Morre a gata, saem às ruas os sátiros universitários

Por entre o preto e a formalidade sóbria das togas – que se espraia noite à fora da Estação de Comboios de Braga até o Largo do Paço, no Centro Histórico – irrompe um caótico, colorido e embriagado cortejo. São bispos, padres e uma escolta de soldados romanos que, no último comboio na noite do dia 11 de maio, são recebidos na estação por uma fanfarra musical e umas centenas de estudantes universitários. Trazem consigo um caixão preto onde se supõe descansar pela eternidade a figura que motivou tal comoção: a falecida gata – um símbolo da reprovação do ano universitário, da qual celebram a morte em irónicas orações e cânticos de lamento.

O Velório da Gata integra as festividades do Enterro da Gata, realizado em 2018 de 11 a 18 de maio. É parte do calendário universitário de Braga e está alinhada com as semanas acadêmicas das universidades portuguesas. Inclui no programa desde concertos musicais aos festejos e ritos próprios da cultura estudantil.

A Passeio acompanhou, neste ano, dois momentos destas celebrações: o Velório, acima descrito, e o Cortejo Acadêmico, que teve lugar nas ruas do Centro Histórico da cidade pela tarde do dia 16 de maio.

No primeiro momento – tendo em conta minhas vivências no Brasil e um certo alheamento a estas práticas estudantis em Portugal – a sensação que se tem é de que uma realidade paralela irrompe pela Cidade. Por entre uma rotina de aparência contida, ordenada e até mesmo silenciosa de Braga, com muitos idosos dividindo espaço com famílias, jovens mais ou menos comportados e turistas, passa um turbilhão de universitários em êxtase – cantam, bebem, confraternizam-se.

Ao centro, umas dezenas de estudantes fantasiados e músicos dão forma ao que seria um funeral religioso da “gata”. A paródia estudantil alterna entre o canto da Ave Maria e temas festivos. À volta, um corpo negro de centenas de estudantes de toga e alguns curiosos que acompanha o cortejo. Por onde passam, deixam o rastro de latas de cerveja.

A comparação com o Carnaval de rua do Brasil é inevitável. Não à toa, em determinada altura, a canção carnavalesca Marcha do Remador (cantada em versão paródia por brasileiros agregados ao cortejo) sobressalta em meio aos irónicos lamentos dedicados à “gata”.  De boleia nas reflexões de Albertino Gonçalves sobre o grotesco, estes são daqueles momentos em que a rotina é rompida (Maffesoli, 1988) em espaços e períodos determinados, quando “entra-se ‘no reino utópico da universalidade, liberdade, igualdade e abundância’ (Bakhtin, 1987: 8). O espaço e o tempo grotescos relevam da esfera do passageiro, do marginal e do extraordinário. A sua atividade baralha, inverte e fustiga as hierarquias, as práticas e os valores vigentes” (Gonçalves, 2009, p. 21).

Se o carnaval, pela etimologia da palavra, é a procissão dos deuses mortos ou destronados, neste cortejo, quem perde o lugar é a “gata” (ou a reprovação, ato que remete diretamente à autoridade exercida sobre os estudantes pela academia). O velório é um momento em que o corpo estudantil abraça a fúria dionisíaca e enterra a ordem universitária – suas hierarquias, suas pressões, seus cânones. “Em Dionísio, a carnavalização representa a procissão dos deuses vivos novos e a morte dos deuses velhos. A virada ao avesso das coisas” (Fortuna, 2005, p. 102).

No segundo momento que acompanhamos destas festividades, há uma mudança notável desta lógica. Durante o Cortejo Acadêmico, os estudantes – veteranos e caloiros – reúnem-se de acordo com o seu curso e desfilam pelas ruas do Centro, tendo como momento auge a apresentação dos alunos a um grupo de autoridades acadêmicas. É um momento de despedida para os finalistas e quando as turmas do primeiro ano deixam a qualidade rasa de caloiro e passam a integrar os veteranos.

O cortejo traz à tona a lógica perversa das praxes que são realizadas ao longo do ano letivo -perversidade aqui referenciada na concepção trabalhada por Gonçalves, não como o simples gosto por fazer o mal, mas como a “tendência para o desvio, para a sinuosidade e a inversão das tramas e dos percursos” (Gonçalves, 2009, p. 13). Com uma aparência de organização militar, durante o primeiro ano, os estudantes são tratados como soldados –  dispostos em grupos, descaracterizados de suas individualidades e obedecendo às ordens que lhes são dispensadas pelos mais antigos.

No cortejo, enquanto os “doutores” estão de toga, bebem e festejam junto aos caminhões decorados do desfile, os caloiros vestem camisolas simples coloridas e reproduzem os ritos e bordões das praxes.

Se o funeral da gata sugeria um Carnaval, o Cortejo aponta para o seu oposto. Está mais próximo da função das festas medievais oficiais, como eram vistas por Bakhtin. Enquanto o Carnaval exaltava a igualdade pela subversão da ordem cotidiana, as festas oficiais consagravam as desigualdades. Nelas, “cada personagem apresentava-se com as insígnias dos seus títulos, graus e funções” (Bakhtin, 1987, p. 9) para intencionalmente destacar as distinções hierárquicas.

Ambos os momentos, não se pode esquecer, são de festa, de consagração e confraternização dos universitários. Entretanto, a sensação que fica é de que a tradição acadêmica estudantil se ocupa mais em reforçar hierarquias e relações desiguais do que em superá-las. Ao enterrarem a “gata”, os estudantes carnavalizam as esferas superiores do meio acadêmico, mas talvez não rompam com a hierarquia que cultivam entre si. Fica, por fim, a dúvida do quanto do Velório é de facto Carnaval e do quanto esta comparação é apenas aparência, uma vaga semelhança amplificada pelo olhar de um brasileiro com saudades de casa.

Fábio Marques, 07/2018

 

Referências:

Bakhtin, Mikhail. (1987). A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento: O contexto de François Rabelais. São Paulo: Editora Hucitec

Fortuna, Marlene. (2005). Dionísio e a Comunicação na Hélade – o mito, o rito e a ribalta. São Paulo: Ed. Annablume

Gonçalves, Albertino. (2009). Vertigens. Para uma Sociologia da Perversidade. Coimbra: Grácio Editor

Maffesoli, Michel. (1988). Le Temps des Tribus. Paris: Meridiens/Klincksieck

LOCALIZAÇÃO

LOCAL: Braga

LATITUDE: 41.54873

LONGITUDE: -8.434124600000018