Outono: imagens do quotidiano em Braga

Caminhar pelas ruas da cidade, perceber o quotidiano enquanto um lugar gerador de experiências estéticas. A cidade é um espaço dinâmico de construção social e o ato de caminhar pode ser associado a alguns saberes, dentre eles o gesto etnográfico e o artístico, sob os quais se alinha o objeto deste micro-ensaio. Caminhar remete a uma posição activa, de observação em dimensões como a visual, a motora, a tátil, a auditiva, a afectiva e a social. Todas estas dimensões se agregam em um único momento de deambulação capaz de fazer emergir memórias, sensações e percepções para enfim ser possível uma certa concepção pessoal da urbe.

A ambiência urbana se coloca como abordagem imprescindível a este ato de deambular. Fundado por Gernot Bohme e François Augoyard, o conceito mais alargado e interdisciplinar de ambiência tende a evidenciar a experiência do sujeito em uma forma espacial, neste caso o espaço urbano. A experiência vivenciada neste espaço se dá a partir da percepção do ambiente mediante a história social e pessoal (individual),  do local e do sujeito em um determinado espaço-tempo. Esta relação cria uma atmosfera, que define a impressão que o sujeito tem diante de um sistema de forças sensíveis e afectivas que rege o homem em seu meio. Através da ambiência e da atmosfera é possível sentir a cidade em toda a sua dinâmica, vitalidade e fluidez.

Tendo por base a metáfora do flâneur,  de Walter Benjamin, Nuvolati (2014) evidencia que “o flâneur é um caçador do cotidiano que não consegue ser descodificados pela análise convencional da racionalidade, requerendo um gesto, uma atitude artística” (Nuvolati, 2014, p. 29). Ao deambular pelo espaço urbano, o flâneur contemporâneo observa o quotidiano com um olhar sensível ao que vê e, por vezes, desenvolve uma tríade comportamental: caminhar, fotografar, partilhar/narrar, de modo semelhante àquele proposto por Walter Benjamin, que aproxima o caminhar e a narrativa escrita. Este é o método escolhido por este micro-ensaio: caminhar – observar – partilhar/fotografar, sem deixar de lado a experiência sensorial e estética advinda deste encontro com o cotidiano.

Nesta experiência junto à cidade, deambulamos pelas principais ruas da região central de Braga, afim de observar e sentir os aromas, as cores, as cenas, os sons do outono que em breve se despede, dando lugar ao inverno. O nosso olhar sobre o cotidiano é apresentado e partilhado neste ensaio fotográfico.

Por: Elaine Trindade, 12/2019

Referências Bibliográficas

Benjamin, W. (1994).  O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In: Obras Escolhidas v.1, 2.ed. São Paulo, Brasiliense, p. 197-221.

Benjamin, W .(1994).  Obras Escolhidas III: Charles Baudelaire um lírico no auge do capitalismo. 3ª Ed. São Paulo: Brasiliense.

De Certeau, M. (1998). A Invenção do Quotidiano. 3.ª edição. Petrópolis: Editora Vozes.

Nuvolati, G. (2014). “The Flâneur: A Way of Walking, Exploring and Interpreting the City.”  In: Walking in the European City. Farnham: Ashgate Publishing, p. 21-40.

Thibaud, J. P. (2010). “A Cidade através dos Sentidos.” Cadernos PROARQ (18), p. 198-213.

 

LOCALIZAÇÃO

LOCAL: Braga

LATITUDE: 41.54544860000001

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