Da janela do meu quarto: Retrato de uma vista perdida

Para Gregor Samsa, na obra A metamorfose de Frank Kafka, a janela é o único meio de comunicação com o mundo exterior. À medida que Gregor se vai mesclando com o quarto, a sua irmã, Greta, precisa de abrir a janela para não ficar confinada à realidade que não consegue aceitar. Entra no quarto, mas sempre movida pela compulsão de manter contacto com a normalidade do exterior.

Da mesma forma, no conto intitulado A janela para a rua, do referido autor, a janela é o único lugar através do qual o protagonista pode ver o mundo e sentir que está vivo. Se por um lado a janela estreita a visão que tem do mundo, resultando daí um pessimismo face ao mesmo, por outro, essa mesma janela é um meio através da qual entra a luz, ou seja, a vida e a esperança. É a janela pela qual ele pode ver a rua e o céu que o mantém ligado à vida e à solidão. Sem o lá fora, o seu isolamento não tem sentido.

Num momento em que #EstamosTodosaOlharParaaRuadaJanela, em um movimento incitado por uma ausência (a cidade morta) e impulsionado por um fantasma de um ideal perdido (Bailly, 2013), no qual o outro começa a existir para nós, a fronteira torna-se um lugar privilegiado para repensar a forma como nos relacionamos com o tempo, com o antes e o depois, a partir das questões do agora.

No agora, conjuga-se a ilusão de um tempo sem espera, inscrita no princípio do funcionamento contínuo de que fala o livro 24/7 de Jonathan Crary (2018), com a ideia de longos blocos de tempo passados exclusivamente enquanto espectador. É como se vivêssemos um tempo sem intervalos num qualquer intervalo do tempo, que experienciamos como um tempo em suspenso, morto, improdutivo, de sono forçado, enquanto esperamos pela experiência de comunidade, por um tempo partilhado em comum.

Neste intervalo de espera, como nos apropriamos do tempo, o tempo que sobra, o tempo com espera?

Sob o princípio do funcionamento contínuo da sociedade 24/7, o passar do tempo, em vez de ser um horizonte de oportunidades e de abertura, tende a ser construído como algo que precisa de ser consumido ou preenchido para evitar o tédio,  a repetição, o medo do vazio que nos cerca (Svendsen, 2006, p. 4). O tempo com espera, o tempo que sobra, inquieta-nos e impulsiona-nos para o consumo de coisas novas e pessoas novas para quebrar a monotonia da mesmice (Svendsen, 2006, p. 43). Mas o novo, como refere Adorno (1995), produzido em laboratório e orquestrado para nos entreter e assim fazer espantar o tédio, ou para nos devolver a sensação perdida de controlo, converte-se no costumeiro sempre-igual, num ciclo de eterno retorno do antigo.

Esta atrofia, esta incapacidade de nos apoderarmos do tempo, e o medo do vazio que nos cerca, não precisam necessariamente de serem vividos deste modo.  Os tempos mortos de espera podem ser vividos em si mesmos, de forma autónoma.

Um mundo que não espera, lembra-nos a voz off do filme “Espera” do brasileiro Cao Guimarães, não delira, não sonha. Nos tempos mortos de espera, podemos exercitar as qualidades da paciência, da escuta do outro e do olhar. Olhar, explica José Gil, é entrar na atmosfera das pequenas perceções (1996, p. 52).

Agora que #EstamosTodosaOlharParaaRuadaJanela, neste espaço de fronteira ou território de devir, é tempo de procurar para lá da margem do quadro e de nos perdermos nesse espaço de força, potência e intensidade imanente. Ouçamos Kafka no conto A janela para a rua:

Quem leve uma vida solitária e tenha de vez em quando a necessidade de algum tipo de contacto, quem, atento às mudanças de hora do dia, mudanças de clima, das relações profissionais e afins, queira ter um simples braço, um qualquer a que se possa agarrar – uma pessoa destas não conseguirá aguentar muito tempo sem uma janela que dê para a rua. E se esta pessoa por acaso não estiver à procura de nada e apenas se aproximar do parapeito, como um homem cansado, para passear os olhos, e não quiser olhar e incline a cabeça um pouco para trás, então, nesse caso, os cavalos lá em baixo arrastá-lo-ão consigo no seu cortejo de carruagens e barulho e assim finalmente em direcção à harmonia humana.

Enquanto a música durar, não há passado nem futuro. Há a imediatez e a intensidade do momento presente de transição entre o desejo e o vazio.

 

Referências:

Adorno, T. W. (1995). Tempo livre. In T. W. Adorno, Palavras e sinais: Modelos críticos (pp. 70-82). Petrópolis, RJ: Vozes.

Bailly, J.-C. (2013). La phrase urbaine. Paris: Seuil.

Crary, J. (2018). O capitalismo tardio e os fins do sono. Lisboa: Antígona.

Gil, J. (1996). A   imagem-nua   e   as   pequenas   percepções.   Estética   e metafenomenologia. Lisboa: Relógio d ́Água.

Guimarães, Cao (Realizador) (2018). Espera [Filme]. Brasil.

Mendes, J. (Coord.) Os contos de Franz Kafka. Lisboa: Assírio & Alvim.

Svendsen, L. (2006). Filosofia do tédio. Rio de Janeiro: J. Zahar.

 

Zara Pinto-Coelho

Braga, 3 de abril de 2020

 

LOCALIZAÇÃO

LOCAL: Vila Real

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