Um passeio até Limassol

Visitar Limassol é como estendermo-nos num alpendre virado a Oriente, entalados entre uma linha vermelha de separação entre o território turco e as águas do mediterrâneo que acompanham o recorte da ilha do Chipre.

Observa-se em Limassol uma topografia urbana particular, subordinada ao paralelismo com a marginal que nos conduz ao antigo porto, onde se concentram os restaurantes, bares e um pequeno mercado onde podemos encontrar azeitonas de tamanhos e cores variadas, azeite, sal com aspeto de pétalas de flores esmagadas, bem como doces, enterrados um finíssimo pó de açucar. Logo ali, somos presenteados com uma magnífica vista sobre os muitos navios acostados, mas também por algumas pinturas de arte urbana que decoram os barracões de madeira edificados sobre o areal.

Penetrando no centro histórico da cidade, encontramos o Castelo Medieval, construído no século XIII e edificado sobre um antigo castelo bizantino. Observam-se nas proximidades assíduas esplanadas, nas ruas e pequenas praças, repletas de jovens cipriotas, à mistura com alguns, poucos, turistas.  É neste ambiente que somos uma vez mais surpreendidos com vistosas pinturas murais e todo o tipo de intervenções de arte urbana. O festival anual, referido pelos locais como uma prática já há algum tempo instalada, parece justificar uma tal cenografia. Alguns turistas que haviam já feito excursões às localidades montanhosas, com quem nos cruzámos, dizem-nos ter aí encontrado imagens similares, onde menos se esperaria. Não podemos deixar de pensar nas muitas camadas de sentido a que os espaços de Lemesos (o outro nome para Limassol) se abrem.

A par destas imagens, vemos no território percorrido índices claros de uma profunda escassez de recursos, assim como visíveis feridas sociais, expressas em alguns dos testemunhos que registámos: “Fui lá, a Keryneia [situada, em “A Visitor’s Map of Cyprus”, na “zona ocupada pela Turquia em 1974”], estes dias e vi a minha casa. Lá estava. Veio à porta um indivíduo, acompanhado de uns miúdos que deviam ser os seus filhos. Fiquei com vontade de lhe dizer que eu tinha nascido ali. Que aquela era a minha casa. Mas a minha vontade de ali voltar morreu ali mesmo, de repente”; “Estes dias vieram dizer-me que o meu pai tinha morrido. Fui chamado para lhe fazer o enterro. Apanhei um grande choque, pois quando ficou para trás eu tinha ficado convencido de que ele tinha morrido. Não estava à espera daquela notícia, passados tantos anos”.

Olhar as imagens que nos perseguem pelas ruas de Limassol é interrogarmo-nos sobre a sua possibilidade (ou impossibilidade?) de produção de sentido. Entre o passeio onde assentam os nossos pés e aquelas imagens parece instalado um espaço vazio. Ficamos sem saber como transpô-lo.

Helena Pires, 01/2018

LOCALIZAÇÃO

LOCAL: Limassol

LATITUDE: 34.7071301

LONGITUDE: 33.022617399999945