Um Passeio pela Rua de São Marcos

“Tudo tem uma maneira de se pôr. Não é chegar aí: “oh, mete-me aí a caixa” Frutaria

Cada rua de uma cidade é palco de teatralidades, passadeira ladeada por múltiplos estímulos físicos, por composições visuais que se prestam ao exercício da distração e do passeio do olhar. Em particular, as vitrines constituem uma arquitetura simbólica com especial força de captação da nossa atenção. Nas ruas comerciais, os passantes são permanentemente convidados a assumir o papel de espetadores de cenografias que combinam os produtos com os mais variados recursos físicos e formais, tais como linhas, cores, materiais, não esquecendo a iluminação. As mercadorias são apresentadas enquanto signos que se híper-espacializam em ambiências sedutoras, fantásticas, utópicas, catapultando o observador para outros lugares imaginários. Funcionando como interfaces entre o interior-exterior, quer no sentido mais literal, entre a rua e o interior do estabelecimento comercial, quer no sentido de uma espécie de relação psicogeográfica, à maneira de Giuliana Bruno, em que o universo emocional e imaginário, por um lado, e o ambiente físico, por outro, transitam entre si, as montras servem uma passagem, por vezes uma evasão, ainda que meramente simbólica.

Entre junho e novembro de 2017, a Passeio visitou assiduamente a Rua de São Marcos, em Braga, uma das ruas mais antigas da cidade, com cerca de cinquenta estabelecimentos de diversas atividades (sapatarias, cabeleireiros e barbearias, cafés, prontos-a-vestir, perfumarias, frutarias, óticas, farmácias, ourivesaria…), entregando-se ao exercício de colecionar testemunhos, histórias de vida (entrevistas a comerciantes) e fotografias de vitrines. Entreteceram-se dois pontos de vista: o do passante-observador, por um lado, e o do comerciante-vitrinista, por outro. De uma análise mais atenta dos materiais registados decorreu uma primeira arrumação, uma vez identificada uma variação gradativa ao nível das dimensões espácio-temporais que se atualizam em diferentes modos de criação e de composição das vitrines: mudança e permanência (repetição), por um lado, e vitrinismo amador ou profissional, por outro, são possíveis eixos de leitura. Desde as montras decoradas pelas marcas dos produtos, àquelas modeladas de improviso pelos próprios comerciantes, ao sabor das festividades, dos eventos ou das estações do ano, há uma escala de variações singular, a partir da qual se poderá falar da identidade visual de uma rua, do seu caráter único, da forma particular como se atualiza uma sintaxe e se dá expressão ao imaginário social. Apresentadas como pequenas salas de exposição visíveis e direcionadas para a rua, as montras nem sempre se confinam a limites rigorosos, distendendo-se algumas delas sobre o espaço público…

Helena Pires, 01/2018

LOCALIZAÇÃO

LOCAL: Braga

LATITUDE: 41.55023860000001

LONGITUDE: -8.423668300000031