O que é a cidade?

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Podemos imaginar um amplo universo semântico em que se desdobram mil folhas de sentidos. A cidade-global, a cidade-(pós)histórica, a cidade-dual, a cidade sustentável, a cidade vivida, a cidade dos corpos, a cibercidade e a cidade-inteligente, a cidade-natureza, a cidade-museu, a cidade-simulacro…

A permanente transitoriedade, o movimento dos carros, autocarros, barcos, comboios, metros, elétricos, pintalgam a visão cinematográfica de que nos fala Friedberg (2002), descrevendo o modo como experienciamos a cidade, através de uma telemática privada, à medida que avançamos pelas ruas ou avenidas e desfilam perante os nossos olhos fachadas, praças, multidões, cartazes, luzes. A cidade-vertigem, que tal como ilustrada em O Homem da Câmara de Filmar inebria os sentidos dos transeuntes, contrapõe-se ao desejo da slow-city, a cidade sonhada no verso da ideia de modernidade, redesenhada através da substituição do automóvel pela bicicleta ou trotinete, do grande supermercado pelo pequeno comércio, do anonimato pela relação de proximidade e vizinhança. A cidade pode ser uma realidade que se rejeita, sobrepondo-lhe camadas de cidades imaginadas, emergentes no “campo dos possíveis” (Rancière, 2010). Entre a projeção noutros lugares virtuais e utópicos, erguidos sobre a recusa ou a crítica dos lugares vividos, e a cidade que conhecemos, cabem gradações quase infinitas. De lugar apaixonante, celebrado pelos filmes de Woody Allen ou pelas fotografias de Cartier Bresson, a lugar arriscado e temerário (Bauman, 2005), de paisagem global ecrãnizada (Lipovestsky & Serroy, 2007) a realidade rizomática (Lemos, 2004), cartografada pelas APPs e Free WI-FI e medida pela inteligência artificial são múltiplas as visões da(s) cidade(s) hoje, tal qual experienciadas ou imaginadas.

Como se desenha o mapa mental, a “imagem da cidade” (Lynch, 2009) do ponto de vista de quem a habita? De quem a percorre? Centro (histórico)-periferia, dentro e fora da cidade, são hoje coordenadas em disrupção? Que sentidos haverá a descobrir numa história da cidade passada (Mumford, 1998) ou futura? Quais as margens de liminaridade que o flâneur/flâneuse da (pós)-modernidade poderão ainda explorar? Que mistérios lhe estarão ainda reservados? Poderão as personagens de Paul Auster saltar para fora de A Trilogia de Nova Iorque, entregando-se à deambulação por entre os subtis enigmas de outras cidades? Como se vive nos micro-universos escondidos dentro-fora da cidade? Quando se fala de cidade, falamos de quê? Da gestação de uma ruína? Do fim do corpo movente, uma vez libertado pela velocidade ao mesmo tempo que paralisado pelo acidente do tempo presente (Virilio, 2000)? De uma ideia em crise? De que modo se figura hoje a ideia de cidade no cinema, na arquitetura, nas artes visuais, na música, na literatura? Que relação se desenha entre a vida do nosso quotidiano e a cidade? Qual a importância de se pensar a cidade?

“A minha cidade são cidades”. Assim inicia Pinto Ribeiro a sua publicação designada Abrigos, condições das cidades e energia da cultura (2004), pensando sobre “uma nova paisagem geográfica e cultural híbrida”, ao mesmo tempo que “nostálgica de uma modernidade humanista”. Que práticas de relação mantêm os habitantes com o espaço habitado? Poderá pensar-se a cidade como um palco onde se (re)apresentam os direitos, individuais e coletivos, à imagem da res publica, nos termos de Lefebvre (2012)? Fará sentido falarmos sobre “o fim da experiência urbana” (Felice, 2012)? Terá a cidade sido substituída pelas “formas comunicativas do habitar” (Felice, 2012) ou pelas media cities (McQuire, 2008)? Desafiando-nos a pensar sobre a ideia de “cidade” Cacciari (2010) avança: “A cidade enquanto tal não existe. Existem diferentes formas de vida urbana…”!

 

Passeário

Passeário é um projeto em andamento que procura explorar e compreender tanto a cidade-território como a cidade-imaginária, contemplando diferentes paragens, entre as quais:

 

  1. A primeira paragem consiste em registar testemunhos sobre experiências, conhecimentos e imagens associados à ideia de cidade. Alguns dos registos estão acompanhados por referências a uma obra/textos literários, uma obra cinematográfica/filme/documentário e/ou uma peça sonora.
  2. Numa segunda paragem, prevê-se a realização de um ciclo de Passeios temáticos pelas cidades, abertos à comunidade, ao longo dos quais os participantes farão registos de natureza diversa das suas experiências.

 

Nesta primeira paragem, a Passeio convida a(o) visitante-flâneuse (-flâneur) a deambular por entre os múltiplos conteúdos digitais do Passeário (disponíveis abaixo). Combinando escrita, vídeo e leitura, os diferentes itinerários surpreendem com renovadas indagações e/ou tentativas de resposta à pergunta O que é a cidade?

Esta edição conta com a participação de Álvaro Domingues, Bernardo Alves, Carolina Leite, Catarina de Sousa, Cíntia Sanmartin Fernandes, Conceição Teixeira, Eduardo Bueso, Eduardo Miranda, Fábio La Rocca, Fábio Marques, Francisco Mesquita, Helena Mendes Pereira, Helena Pires, João Sarmento, Madeleine Müller, Martin Dale, Miguel Bandeira, Sofia Gomes, Teresa Mora, Thatiana Veronez, Viviane Almeida e Zara Pinto-Coelho.