Intervalos de (in)comunicabilidade

Em Rear Window, de Alfred Hitchcock, o desenvolvimento da diegese, do princípio ao fim, decorre nos espaços domésticos que as janelas, varandas e pátio, permitem a Jeffries espreitar. Tendo partido uma perna no contexto da sua atividade de fotógrafo, e encontrando-se por isso imobilizado em casa, não resta à personagem principal outra alternativa senão a de se entreter com a observação diária das rotinas dos vizinhos no prédio em frente: a bailarina exercitando-se todas as manhãs, o pianista, a mulher solitária e romântica que insiste em pôr a mesa para dois, decorando-a com velas acesas, a vizinha que faz descer todos os dias a sua adorável cadelinha, num cesto preso por uma corda, até ao pátio comum…

Os exercícios de ginástica à varanda assumem carácter de rotina. De manhã ou ao final da tarde, a hora de ‘apanhar ar na varanda’ pontua o cronograma do dia. Individualmente, ou em família, as cenas deste tipo, com variantes, repetem-se: “Um pouco mais tarde, surgem na varanda pai e filha. Fazem exercício físico, coordenando entre si os movimentos. Flexões e estiramentos. De seguida, a filha abandona a varanda e o jovem pai prossegue, saltando à corda durante algum tempo. Por uma fração de segundo, à visão do prédio em frente mistura-se a imagem da coreografia com o Vasco Santana e o Ribeirinho fazendo ‘ginástica sueca/cueca’, nomeadamente flexões à janela de casa, vestidos de roupa interior branca, em O Pátio das Cantigas” (excerto de diário de campo, 21 de março de 2020).

As limpezas transformam-se, por sua vez, em vagarosas práticas de ócio. Os estendais, de feitios variados, acolhem agora roupa lavada com mais frequência, desde a roupa do corpo e de cama a tapetes ou almofadas colocadas ao sol. Em algumas das varandas observámos que as empregadas de limpeza vão deixando de aparecer à varanda, sendo substituídas, ao que parece, pelos pais e mães que passaram a assumir o comando de todo o tipo de tarefas: “É já fim da tarde e a luz é agora pálida. O indivíduo assome subitamente com um alguidar de roupa que pousa sobre o tanque da varanda. Com modos indolentes, pega cuidadosamente em cada peça, espanando-a ligeiramente e elevando-a junto do nariz, antes de a repousar no estendal. Esta cadeia de movimentos é intercalada volta e meia por breves intervalos, ocupados com o descanso das mãos apoiadas sobre as grades e o passeio do olhar sobre a rua” (Excerto de diário de campo, 18 de março de 2020).

O mobiliário de exterior, ao mesmo tempo que coabita com o estendal da roupa, decora uma segunda sala-de-estar: “Em cada varanda o décor difere. Ora se observa um conjunto de mesa e duas cadeiras, ao estilo IKEA ou Leroy Merlin, ora grandes cadeirões de repouso ao ar livre. Um desses cadeirões é do tipo baloiço” (Excerto de diário de campo, 17 de março de 2020).  Em cada uma das varandas vêem-se crianças e adultos, em diferentes momentos do dia, num entra e sai permanente. Os adultos, ora se sentam simplesmente para estar ou fumar um cigarro, ou muitas vezes para falar ao telemóvel, ora interagem com os filhos, com quem se sentam a uma mesa com jogos de tabuleiro, com quem regam as plantas, em alguns casos, ou com quem simplesmente conversam, tomando conta das entradas e saídas repentinas dos mais pequenos: “Numa das varandas observa-se uma tenda montada, em formato de casinha de bonecas. Duas crianças ainda pequenas, uma delas em idade de gatinhar, passa tempo sem fim a desparecer e a reaparecer na soleira da ‘porta’ da tenda, arrastando consigo alguns brinquedos…” (Excerto de diário de campo, 17 de março de 2020).

Vendo bem, as varandas, distendendo a vida doméstica para o exterior, e prestando-se a um sem número de multifunções, apresentam-se como pequenas praças, locais de encontro entre os membros da família, mas também de partilha com a esfera social de todos aqueles que, ao mesmo tempo que se mostram, vão espreitando o quotidiano alheio, participando de uma espécie de ‘teatro comunitário’ sem encenador ou argumento pré-determinados, embora ligados pela inerência da relação entre palco e plateia que todas as varandas, frente a frente, estabelecem entre si. As novidades do dia-a-dia são presentes oferecidos à visão dos vizinhos, voluntaria ou involuntariamente: “Contamos cerca de onze desenhos com o motivo do arco-íris, em alinhamento com as mensagens de esperança do tipo «Vamos todos ficar bem» colocadas nas varandas do país e que têm sido noticiadas pelos media, pendurados nos separadores de acrílico das varandas. Numa das varandas, mãe e filhas penduram com fita-cola, no beiral, os desenhos. Noutra casa, o mesmo motivo desenhado é exposto na janela de casa, virado para o lado de fora. Noutro caso ainda, pode ler-se ‘Sr. Alberto #Vamos todos ficar bem!’. Suponho que se trata do dono do café em baixo, contíguo ao pátio, frequentemente visitado pelos habitantes do prédio adjacente, que costumam, em tempos de normalidade, passar longas tarde ou manhãs, na esplanada, enquanto os filhos jogam à bola ou andam de patins no pátio” (Excerto de diário de campo, 20 de março de 2020).

Cada varanda é um limiar que separa o dentro do fora, a casa da rua, o abrigo seguro, a ‘concha’, como diria Bachelard, em A Poética do Espaço, do risco e do desconhecido. Descobrimos, a propósito, as seguintes palavras de Byung-Chul (2018, p. 45): “O medo produz-se igualmente no limiar. É um sentimento tipicamente liminar. O limiar é a passagem para o desconhecido. Para lado limiar começa um estado ôntico completamente outro. Por isso, o limiar traz sempre inscrita em si a morte. Em todos os ritos de passagem, rites de passage, morre-se para se renascer transpondo o limiar. A morte é aqui experimentada como transição. Quem transpõe o limiar submete-se a uma transformação”. Os limiares que neste micro-ensaio observamos produzem um duplo fenómeno de quase-morte. A transformação da vida quotidiana, operada pela suspensão da vida ativa e do trabalho, deixadas em suspenso fora de portas, por um lado. E a transição da vida privada e íntima, confinada ao interior da casa, para a reinvenção de si e apresentação de si aos outros, ao estilo goffmaniano, no palco em que a varanda se transformou, por outro.

A distância entre os prédios que se encontram frente a frente não permite a audição clara, não mais do que alguns sons surdos e distantes, das paisagens sonoras produzidas pelas cenas observadas. Impera, pois, uma visão muda, entrecortada pelo barulho de um ou outro automóvel que vai passando nas imediações. Ao romper do dia, o silêncio é entrecortado pelo surpreendente cantar de um galo. E ao início da noite destaca-se o altifalante de uma carrinha que passa, vagarosamente, projetando mensagens de apelo ao #FiqueEmCasa. A paisagem sonora remete-nos para uma ambiência apocalítica. Cada família confina-se ao seu micro-universo, apenas quebrado com iniciativas de exceção, como a noite em que, em resposta ao apelo nas redes sociais, no dia 22 de março, saíram à varanda e bateram palmas, uns de modo mais tímido, outros mais entusiasticamente, em agradecimento aos profissionais de saúde.

Estes e outros retratos dos quotidianos observados conduzem-nos a pensar na recriação de sentidos que estes tempos de restrição da vida social propiciam. As imagens que diariamente são divulgadas nas redes sociais e nos média, mostrando performances espontâneas nas varandas, atuações musicais, recitais, etc., dizem bem do modo como os indivíduos reinventam o seu sentido de comunidade. Simultaneamente, parecem enfatizar-se as demarcações, as físicas, mas também as invisíveis, que nos separam. Cada qual ‘cuida dos seus’ e é convidado a promover o distanciamento social. Com este pensamento, somos levados, pela mão de Richard Sennett, a reler o sentido trágico da vida moderna (pós ou trans-moderna, como quisermos) do qual nos fala o autor em The Fall of Public Man (1977). O conceito de ‘transparência sem transição’ ilustra o modo como erguemos entre nós barreiras invisíveis e intransponíveis, nos mais variados contextos da vida social no quotidiano. Na sua mais recente obra, publicada em 2018, Building and Dwelling, o autor, recorrendo ao pensamento fenomenológico de Husserl, parafraseia: “Alien, irmão e vizinho. Este trio de palavras define o Outro…” (Sennett, 2018, p. 123). O sentido da estranheza e da impermeabilização ao outro, a melancólica solidão dos que estão condenados à intransitoriedade, ou o ‘paradoxo do isolamento no meio de um regime de visibilidade’, encontra expressão, nomeadamente, na obra pictórica de Edward Hopper. Voltando a Sennett, atente-se na seguinte passagem: “As cidades em que vivemos hoje são fechadas de maneira a refletir o que aconteceu no campo da tecnologia… o crescimento das cidades não produziu muita experiência na forma. O complexo de escritórios, o campus da escola, a torre residencial com um pedaço de verde não são formas amigáveis de experienciar, porque todas são auto-contidas e não abertas a influências e interações externas (Sennett, 2018, p. 11). Deixando-nos contaminar pelo pensamento do autor, perguntamo-nos: não são as varandas as formas que melhor metaforizam os liminares invisíveis de self-containment da vida social quotidiana? Ao mesmo tempo lugares da vida ativa e tornada visível ao outro, intervalo tanto de inter-esse, nos termos de Hannah Arendt, como de incomunicabilidade?

 

Referências:

Byung-Chul, H. (2018). A Expulsão do Outro. Lisboa: Relógio D’Água.

Sennett, R. (1977/2017). The Fall of The Public Man. Nova Iorque: W. W. Norton.

Sennett, R. (2018). Building and Dwelling. Ethics for the City. Londres: Penguin Books.

 

Por Helena Pires, 03/2020

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