se fabriquem nesta relação, justificando, assim, a visão ritual da comunicação de James Carey (Carey, 2009).

Tentou-se, também, ainda que um tanto inconscientemente, verbalizar o lugar de segurança da casa, em confronto com o espaço de liberdade da cidade, de Tuan (Tuan, 1977). Da ausência de limites da criança, que toma como seu o corpo de outrem, sendo a experiência do espaço condicionada pelo sentimento nutrido pelo adulto. A cidade pode ser tão fria como desatenta é a mão que nos guia pelos seus caminhos. Ou tão calorosa como interessada é a conversa de quem nos apresenta um pacotinho de caramelos no intervalo do cinema, na cidade grande. Para a criança que eu fui, todos os sentidos podem ser hiper-aumentados na leitura da urbe. O cheiro das tripas acabadas de cozer são um furacão nas narinas. Os pregões das mulheres no mercado dirigem-se rispidamente a mim, que tento ser invisível. O movimento é um caleidoscópico de facas, olhos, aventais, sangue. E até os sabores são usurpados aos adultos. Do café com natas, ao cimbalino em copo com asa metálica. Esta cidade que intuímos, entranha-se como ser imortal. É ela que procuramos, nas suas renovadas versões, nas caminhadas ao calhas, levados por um sentido mais emocional do que estético, pedindo à urbe que nos assuste mais, nos acolha mais, nos presenteie com os seus múltiplos sentidos.

 

Janeiro/2021

Teresa Lima

Doutoranda de Ciências da Comunicação (Universidade do Minho)

 

Inspiração ensaística:

Bachelard, G., & Danesi, A. d. P. (1996). A poética do espaço. São Paulo: Martins Fontes.

Carey, J. W. (2009). Communication as culture : essays on media and society. New York: Routledge.

Rosa, J. G. (1956). Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: José Olympio.

Tuan, Y.-f. (1977). Space and place: the perspective of experience. Minneapolis: University of Minnesota Press.

 

Os lugares da minha infância:

Coleção “Os cinco”, de Enid Blyton, que faziam esquecer a cadeira do dentista.

 

LOCALIZAÇÃO

LOCAL: Porto

LATITUDE: 41.1238759

LONGITUDE: -8.611785099999999