Passado/presente: caminhos por um comércio dedicado à arte sacra/religiosa em desassossego

Caminhar expande o tempo em vez de o fazer colapsar.

Kagge (2018, p. 31)

 

Ao longo dos meses de outubro e novembro foi realizado um exercício de observação pelo centro da cidade de Braga. Definiu-se, de acordo com as perspetivas valorizadas pela Passeio, que durante este período o terreno seria uma galeria-passagem (Benjamin, 1982/2009, p. 77). Em contramão a uma tendência de fechamento do ser no espaço privado (intensificada pela pandemia Covid-19), o espaço público seria explorado em liberdade quotidiana (com todos os cuidados), entre caminhadas e (des)orientações citadinas.

[destaco aqui] aquela embriaguez anamnésica, na qual o flâneur vagueia pela cidade, não se nutre apenas daquilo que lhe passa sensorialmente diante dos olhos, mas apodera-se frequentemente do simples saber, de dados inertes, como de algo experienciado e vivido. (Benjamin, 1982/2009, p. 462)

Braga é uma cidade-paisagem sentiente, reconhecida por uma história territorial de intrínseca relação com um poderoso domínio clerical. Miguel Bandeira (1993) ao escrever sobre o espaço urbano bracarense remonta, na análise, à governança da diocese e a toda a sua influência sobre o planeamento urbanístico (e não só):

mais tarde, D. Henrique, fundador do Condado Portucalense, confirma o estigma de poder e influência da Igreja, ao doar o senhorio de Braga ao seu Arcebispo, confirmado mais tarde pelo seu filho D. Afonso. O então denominado Príncipe-Arcebispo, que viria a intitular-se Primaz das Hespanhas (título que ainda hoje conserva), veio a matizar a posterior evolução da urbe, condicionando inclusive a fixação de nobres e das ordens religiosas, numa determinação que durou até ao séc. XVI e que crivou a história de Braga (…) A personalidade mais marcante de todo o urbanismo braguês foi, sem dúvida, o Arcebispo D. Diogo de Sousa (1505-1532). (Bandeira, 1993, pp. 135-136)

Braga foi Bracara Augusta, fundada pelo Império Romano. Foi capital dos povos suevos (411) e esteve sob domínio visigodo (456) e árabe (715). Teria esta presença heterogénea e multicultural sido suficiente para demover o “enraizamento religioso que a organização eclesiástica entretanto adquirira” (1993, pp. 134-135)?

A imponência do Clero é confirmada por Oliveira (2011), historiador da arte, que observa os seus impactos na criação de uma mentalidade que moldou a cidade (2011, p. 18). Arquitetura, imagens, obras religiosas espalham-se pelo território. Símbolos, signos e significados de um tempo que se perpetua no imaginário comum até os dias atuais. Foi nessa Cidade dos Arcebispos que uma memória de si associada ao religioso se desenvolveu. Braga, então, configurou-se ao longo dos anos como um palco para “a arte de muitos mestres e artesãos, de criadores e de excelentes reprodutores” (Oliveira, 2011, p. 20).

Deambulando pelas ruas da cidade, é possível notar esse legado. Em passeio imaginário não-retilíneo, propõe-se um início de caminhada com começo no marco principal, origem e símbolo de onde parte o urbanismo da Braga medieval: a Sé. A partir de então, é seguir. Santuário do Sameiro e sua vista citadina privilegiada. Capela Árvore da Vida, Imaculada e Cheia de Graça com suas belezas esculpidas em madeira. Há espaço para o rococó tardio de André Soares e, com isso, observa-se o esplendor da Igreja dos Congregados. Não há como esquecer o Bom Jesus do Monte, com infinitos degraus que nos guiam pela Via Sacra…

Esse passeio, entretanto, se faz observando a pele da cidade. Observa-se a arte de projectar edifícios. Só há essa arte? Quais outras são tão importantes quanto e, por sua vez, hoje em dia passam desapercebidos dos olhares mais ágeis?

No interior/exterior destes espaços, numa linha tênue entre o dentro-sacro/fora-secular, toda essa aura se refletiu na arte sacra e religiosa. É sabido que Braga foi (e ainda é) um importante centro criador e exportador de objetos artísticos. Para quem desejar, o comércio tradicional no centro da cidade dedica-se à sua venda e/ou restauro. Ao espreitar as vitrines ao longo das ruas, localizam-se algumas lojas especializadas, de entre elas: Arte Sacra de Fânzeres na R. Dom Diogo de Sousa; Casa dos Terços na R. do Souto; Casa Clemente na R. São João; Casa de Arte Sacra na R. Santa Margarida e outras nos arredores…

Conforme essa temática ia sendo desvelada ao longo de um “thinking path” (Kagge, 2018), surgiu a necessidade de compreender qual o lugar que este comércio ocupa atualmente. Como Braga e os seus habitantes têm vindo a consumir e/ou percecionar, a partir da perspetiva do comércio tradicional, tais obras religiosas?

 

Conversas com o comércio local

1. A Casa Clemente

Por meio de uma série de conversas com o proprietário da Casa Clemente, o Sr. M. V., contabilista de formação e único a trabalhar no local, percebe-se o funcionamento atual desta prática: a sua loja é responsável por receber as encomendas (artigos novos e/ou restauro) dos habituais antigos clientes que, por sua vez, são divididas em duas categorias: arte autêntica (levada aos escultores/pintores localizados no concelho de Braga) e réplica importada. O que define esta cisão? 1) O valor que o cliente está disposto a pagar; 2) o tamanho das obras e 3) o tempo que podem esperar.

  1. O valor está diretamente relacionado com o processo produtivo. Uma obra autêntica, esculpida e pintada manualmente de maneira personalizada, tem, certamente, um valor mais alto quando comparada com peças produzidas em série e que são importadas;
  2. O tamanho das obras também é quase-determinante, uma vez que os escultores tendem a recusar a encomenda de peças pequenas devido à dificuldade de execução;
  3. O tempo também condiciona. Peças artesanais demoram mais tempo a ficarem prontas devido às diversas etapas e aos profissionais pelos quais passam até serem finalizadas.

Se antes a Casa Clemente tinha a sua localização numa grande loja em São Victor, hoje ocupa um pequeno espaço no Centro (imagem 1). Sem ter a quem deixar este legado, o Sr. M. menciona o desinteresse dos filhos que recomendam o fecho definitivo do local pelo facto de “ninguém se interessar mais por esse tipo de arte”. Não encerra o estabelecimento por resistência e afeição ao espaço, pois considera-o como parte importante do seu quotidiano e peça importante no mercado de artigos religiosos que fazem parte da cultura local.

 

2. Casa dos Terços

Nesta loja, na retilínea Rua do Souto, que leva o passante de uma ponta à outra do centro histórico, existe a possibilidade de avançar rumo a uma pequena e significativa diferença entre a arte sacra e a arte religiosa.

Recorrendo à pesquisa bibliográfica, identifica-se melhor a singularidade e o objetivo de cada uma. Por arte sacra, depreende-se um fenómeno comunicativo cujo objetivo é expressar uma Verdade. “É feita para a religião, com um destino de liturgia, ou seja, o culto divino” (Saldanha, 2019, p. 204). Já a arte religiosa, por sua vez, é feita de “imagens artísticas de inspiração e motivos religiosos, destinadas a elevar a mente para o espiritual” (Saldanha, 2019, p. 204). Resumindo: se toda arte sacra é religiosa, o contrário não se aplica. Entretanto, na Casa dos Terços de Braga, fundada em 1959, localiza-se a possibilidade de encontrar os dois tipos de arte ao mesmo tempo.

A história de uma das casas de comércio mais antigas da rua já está na segunda geração da família Fernandes. O fundador, o Sr. José, decidiu abrir este local após ser dispensado das funções que exercia no escritório do Convento Franciscano Montariol, em Braga.

Imagens, oratórios, presépios, medalhas e tantos outros artigos são cuidadosamente selecionados e vendidos. Lembrando os tempos áureos, em conversa, nota-se que a casa é mais uma que resiste, mesmo sentindo os efeitos de decadência. É referido, pela senhora C., que trabalha ali há 26 anos, que a alternativa e o segredo para o negócio durar é procurar sempre renovar as peças, dentro do possível, com a venda de algumas mais modernas, de tamanhos diferenciados… Diversificar também é uma palavra que aparece em conversação e, a partir disso, nota-se a possibilidade de adquirir molduras de quadros e outros objetos que despertam o interesse/curiosidade de quem por ali caminha.

 

Passado/presente, decair/surgir: reflexões sobre um comércio em desassossego

O tom das conversas com o proprietário da Casa Clemente e na Casa dos Terços rege a sinfonia e guia a perceção dos dois comerciantes sobre esta atividade e o seu consumo atual por parte dos clientes. Mantêm-se os habituais, parcos são os novos a surgir.

A memória repleta de recordações áureas de um espaço de experiência que revive a Braga centro comercial de artigos religiosos são confrontados com a escassez trazida por uma geração de “meios sem fim” (Martins, 2011), mediatizada, ecrãnizada e cada vez mais secular. Mediante isso, esse recordar debate-se com um horizonte de expectativa pós-moderno em espiral. Sem sentido, promessas e certezas, arrastado num eterno presente em desassossego continuum[1].

Em conferência de abertura proferida no Museu de Arte Sacra do Funchal (MASF), José Tolentino de Mendonça atesta que:

a palavra “divórcio” parece à primeira vista ser ajustada para descrever o longo desencontro, que a modernidade tem todos estes séculos documentado, entre os discursos e práticas artísticas e o catolicismo. Sobretudo quando se compara com os séculos anteriores é difícil fugir ao léxico da rutura. Dir-se-ia que no domínio da estética entramos num irresolúvel inverno, sem sombra daquela aura de glória que a história da arte impõe. (Mendonça, 2019, p. 22)

O que se depreende, em caminhada e na pesquisa bibliográfica, é uma latente dificuldade, encontrada pela arte e iconografia tradicional cristã (e talvez pela fé católica), de renovação na sua mediação do mistério e do sagrado.

Resta uma pergunta aqui partilhada: o que acontece quando numa dimensão religiosa e cultural, os espaços e as pessoas caminham em direção a uma certa secularização, a um “divórcio” com a religião?

Autores como o Padre João Norton de Matos (2019) defendem a capacidade desse conjunto religioso católico (que envolve os espaços, ritos e objetos) para guardar uma capacidade simbólica de significação e criação de consciência de unicidade. Outros, como o Padre Paulo Terroso, da Diocese de Braga (em entrevista realizada pela Passeio no mês de novembro), chamam a atenção para o facto de que “uma sociedade secularizada não precisa significar uma sociedade sem cultura” (Terroso, entrevista pessoal, 24 de novembro de 2020).

Entretanto, refazendo a pergunta, o que acontece à arte e ao seu comércio quando uma parte desse conjunto, nomeadamente as pessoas, decreta a sua diabolia, ou seja, a sua separação? Quais são as consequências desse crescente divórcio e iliteracia relacionados com a arte sacra/religiosa?

Em jeito de (in)conclusão, ilumina-se uma nova pergunta: se o comércio tradicional dedicado à venda de arte sacra/religiosa vive esse desassossego, qual será o ponto de situação do lado da criação/produção? Toda uma cadeia de sentidos está envolvida aqui.

Pergunta para uma segunda paragem.

 

Agradecimentos

Agradeço, em primeiro lugar, ao Padre Paulo Terroso, pela entrevista realizada no mês de novembro e pela partilha de conhecimento.

À artista Patrícia Ferreira, pela autorização da utilização dos seus sketchs para ilustrar/iluminar o micro-ensaio.

E, por fim, agradeço à amizade do Sr. M., da Casa Clemente, pelas conversas que foram a minha porta de entrada para a temática.

 

Referências

Bandeira, M. S. M. (1993). O espaço urbano de Braga em meados do séc. XVIII. A cidade reconstituída a partir do Mappa das Ruas de Braga e dos índices dos Prazos das Casas do Cabido. Revista da Faculdade de Letras – Geografia I Série, 9, 101-223. Retirado de https://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/1533.pdf

Benjamin, W. (1982/2009). Passagem. Belo Horizonte: Editora UFMG.

Bloch, M. (2002). Apologia da história ou o ofício do historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editores.

Kagge, E. (2018). A arte de caminhar. Lisboa: Quetzal Editores.

Martins, M. L. (2011). Crise no castelo da cultura. Das estrelas para os ecrãs. Coimbra: Grácio Editor.

Matos, J. N. (2019). A crise moderna da arte sacra e as mediações do sagrado na arte. MASF Journal, 2, 163-178. Retirado de https://issuu.com/masfunchal/docs/masfjournal_02

Mendonça, J. T. (2019). Arte, mediação e símbolo: o sentido que vem. MASF Journal, 2, 21-39. Retirado de https://issuu.com/masfunchal/docs/masfjournal_02

Oliveira, E. A. P. (2011). André Soares e o rococó do Minho (volume I). Tese de Doutoramento, Universidade do Porto, Porto, Portugal. Retirado de https://hdl.handle.net/10216/62456

Saldanha, N. (2019). Arte sacra, culto, cultura e património. MASF Journal, 2, 201-210. Retirado de https://issuu.com/masfunchal/docs/masfjournal_02

 

[1] Marc Bloch em Apologia da História (2002), ao teorizar sobre o tempo histórico (p. 55), conclui que o tempo é um eterno continuum em perpétua mudança. Nesse parágrafo realizo uma pequena mudança pós-moderna inspirada nas considerações de Moisés de Lemos Martins em seu Crise no Castelo da Cultura. Da estrela para os ecrãs (2011).

 

Thatiana Veronez

Braga, janeiro/2021

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