A vida social dos cartazes de protesto

O cartaz móvel, impresso ou, na sua maioria das vezes, feito à mão, constitui um recurso semiótico importante do discurso e das ações coletivas de protesto de rua. Criado para indivíduos por indivíduos, ainda que muitas vezes na companhia de outros, expressa frequentemente preocupações pessoais, através de slogans e/ou de imagens mais ou menos criativas, que dialogam com interesses e memórias coletivas, mas também com o aqui e agora do evento de protesto específico em curso e com a situação social mais global em que o mesmo acontece.

Para além de importantes formas de expressão popular imediata, estes artefactos comunicativos ou retóricos constituem uma extensão significativa dos corpos (Taussig, 2012, p. 75) que se reúnem e fazem corpo em conjunto nos espaços públicos (geralmente urbanos) que reclamam e fazem seus, de uma forma mais ou menos efémera (Butler, 2011; Martín Rojo, 2014). Ao lado de muitos outros signos de protesto, que podem integrar os “repertórios” (Tilly, 2008) de ação comunicativa dos movimentos ativistas, os cartazes feitos à mão são objetos semióticos inerentemente móveis e estão intrinsecamente ligados às ações de protesto em vários níveis, incluindo às suas dimensões espaciais, comunicativas e sociais. Na atual paisagem de comunicação on line offline, poderão ser vistos por alguns como um meio antiquado face, por exemplo, aos posters de parede que, sendo impressos, se prestam a um leque mais amplo de usos, ou aos murais de protesto que, ao serem integrados como partes permanentes de bairros (Sarmento, 2020), transformam o espaço e a experiência de uma forma duradoura, não obstante serem por natureza transitórios (Awad & Wagoner, 2017).

Será o cartaz de protesto um medium antigo em desuso, redundante, que importa descartar? Será assim tão efémero quanto o parece ser? Qual tem sido o destino deste tipo de cartaz de protesto?

A indexicalidade inerente aos cartazes de protesto artesanais não nos deve impedir de observar as biografias culturais específicas (Appadurai 1986) das mensagens propagadas por alguns dos membros desta classe de artefactos. Na cultura contemporânea de protesto, a estreita relação que se tem verificado entre práticas espaciais e práticas nas redes sociais (Gerbaudo, 2012) tem complexificado as trajetórias dessas mensagens que ora viajam da rede para a rua ora da rua para a rede (Lou & Jaworski, 2016; Romana, 2015), abrindo assim a possibilidade de se observar as dinâmicas inerentes às múltiplas “recontextualizações” (Wodak, 2009) por que passam essas mensagens no decorrer dos eventos de protesto, os quais, como se sabe, podem ter uma natureza transnacional ou global (Doerr, 2010). Em resultado de um esforço organizado, os designs destas mensagens são repetidos até ao ponto da ubiquidade, um trabalho facilitado pelo software gráfico, as impressoras caseiras e as tecnologias móveis. Vejam-se, por exemplo, os trabalhos de designers e artistas nos protestos juvenis  em Hong Kong no segundo semestre de 2019, nos protestos anti-Trump em 2017 e os muito conhecidos posters do movimento Occupy nos EUA.

Mas será porventura a vida social (Appadurai, 1986) dos cartazes de protesto artesanais, enquanto classe particular de objetos culturais, o que importa conhecer melhor, já que a força propulsora de mudança poderá estar no impacto de longo prazo que têm em termos culturais.

Conhecem-se bem as rotas do poster ativista de protesto e do poster artístico ativista (aliás, cada vez mais indistintos) entre as ruas e os ateliers, museus ou centros artísticos, bibliotecas, livros de arte e curadorias ativistas (Message, 2014), já que o processo de convergência entre arte e política está em curso há mais de um século e continua a evoluir (Reed, 2016).  Porém, o interesse pela arte do protesto exclui frequentemente os cartazes feitos à mão (vejam-se estas exceções, Still they persist, 20/20 Insight), embora o registo fotográfico dos muitos protestos contemporâneos mostrem a presença continuada deste tipo de forma visual do-it-yourself, acessível a todos, espontânea e frequentemente temporal. Sabe-se porém que a vida destes cartazes pode continuar de diversas formas para lá do evento de protesto a que estão associados – dando lugar, por exemplo, a versões gráficas com propósitos variados, incluindo de “guerrilha semiótica” (Eco, 1994) ou retórica (Burgin, 1976), onde vêem o seu propósito original subvertido; a composições concetuais de artistas interessados em problematizar a linguagem do espaço e da política, como no caso do artista de rua nova iorquino Adam Void; ou a projetos de arte pública, como o levado a cabo em 2018 pelo fotógrafo e professor de arte norte-americano, Jason Lazarus em Miami.

Traçar a vida social dos cartazes artesanais de protesto na sociedade e na contemporaneidade é reclamar a observação-em-movimento destes artefactos comunicativos em vez da sua observação em-um-lugar. É reclamar que o significado que adquirem está nos seus usos e que o lugar, tempo e as dinâmicas sociais, históricas e políticas desses usos e respetivas materialidades importam nos processos da sua ressemiotização progressiva (Iedema, 2007). É sublinhar não tanto a sua mensagem, mas as cadeias de difusão, os processos de sedimentação (Nelson, 2003) e de mudança. É notar que os recursos semióticos, o objeto e a ação trabalham juntos para criar novas realidades. É, em suma, reconhecer que são simultaneamente um objeto do e sobre o passado, presente e futuro.

Referências

Appadurai, A. (1986). Introduction: commodities and the politics of value. In A. Appadurai (Ed.), The social life of things – Commodities in cultural perspective (pp. 3-63). Cambridge: Cambridge University Press.

Awad, S. & Wagoner, B. (eds.) (2017). Street art of resistance. Nova Iorque: Palgrave Macmillan.

Butler, J. (2011). Bodies in alliance and the politics of the street. The state of things. Office for Contemporary Art Norway. Disponível em https://www.oca.no/audiovisual/the-state-of-things-an-excerpt-from-the-politics-of-the-street-and-new-forms-of-alliance

Burgin, V. (1976). From socialist formalism. Studio international, 191(980).  Disponível em http://theoria.art-zoo.com/from-socialist-formalism-victor-burgin/

Doerr, N. (2010). Politicizing precarity, producing visual dialogues on migration: Transnational public spaces in social movements.  Forum Qualitative Social Research, 11(2), Art. 30. Disponível em http://www.qualitative-research.net/

Eco, U. (1994). Viagem na irrealidade cotidiana. Lisboa: Diffel.

Gerbaudo, P. (2012). Tweets and the streets: Social media and contemporary activism. Londres: Pluto Press.

Iedema (2001), Resemiotization. Semiotica, 37(1/4), 23-40.

Lou, J. & Jaworski, A. (2016). Itineraries of protest signage. Semiotic landscape and the mythologizing of the Hong Kong Umbrella Movement. Journal of Language and Politics, 15(5), 609–642.

Martin Rojo, L. (2014). Occupy: The spatial dynamics of discourse in global protest movement. Journal of Language and Politics, 13(4), 583–98.

Message, K. (2014). Museums and social activism – Engaged Protest. Londres – Nova Iorque: Routledge.

Nelson, L (2003). Decentering the movement: Collective action, place, and the ‘Sedimentation’ of radical political discourses. Environment and Planning D: Society and Space, 1, 561-562.

Reed, T. (2016). Protest as artistic expression. In K. Fahlenbrach, K., Klimke, M. & Scharloth, J. (Eds.), Protest cultures (pp. 77-93). Nova Iorque – Oxford: Berghahn Books.

Romano, M. (2015). La protesta social como ‘laboratorio’ de creatividad metafórica. Discurso & Sociedad, 9(1-2), 41-65.

Taussig, M. (2012). I’m so angry I made a sign. Critical Inquiry, 39, 56-88.

Tilly, C. (2008). Contentious performances. Cambridge: Cambridge University Press.

Wodak, R. (2009). The discourse of politics in action – Politics as usual. Hampshire – Nova Iorque: Palgrave MacMillan.

 

 

Zara Pinto Coelho, 01/ 2020

Imagem destaque:  StockSnap por Pixabay