Arte em trânsito: o percurso de Bruno Guedes

Escutar, escrever, contar histórias… sobre as pessoas que habitam a cidade (nos seus mais variados modos), sobre as suas práticas, as suas experiências, as suas memórias… A Passeio esteve no passado junho acompanhada do artista visual Bruno Guedes que nos revelou um tanto das suas vivências, nos conduzindo pelas ruas, imagens e narrativas ligadas à street art em Braga. O vídeo que aqui se apresenta é resultado deste encontro. Abaixo, apresentamos uma galeria fotográfica com registros de intervenções recolhidas e escolhidas pelo artista.

Alinhados com a etnografia e inspirados pelo método da entrevista em movimento (go-along interview) – técnica que consiste na realização de entrevistas não apenas inseridas no meio socio-espacial do entrevistado, como realizadas à medida que o investigador acompanha as práticas do quotidiano do sujeito – propomos este passeio, no qual Bruno passa de entrevistado a cicerone, de criador a curador de arte, de graffiter a narrador urbano.

Nascido em África do Sul, Bruno Fernando Guedes, trinta e dois anos, chegou a Braga aos seis anos de idade, tendo se dedicado às artes visuais desde a adolescência. Há cinco anos intensificou a sua atuação em street art. Bruno é um artista, assinando registos em diversos pontos da cidade (Parque da Ponte, Túnel da Praça Conde de Agrolongo, parque infantil junto à Escola Secundária Dona Maria II, etc.); é ainda produtor cultural, tendo idealizado e realizado em 2016 o BragART – Festival de Street Art; e também divulgador das artes urbanas (e da produção artística e cultural bracarense em geral), tendo alimentado desde 2013 a página BragARTES, na qual acumula um arquivo com quase 200 registos de graffitis nos muros de Braga.

Artista mais ligado ao consenso do que às tensões que envolvem a streetart, Bruno Guedes faz-nos pensar numa ambivalência da streetart e do graffiti que desde cedo se instalou na sua história. Sobretudo nas passagens em que se reporta à dicotomia entre o graffiti ilegal e o graffiti autorizado e negociado com os cidadãos e os municípios, o artista evidencia uma duplicidade que se consubstancia nestes dois aspetos algo paradoxais: por um lado, há uma evidente cumplicidade histórica entre o graffiti e a contestação social em bairros norte-americanos degradados, habitados por jovens afro-americanos e porto-riquenhos, nos anos 60 – referimo-nos, grosso modo, à afinidade entre a street art e o movimento da contracultura. Por outro lado, ainda numa perspetiva histórica, o graffiti não se desenvolve sem que a sua difusão seja acompanhada por um processo de institucionalização e sem que sejam acionados diversos mecanismos de legitimação, pelas galerias de arte, pelos curadores e pela imprensa especializada.

Uma incursão no trajeto histórico do graffiti revela-nos precisamente esta oscilação entre a street art enquanto arte espontânea, clandestina e marginal e a street art enquanto arte agendada, reconhecida e estabelecida. O testemunho em torno da passagem de um graffiti ilegal e marginal, que é origem de conflito entre os habitantes da cidade e de confronto com as autoridades, a um graffiti apoiado pelo município que é motivo de atração para os turistas e pretexto de partilha de padrões estéticos com a comunidade, não nos lembra apenas a ambivalência das origens históricas do graffiti a que nos reportamos anteriormente, mas remete-nos também para o facto de, ao longo do complexo desenvolvimento deste movimento, o graffiti ter sido progressivamente incorporado, nas cidades onde é praticado, pelas dinâmicas de consumo, pela lógica da globalização e pelo fenómeno da gentrificação (termo cunhado nos anos 60 por Ruth Glass para designar o processo de transformação de uma área urbana resultante da saída dos seus tradicionais habitantes com menor poder económico e da entrada de novos residentes com maior poder económico e que é normalmente aliado à especulação imobiliária).

Dos museus e das galerias que o institucionalizam, às grandes marcas que o promovem e o patrocinam, aos agentes de turismo que o incluem nos seus guias e nos seus tours, às redes sociais (do Flickr ao Instagram) e aos dispositivos móveis que encontram nele um tema favorito, às agências imobiliárias que lucram com a valorização operada em bairros e edifícios: a arte de rua é hoje um produto cultural, um objeto de consumo quotidiano que é afetado pela complexidade e pela ambivalência da experiência contemporânea em que se integra. Conforme apontam Laura Naegler (2012) ou Sabina Andron (2018), este estado presente de coisas não permite mais, no universo híbrido do graffiti, erguer uma fronteira clara entre a resistência clandestina, espontânea e transgressiva, de um lado, e a rebelião mediatizada, agendada, e pronta a consumir, do outro. O percurso de Bruno Guedes é um resultado desta hibridez, mesmo se ele assumidamente se põe do lado do consenso social e de uma arte urbana institucionalizada.

Maria da Luz Correia, Helena Pires & Fábio Marques, 12/2018

Confira galeria de registos de arte urbana em Braga (acervo e seleção, por Bruno Guedes):

LOCALIZAÇÃO

LOCAL: Braga