Street View of Braga

É em meio às alterações impostas pela modernidade que surge a figura do flâneur (Fig.01), termo que deriva do francês flâner, que em uma rápida tradução indica passeio. Um passeio no sentido de vagar, passar o tempo, deambular. Para o poeta francês Charles-Pierre Baudelaire, o flâneur seria o homem da multidão, aquele que passeia vagamente pelas ruas, tendo como objetivo a observação do mundo a seu redor. A metáfora do flâneur, é retomada por Walter Benjamin em: “Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo” (1973), com intuito de evidenciar as alterações proporcionadas pela modernidade e as possíveis resistências a esta alteração temporal – comportamental, como é o caso do flâneur, que deambulava lentamente pela urbe, ditando seu próprio tempo.

A multidão isolou o homem, e, em seu vagar pela cidade, o flâneur passava quase que despercebido. É esta invisibilidade que, em certa medida, o aproxima do detetive, uma vez que ao deambular pelas ruas, acaba por observar e investigar as pessoas, os costumes e as alterações urbanas. Este combinava casualidade e atenta observação, características estas que também são de fundamental importância ao fotógrafo de rua (street photographer).

Se na modernidade, a invisibilidade adquirida na multidão causava desconforto aos habitantes que se fitavam sem se falar, na contemporaneidade tal comportamento é considerado normal e cada vez mais os corpos que habitam a cidade estão isolados, individualizados. A vigilância, no entanto, torna-se cada vez mais presente através de objetos técnicos como câmeras de vigilância, aparelhos de telemóvel com câmera fotográfica integrada, drones, dentre outros dispositivos, que permitem um outro tipo de contato com a cidade, no qual o vagar torna-se um navegar por entre links no ciberespaço, a inaugurar o que Lemos (2000) chama de “Ciberflânerie”: um passear, não-linear, por espaços relacionais de informação eletrônica. Como o transeunte errante, o “flâneur virtual” passeia pelas avenidas do ciberespaço que o leva a vários lugares, sem ter um caminho específico a seguir. De acordo com Manovitch (2005), as limitações da cidade que vieram a impedir o florescimento da flânerie, não acontecem no ciberespaço, onde não há espaço físico limitador. Ainda segundo o teórico, o ciberflâneur seria um expert em se mover na rede, indo de um objeto a outro, observando, aprendendo e assimilando conhecimento. Para Lemos (2000), o ciberespaço pode ser considerado um local no qual pode-se experienciar novas relações simbióticas entre o espaço da cidade e um novo espaço cibernético, aproximando-se do conceito Baudeleriano de flâneur por conta da relação rizomática e descentralizada com o espaço, onde o ciberflâneur , ao invés de deambular por entre ruas, passeia por um mar de dados que compõe a malha de informações virtuais. Se na modernidade o flâneur se utilizava dos pés e dos olhos, na contemporaneidade são as mãos que guiam o indivíduo em seu deambular pela cartografia do Google Street View.

Desenvolvida em 2007, com objetivo de ser um dispositivo de geolocalização, a nova tecnologia foi implantada nos Estados Unidos e logo se espalhou pelos mais diversos países do globo terrestre. O objetivo primeiro do Google Street View seria o de através da virtualização da cidade, facilitar a locomoção de seus indivíduo que, por coordenadas geográficas, pontos de referência e mapa de imagens fotográficas, podem circular virtualmente pelos locais mapeados. As imagens fotográficas que fazem parte do acervo do Google Street View são registradas através de um dispositivo criado pela própria empresa e, é composto por uma esfera na qual se encontram nove câmeras fotográficas integradas a um GPS que indica as coordenadas geográficas da imagem. O nine-eyes é acoplado a veículos Google como automóveis, motocicletas, bicicletas, moto neve e até mochilas, de modo a mapear até os lugares menos prováveis do planeta. Uma das principais características do dispositivo é a captação aleatória das imagens, que são registradas de forma panorâmica (360 graus) e ao nível da rua, ou seja, do mesmo ângulo de uma pessoa ao caminhar, daí street view.

Apesar de ter sido concebida como uma ferramenta de geolocalização, o Google Street View tem chamado a atenção por outras potencialidades e novos usos da tecnologia como a possibilidade para um outro fazer artístico, tanto que alguns artistas e fotógrafos contemporâneos como: Jon Rafman (Fig.02), Michael Wolf (Fig.03), Emilio Vavarella (Fig.04), Doug Rickard (Fig.05), Mishka Henner (Fig.06), dentre outros, estão a se apropriar de imagens disponíveis no Google Street View na concepção de seus trabalhos.

Tendo como objetivo perceber como os principais sítios de Braga são representados imageticamente pelas fotografias disponíveis no Google Street View e tendo inspiração em artistas que se utilizam desta tecnologia para criar seus trabalhos, procuramos deambular virtualmente pela cidade de Braga, na região norte de Portugal, a buscar um Street View of Braga, imagens do cotidiano das ruas da cidade e dos personagens que lá vivem. Para tal, estivemos a passear por pontos estratégicos como o Palácio do Raio (Fig.07), a Avenida da Liberdade (Fig.08),a Arcada (Fig.09), o Arco da Porta Nova (Fig.10), o Campo das Hortas (Fig.11), os Jardins de Santa Bárbara (Fig.12), a Praça Conselheiro Torres Almeida (Fig.13) , a Universidade do Minho (Fig.14), a Igreja de Bom Jesus do Monte (Fig.15 e Fig.16), a Igreja de Nossa Senhora do Sameiro (Fig.17). As imagens foram escolhidas e apropriadas  através do procedimento Print Screen, disponível no sistema Windows.

Ao retirar a fotografia de seu contexto cartográfico, o fotógrafo faz uma curadoria de imagens do mundo. Ele identifica a cena a ser trabalhada, interpreta o momento registrado, refotografa ou “printa” a imagem exibida na tela de seu computador, segundo seu ponto de vista, e a disponibiliza como objeto artístico de reflexão social.

Por Elaine Trindade

Referências

Baudelaire, C. (1996). Sobre a Modernidade. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra.

Benjamin, W. (1994). Obras Escolhidas III: Charles Baudelaire um lírico no auge do capitalismo. 3ª Ed. São Paulo: Brasiliense.

Dubois, P. (1994). O Ato Fotográfico. Campinas: Papirus.

Flusser, V. (2002). Filosofia da Caixa Preta: ensaios para uma filosofia da fotografia. Rio de Janeiro: Relume Dumará.

Google. Google Street View. (20 de março de 2019). Acesso em: http://maps.google.com.br/intl/pt-BR/help/maps/streetview/

Lemos, A. (2000). Ciberflânerie. In Temas em Contemporaneidade, Imaginário e Teatralidade. São Paulo: Annablume.

Manovich, L. (2005) Espaço Navegável. In Revista de Comunicação e Linguagens. Lisboa: Relógio D’ água.

Singer, B. (2004). Modernidade, Hiperestímulo e o Início do Sensacionalismo Popular. In Cinema e a Invenção da Vida Moderna. São Paulo: Cosac Naify.

LOCALIZAÇÃO

LOCAL: Braga

LATITUDE: 41.54544860000001

LONGITUDE: -8.426507000000015