Insensível aos olhos: em busca de outras representações do São João de Braga

A festa de São João é considerada a principal celebração popular do concelho de Braga. Ao longo de duas semanas as comemorações transformam o cotidiano da Cidade, promovendo romarias, celebrações religiosas, atividades de rua, comércio popular, concertos e apresentações folclóricas. O ponto alto do festejo ocorre na noite do dia 23 para 24 de junho.

Tomando emprestada a noção de cultura visual como uma forma de criar, organizar, distribuir e cristalizar textos visuais – constituídos a partir do direcionamento do olhar, entre “visibilidades” e “invisibilidades”, começamos por nos questionar o que se quer visível em uma festa.

O pesquisador Ricardo Campos utiliza a metáfora da cidade como um corpo – estetizado, performático, comunicacional – comparando as festas e grandes eventos com estratégias, ou “operações plásticas” da urbe, para tornar-se uma figura agradável. A festa é expressão desse corpo vestido, maquilhado, transformado para comunicar aquilo que deseja. As representações oficiais são, desta forma, uma tentativa de consolidar um discurso, uma imagem, de direcionar o olhar sobre a festa.

Pelo programa oficial, podemos identificar pelo menos três elementos centrais dessa visualidade: o espetáculo (os concertos, a dimensão profana, os espaços para diversão, confraternização…), a tradição (os cortejos e apresentações de grupos tradicionais, ou do folclore, o pitoresco…) e a religiosidade (o sagrado, com suas procissões, missas e até mesmo a iconografia do São João Menino).

Buscar outras perspectivas implica construir novos sentidos – criar, distribuir e cristalizar outros textos. É também fomentar outras memórias possíveis. A partir de um total de quase quinhentas fotografias, identificámos diversos registos periféricos à centralidade das representações e discursos oficiais associados à festa, os quais procurámos evidenciar: o cotidiano (as rotinas que se sobrepõem à festa), o comércio marginal (os vendedores e produtos que destoam da identidade associada à festa); os trabalhadores da festa (os sujeitos que passam despercebidos nas representações oficiais); os bastidores (aquilo que está por trás do espetáculo).

Dos personagens do percurso, encontrámos figuras que desde a infância frequentam a festa, mas também os estreantes. Por trás da tradicional venda de manjericos, até onde a conversa chegou, está uma vizinhança de mulheres vindas do concelho de Amares, 15 minutos distante de Braga: “As lá de baixo moram perto. São de uma freguesia e eu sou doutra”, localizava-me a vendedora Belmira, sobre as demais, no dia 23, véspera do São João. Os manjericos, explica, começam a ser plantados em abril, logo após a chegada da primavera, e durante os festejos juninos são vendidos também nas homenagens a Santo Antônio (dia 13) e São Pedro (dia 29). Entre as “lá de baixo”, encontro ainda as primas Inês e Cristina Campelo, que confirmam ir e voltar de Amares a Braga todos os dias de junho e a anciã Maria de Lourdes, que lamenta que dos tempos de criança até os atuais as vendas de manjericos estejam em baixa.

No dia 24, na Avenida Liberdade, um vendedor de balões e martelinhos (que não quis ser identificado) confirma: até ali, não vendeu nada. Mas é melhor estar na festa que em casa… Rumo ao Parque São João da Ponte, onde se concentram as tendas especializadas em variados artigos – dos pães artesanais às camisolas e cuecas de marcas multinacionais – encontro um estreante nas vendas de São João, o vendedor de frutas Joaquim Magalhães. É funcionário do dono da tenda, armada em uma esquina, logo após as lojas de produtos africanos. Diz que em junho, desde o início das festividades, trabalha desde manhã cedo até ao último cliente da madrugada. E não lhe faltam clientes para as cerejas, belas e grandes, que exibe em caixas e mais caixas empilhadas à beira da calçada.

Fábio Marques, 01/2018

LOCALIZAÇÃO

LOCAL: Braga

LATITUDE: 41.5472828

LONGITUDE: -8.420633899999984