PERFUME: Ensaio sobre a série fotográfica “Do Sul ao Norte, Santa Vitória do Palmar está em Braga”

A cidade da infância é nota de fundo para o perfume exalado por nós. Naturalmente impregnado do seu cheiro, caminho por suas ruas, paisagens, e no seu cotidiano logo me deparo com o pensamento, parafraseado, de Lefebvre (2011): “a cidade é obra a ser associada mais com a obra de arte do que com o simples produto material”. Em seu ato criador, o lugar da infância é aquele que melhor manipula a fantasia do tempo. Será a cidade da infância a tal máquina do tempo já experimentada na ficção?

No caminhar da infância, há tempo para o equilibrar-se na mureta, apanhar a fruta no pé da macieira, contar os veículos que passam. É nesse desenhar de passos que se revela, perante meus olhos, a casa que vivi entre meus cinco e sete anos. Como em sonhos, vejo reproduzida a cena principal dessa viagem: em frente à casa, um casal de pequenos irmãos (ele seis anos, ela quatro anos), os brinquedos, a cadeira de tecido em listras, a bicicleta no chão, os sorrisos tímidos e puros. Fosse outro (que não eu naquele momento) o portador da câmera  a passar por aquela rua de chão batido, há um quarto de século, teria diante de sua objetiva minha irmã mais jovem e eu.

Há logo aqui, espaço para aviso importante: quando em viagem de retorno pela cidade da infância, os olhos tendem ao brilho humedecido.

O cheiro de terra molhada no meu lugar da infância tem no dia 12 de fevereiro o dia do ano de maior recorrência para o sentir. Fragrância de uma terra no extremo sul do Brasil, com profunda relevância em termos históricos, palco de intensas disputas entre Portugal e Espanha até ao ano de 1777, quando, o Tratado de Santo Ildefonso foi assinado entre as duas Coroas. O acordo bilateral tornou a região conhecida como Campos Neutrais, por ser uma área sem ocupação entre os domínios de ambos.

Essa naturalidade, estampada em meus documentos, surgiu no mesmo ano da famosa carta abolicionista assinada pela Princesa Isabel, mais precisamente a 24 de dezembro de 1888. Nesse século, precedente ao meu primeiro choro, elevara-se a vila ao status de cidade, e assim nascia Santa Vitória do Palmar. A cidade oriunda da demanda do campo é a cidade da pecuária, da cultura do arroz, da Praça General Andréa, dos encontros esportivos e bailes de máscaras do Clube Comercial. Santa Vitória do Palmar localiza-se, com seu traçado quadricular e área de 5.244,18 km2, nos limites do Brasil com o Uruguai. É dos seus 19km de distância do Uruguai que nasce a facilidade para o falar castelhano, o gosto pelo amargo (chimarrão), as conversas e o truco à beira do fogão a lenha, manifestações dos costumes de campanha.

Aos que vêm do país vizinho, apresenta-se na cidade da minha infância o princípio do Brasil e, por natureza do destino, a origem dos meus princípios que brotaram acompanhados pelo soprar do vento minuano, vento frio de origem polar que faz mais severo o inverno no sul do Brasil. Nos dias atuais, para além de acentuar a experiência sensorial do frio, o minuano no seu ventar de característica constante move o maior complexo eólico da América Latina. Ao caminhar da atual viagem, é no girar dessas hélices que percebo uma leve descontinuidade visual ao observar o nascer do sol na paisagem de campo aberto que capturo com o prisma da máquina do tempo.

Nascer na cidade, cuja fronteira se corta com uma passada, era presságio para uma vida que se constrói no caminhar e as descobertas de novas esquinas ao largo do mundo. É nas ruas dessa cidade e ainda no germinar da infância que sigo o meu primeiro cortejo fúnebre em direção ao cemitério. Nos passos acompanhados de lágrimas, a descoberta de que também se morre jovem e, o mais cruel, a fazer o que se ama. Hoje, sabendo que não se optou pelas cinzas, caminho pelo mesmo cemitério e deparo-me com parte fundamental da minha história: jazem nele meus antepassados, com seus nomes estampados em lápides. O silêncio do cemitério sempre encontrará meu respeito.

Avancemos pela cidade, a vida está só no início. Ouço tocar o hino nacional brasileiro e percebo-me diante do Ginásio do Cardeal. Apresenta-se o mesmo da memória espectadora de Brasil x Suécia, pela Copa do Mundo de Futebol de 1994. No seu interior, centenas de pessoas reunidas explodem em comemoração ao golo do baixinho! Alegria, euforia, gritos, abraços! Manifestação da certeza de que apesar da cidade brasileira mais próxima, Rio Grande, estar localizada a 220 km de distância, somos mesmo é brasileiros.

Brasileiros de uma cidade cujo cotidiano urbano ainda se permeia com a simplicidade vinda do campo. Não por casualidade é aqui, nessa chácara localizada na Avenida Getúlio Vargas, nessa antiga casa, que hoje encontro em escombros de uma demolição não completa, que nasci e desengavetei minhas primeiras memórias. Nelas, o carnear do porco para a celebração de aniversário, as vacas presas no galpão, o balde de alumínio para ordenha, em frente a ela, o pinheiro sombra das minhas primeiras brincadeiras com brinquedos confeccionados com o uso de latas de óleo que presas e puxadas por uma cordinha se transformavam em carros potentes. Diante desses escombros que outrora me abrigaram, ainda vivo o carinho dos vizinhos, reforçado por resistir ali o piso que sustentou meus primeiros passos, uns passos que me levaram ao encontro da quina da pia da cozinha que fez nascer a marca na testa que levarei para além do meu último dia.

Passa por essa mesma avenida Getúlio Vargas o caminho que conduz ao porto da cidade, construído no ano de 1938. Sigo as marcas de pegadas no caminho de areia. Elas me guiam até o atracadouro. Ao chegar, observo minha mãe a trabalhar em frente à porta da câmara frigorífica. Os pescadores reunidos ao seu entorno registram os números da pesca diária e recolhem seus recebíveis. À medida que pequenas embarcações aportam, caixas de pescado são empilhadas e armazenadas. Nelas estampa-se a marca “Japesca”, nome da organização de pesca local. Hoje, reencontro esse porto que já fora fonte do nosso sustento familiar em novo ritmo. Não mais movimenta a atividade da comunidade pesqueira e o escoamento de produtos pela Lagoa Mirim, a maior do Brasil com 185 km de extensão. Mas, ao deslocar-me no tempo, percebo que nem tudo é descontinuidade nesse porto, nas suas proximidades é possível encontrar canoas de pescadores nativos que continuam a extrair seu sustento no fluxo dessas águas. O porto desativado tornou-se destino para os apreciadores do pôr-do-sol que se reúnem ao entardecer para o contemplar e matear (o chimarrão).

Foi antes do crepúsculo, na volta ao caminho de areia, que o cusco (cão) me desviou para o som do mar. Esse mar da minha infância é acompanhado por 140 km de costa, imensidão preenchida de paz e harmonia. Por vezes, soma-se ao sonido do mar o canto do quero-quero, o ruído do veículo que cruza a extensa faixa de areia, o barulho do saudoso a afogar sua saudade no mergulho. Esse último faz do frio indiferença. Afinal, somos mergulhões. É curioso que eu, filho desse mar, até ao presente tenha dificuldades em nadar. Acontece que o Oceano Atlântico nesse meridiano não se doma fácil e certa feita privou meus pés do toque da areia. A personalidade forte desse mar que já submergiu o jovem surfista, faz com que a faixa de areia, hoje encontrada extensa, muitas vezes ceda seu lugar para que as águas retirem aquele que procurou fazer morada intrusa ao construir a casa dos sonhos.

Nessa jornada, o céu azul – o mesmo da minha infância – tem ali exposta ao vento a banheira que abrigou asseios em noites de verão e inverno. Na inexistência de energia elétrica, a água vinda da cacimba fazia-se ferver no fogão a lenha, enquanto no banheiro, o chuveiro portátil ou balde a aguardavam para a mistura quente e fria, que permitia, ali naquela banheira, o banhar-se alegre.

Alegria essa que circunda o CTG (Centro de Tradições Gaúchas) Rodeio dos Palmares, marco da cultura gaúcha e das lembranças do meu primeiro sonho: ser ginete. Treinava horas e horas em cima do cavalo que a libertadíssima imaginação da infância projetava em qualquer objeto encontrado. É também aqui, nesse CTG, agora com portas cerradas a permitir somente a entrada das minhas memórias, que se celebrou com um belo e tradicional churrasco gaúcho o aniversário de 80 anos do meu avô. Ocasião em que, na distância da cidade da infância, criei com ele a dívida da ausência. No furor da juventude, não me atentará que a vida se faz no presente e que ele reunira a todos para bailar o último encontro.  É envolto no olor marcante dos eucaliptos desse centro de tradições gaúchas que, ao cerrar os olhos, silenciosamente expresso meu pedido de perdão e lhe conto da saudade sentida.

No nostálgico campo da infância, a comunicação para mim prescindia do uso da palavra oral. Nutri puramente o desejo de me comunicar com cavalos. O canal era o olhar. Frequentemente, sem consentimento adulto, os avistei na pastagem e coloquei meus passos miúdos ao encontro. Muitas tentativas falharam, por chegar antes o som do caminhar no pasto seco ou ser levado pelo vento o sinal da minha presença. Mas, na crença infantil, nasceram os encontros em que pude ver-me refletido em olhos equinos.

Se hoje, com meu corpo a 9.521 km de distância posso, num piscar de olhos, voltar à cidade da minha infância, é porque desde que em Braga aportei, sua nota de fundo tem-se feito identificar com maior intensidade. Recomeço, sinto-me criança de novo. Aflora, aqui em Braga, na semelhança do clima que traz o amanhecer com geada e neblina, no cotidiano tranquilo que freia os impactos tristíssimos da peste contemporânea e faz o caminhar mais natural, no aroma da lenha a queimar, na natureza próxima que permite experimentar rio e mar, nos encontros na praça…Há algo mágico a transformar o secular Arco da Porta Nova de Braga em portal para a cidade da minha infância.

Não se perdendo no tempo a cidade da infância, onde se fará sentir seu perfume?

 

Fevereiro, 2021

Christian Baes

 

Referência: Lefebvre, H. (2011). O direito à cidade. São Paulo: Centauro Editora

 

Autor: Christian Baes (1988) é representado em Portugal pela Zet Gallery. Licenciado em Produção Audiovisual pela Unijorge-BA Brasil, fotógrafo e criativo brasileiro, especializado em séries autorais, surge na contemporaneidade com um trabalho que denota uma observação sensível do cotidiano. Nas sua narrativas visuais, percebem-se características de um fotojornalista embrenhado na aura dos espaços que percorre, capturando-os, à semelhança de Atget, com uma ambiguidade cinematográfica, carregadas de silêncios, ação e magnetismo.

LOCALIZAÇÃO

LOCAL: RS

LATITUDE: -33.5215632

LONGITUDE: -53.3664818