A melancolia de Catarina Botelho na cidade

“Um passeio por ruas, esquinas, pátios, junto a paredes e à volta de edifícios feitos de tijolo e cimento, indefinidos, como se inacabados. No espaço, não se descortina qualquer presença humana, apenas, aqui e ali, cães adormecidos na cidade deserta que o sol começa a velar. O sujeito deste passeio é tanto o leitor de À Sombra do Sol, livro de fotografia – o primeiro de Catarina Botelho (Lisboa, 1981) – como a própria artista. O primeiro é conduzido pela segunda, mas ambos realizam, ainda que de modos distintos, um encontro com a cidade e a experiência do tempo que ela proporciona.

Editado em conjunto pela Ghost e a Stet, À Sombra do Sol, afirma uma abordagem inédita na produção da artista. Tem um lado diarístico e, ao mesmo tempo, apresenta-se como uma ficção. Há fotografias que se espreguiçam por duas páginas, fotografias de menores dimensões sozinhas no branco do papel e páginas duplas sem qualquer imagem, apenas com palavras que a artista escreveu enquanto deambulava pelas ruas da cidade. Fotografia e palavras, portanto, constroem para o leitor uma ficção incrustada numa experiência no espaço e no tempo. Não é a primeira vez que Catarina Botelho explora as palavras – já o havia feito noutras ocasiões, por exemplo, na série Entre as Nós e as Palavras, citando Mário Cesariny e recorde-se que no filme Notas de Campo (2017) explorava a oralidade de depoimentos – mas em À Sombra do Sol o texto (escrito) tem uma importância incontornável, decisiva. “É paralelo à imagem, traz outros elementos, uma reflexão interna, um pensamento”, diz. | Texto completo