Cidade, vistas e retratos: das ruas aos estúdios fotográficos da primeira metade do século XX

Desde a célebre vista do Boulevard du Temple, em Paris, captada em 1838 por Daguerre, até aos postais e álbuns ilustrados com vistas da cidade que proliferaram no início do século XX, a imagem da cidade tem sido recorrentemente perspetivada através da objetiva fotográfica, como o atesta a vasta bibliografia nesta categoria que poderíamos designar por “fotografia da cidade”: de Walter Benjamin a Jane Tormey, para apenas citar dois exemplos. Mais do que colecionar vistas de cidades e lembrar essa relação histórica da fotografia com a topografia — veja-se, neste âmbito, o contributo de Rosalind Krauss, com Photography’s Discursive Spaces: Landscape/View  —, interessou-nos, contudo, no âmbito da Passeio, aproximar-nos do interior dos estúdios fotográficos da primeira metade do séc. XX e compreender qual o papel desta prática fotográfica popular e urbana na interação social e na experiência quotidiana da cidade e das suas multidões no início do séc. XX. Através de uma recolha bibliográfica exploratória, de uma consulta de acervos fotográficos e da realização de entrevistas, quisemos chegar aos interiores dos estúdios fotográficos na sua idade de ouro e nomeadamente revisitar a história de alguns estúdios fotográficos das cidades de Braga e de Ponta Delgada.

Esta outra categoria, que põe os estúdios fotográficos a par das lojas da cidade e das suas montras, das salas de espetáculo que proliferavam na cidade e das suas atrações, poderia ser designada de “fotografia na cidade”. Os estúdios fotográficos de retratos, frequentemente negócios familiares instalados em contexto urbano, eram na primeira metade do século XX um lugar de reunião social, cuja importância se encontra bem antevista pelo roteiro de estúdios de retratos da Inglaterra, da Escócia, da França, da Prússia e da Áustria que H Baden Pritchard faz em 1882 em The Photographic Studios of Europe . Vários historiadores da fotografia têm dedicado o seu olhar ao interior destes ateliers, remetendo-nos para a panóplia ostensiva de acessórios e para o vasto leque de truques que faziam dos estúdios fotográficos da primeira metade do séc. XX verdadeiras casas de espetáculo: Walter Benjamin, Gisèle Freund, e com especial ênfase, Heinz Henisch e Bridget Henisch, referem-se aos cavaletes, colunas, cortinados, animais exóticos embalsamados, telas e cenários pintados, mesas, cadeirões, cavaletes, plantas, e os appuie-têtes, os aparelhos que permitiam manter o retratado imóvel durante a sua pose. Um bom apanhado destes aspetos é-nos também dado pelo recentemente requalificado e reaberto Museu de Fotografia da Madeira – Atelier Vicente’s na cidade do Funchal que, através de peças de mobiliário, adereços, cenários, material de laboratório e máquinas fotográficas nos dá um ímpar retrato do que seria o interior de um estúdio fotográfico na viragem do século no contexto nacional.

No passado março de 2019, a Passeio entrevistou o fotógrafo Luís Machado, em Braga, a fim de explorar um pouco destas rotinas e práticas nas casas de fotografia. O fotógrafo bracarense ingressou na fotografia na década de 1960, aos 10 anos de idade, como funcionário da Foto Artine. Trabalhou em outras casas como a Foto Chic e durante 40 anos também atuou como fotojornalista. Em 1985, inaugurou a Foto São Vicente, onde até hoje trabalha. Mantém desde cedo o hábito de colecionista, possuindo um acervo de cerca de 800 câmeras fotográficas, datadas entre o fim do século XIX até câmeras atuais – sendo parte destas oriundas de estúdios fotográficos de Braga. O acervo também inclui negativos e assessórios utilizados por fotógrafos e casas de fotografia ao longo do século XX.

A entrevista foi realizada em uma espécie de minimuseu onde Luís Machado mantém organizado seu acervo, que fica ao lado da Foto São Vicente, na Rua de São Vicente, em Braga. Embora tenha trabalhado a partir da segunda metade do século, visitou alguns dos antigos estúdios, conviveu com fotógrafos da época e traz na memória essas vivências, além de algumas das rotinas e práticas que permaneceram em curso nas casas onde trabalhou.

Em Ponta Delgada, em abril de 2019, entrevistámos Ana Nóbrega, que deu continuidade ao estúdio fotográfico do pai madeirense que nos anos 40, com a intenção de emigrar para o Brasil, se terá, porém, ficado pelo meio do caminho, estabelecendo-se no mais ocidental arquipélago português. A Foto Nóbrega, instalada em 1943 no nº 74 da Rua Machado dos Santos, a rua que à época era a principal rua do comércio da cidade, a Broadway de Ponta Delgada, como chegou a ser ironicamente apelidada, fechou em agosto de 2018. Outrora com especial gosto pelo retoque manual das fotografias e com talento particular para “inserir movimento” na disposição dos retratos e das composições publicitárias, Ana Nóbrega recebeu-nos na sala da sua casa, rodeada pelas telas a óleo que também pinta.

Embora a fotógrafa prefira receber-nos ali, é no estúdio da agora empalidecida Rua Machado dos Santos, a uns quarteirões dali, que, além do antigo centro comercial em que se insere e que é também propriedade da família Nóbrega, se armazena o Arquivo da Casa Fotográfica Nóbrega, composto não apenas pelo espólio do fotógrafo Gilberto Nóbrega, mas também pelo espólio da Foto Toste. Segundo um relatório da responsabilidade do Instituto Cultural de Ponta Delgada datado de 2014, que nos foi cedido por Ana Nóbrega, este acervo, que não se encontraria “nas condições ideais de conservação”, guardado em salas com infiltrações, sem isolamento e sem ventilação nem refrigeração e acondicionado inadequadamente, contava à data com um vasto e valioso conjunto de negativos em vidro e em película, de álbuns de provas e de livros manuscritos: da Fotografia Nóbrega, haveria mais de 800 mil negativos e da Foto Toste, mais de 30 mil negativos. Ana Nóbrega avançou também durante a nossa conversa que negociações com o Governo dos Açores estariam em curso para que o referido acervo ficasse, muito em breve, sob a tutela deste último.

 

Os estúdios fotográficos de Ponta Delgada

A história e a memória dos estúdios fotográficos de Ponta Delgada já foi objeto de um trabalho de sistematização e de mapeamento de acervos fotográficos realizado no âmbito do Arquivo da Imagem dos Açores, resultado dos projetos MEDIAT e CINEMEDIA, em curso entre 2003 e 2008. A partir deste arquivo, obra publicada em 2011, neste âmbito, por Carlos Enes, A Fotografia nos Açores, e ainda do Arquivo Fotográfico Digital do Instituto Cultural de Ponta Delgada, percebemos que a prática da fotografia no arquipélago foi favorecida não apenas pela travessia entre as ilhas como pela itinerância de fotógrafos vindos dos dois lados do Atlântico: da Europa e da América.

O estúdio Photographia Artistica, foi aberto em 1870 no n.º 19 da Rua da Esperança (atual Rua Gil Montalverne de Sequeira), em Ponta Delgada pelo vila-franquense António José Raposo, fotógrafo ensinado pelo pintor e fotógrafo sueco M. J. Schenk e pelo fotógrafo alemão Carl Fredrich Johann Reeckell. Nos seus retratos de estúdio, que abrem o pano sobre as fisionomias e os laços familiares do séc. XIX e XX, é notório o esforço de sóbria encenação: as poses dignas, os ares graves, as roupas cuidadas e os discretos detalhes decorativos compõem as cartes-de-visite e cartes cabinet que integram este espólio.

O terceirense José Pacheco Toste era fotógrafo ambulante até se estabelecer com o seu estúdio Photographia Central, que viria a chamar-se mais tarde Foto Toste, na Rua do Valverde de Ponta Delgada. A sua filha, Maria das Dores Amorim Toste, que viaja com ele para os EUA em 1900 para aperfeiçoar os métodos fotográficos, tomará conta do estúdio, juntamente com o seu marido, Jacinto Óscar Dias Rego, reputado como tendo sido realizador do primeiro filme rodado em São Miguel, filme até hoje desaparecido.

Ana Nóbrega, com quem conversámos, filha do fotógrafo Gilberto Nóbrega, o fotógrafo que adquiriu o estúdio e o espólio da Foto Toste nos anos 50, acredita que o filme de Jacinto Óscar Dias Rego, aquando do transporte do acervo da Foto Toste para a Rua Machado dos Santos, terá sido perdido, quiçá “deitado ao lixo” pelos funcionários. Gilberto Nóbrega, o primeiro proprietário e fotógrafo da Foto Nóbrega foi um pioneiro bem-sucedido: conforme relata a imprensa amiúde, e como o confirma Ana Nóbrega, ele próprio terá concebido a iluminação do seu estúdio, construído um aparelho para transferir fotografia para slide ou ainda montado o primeiro estúdio de fotografia a cores de São Miguel. Chegando a ter mais de 30 funcionários, Gilberto Nóbrega captou as vistas do arquipélago, registou os seus mais importantes acontecimentos, dedicou-se à produção retratística e à fotografia publicitária, editou postais e por diversas vezes expôs os seus trabalhos fotográficos.

 

Os estúdios fotográficos de Braga

Em Braga, encontramos um maior número de estúdios fotográficos, bem como de fotógrafos. A partir das informações sistematizadas pelo Museu Nogueira da Silva e Museu da Imagem de Braga foi possível traçar um panorama desta produção. Entre as principais casas em atividade no período, estavam a Foto Aliança (fundada em 1910) e Casa Pelicano (fundada em 1929), cujos espólios fotográficos estão aos cuidados do Museu da Imagem. O museu possui um acervo de 210 mil películas antigas, organizados em arquivos temáticos que incluem retratos de família, o uso de cenários e mobiliário na composição da imagem, fotografias pós-morte, além de imagens de santos, natureza, gravuras, dentre outras.

O Museu Nogueira da Silva abriga outro importante acervo, onde estão parte do espólio dos fotógrafos Manoel Carneiro (1866-1909) e Arcelino Augusto de Azevedo (1913-1972). Manoel Carneiro foi proprietário da Casa Carneiro, estabelecimento dedicado a venda de produtos diversos e que tinha entre eles os postais com fotografias de Braga. A casa foi inaugurada por seu pai, Bernardo Carneiro, em 1865, na Rua do Souto. Não constituía, entretanto, uma casa fotográfica, escapando aos objetivos deste trabalho. Suas fotografias falam mais sobre a arquitetura da cidade que propriamente sobre seus moradores.

Neste sentido, Arcelino tem um dos trabalhos mais relevantes do período. Trabalhou inicialmente na Casa Santos Lima, onde aprendeu a fotografar e, de 1934 a 1965, na Casa Pelicano, localizada no Largo Barão de S. Martinho. O acervo do museu abrange sua produção entre os anos 1940 e 1960.

Uma terceira casa fotográfica, a Foto Artine, situada na Rua dos Capelistas, foi fundada em meados do século XX, sem data precisa de abertura, como aponta a investigadora Catarina Miranda. Funcionou até meados da década de 1980. Por meio desta casa, chegamos ao fotógrafo Luís Machado, hoje considerado um dos mais experientes da cidade ainda em atuação em casa de fotografia.

 

Referências

 Benjamin, W. (2012). Pequena história da fotografia. In W. Benjamin, Sobre arte, técnica, linguagem e política (pp. 97-114). Lisboa: Relógio D’Água.

Enes, C. (2011). A fotografia nos Açores (dos primórdios ao terceiro quartel do século XX). Ponta Delgada e Angra do Heroísmo: Presidência do Governo Regional dos Açores e Direção Regional da Cultura.

Freund, G. (1974). Photographie et société. Paris: Éditions du Seuil.

Henisch, H. & Henisch, B. (1994). The photographic experience, 1839-1914: Images and attitudes. Filadélfia: The Pennsylvania State University Press.

Krauss, R. (1985). Photography’s discursive spaces. In R. Krauss, The originality of the avant-garde and other modernist myths (pp.131-150). Cambridge, Massachusetts e Londres: The MIT Press.

Pritchard, H. B. (1882/1971). The photographic studios of Europe. Nova Iorque: Arno Press.

Tormey, J. (2013). Cities and photography. Routledge: Londres.

 

Por Maria da Luz Correia & Fábio Marques

 Braga, 10 de março de 2020

 

A Passeio apresenta: Casas Fotográficas – Por Fábio Marques & Luiz Daminello

Casas fotográficas – Parte 1

 

Casas fotográficas – Parte 2

 

Casas fotográficas – Parte 3

 

Casas fotográficas – Parte 4

 

Casas fotográficas – Parte 5

LOCALIZAÇÃO

LOCAL: Braga

LATITUDE: 41.54544860000001

LONGITUDE: -8.426506999999999